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De festa democrática a bafafá

Vitor Hugo Soares Publicado em 26.10.2010

Olhando bem para os fatos da semana, a campanha presidencial, à medida que se aproxima do fim, perde de vez o quase nada de substância política e conteúdo programático apresentados no primeiro turno pelos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) e os que os apoiam. Qualidades que, a bem da verdade, se deveram principalmente à presença na disputa da candidata do PV, Marina Silva.

Assim, aquilo que deveria ser bonita e exemplar festa do livre, inteligente e saudável confronto de novas ideias e projetos para o País, fica cada dia mais parecido com um bafafá de beira de estrada, semelhante ao narrado na letra de "A Mulher do Aníbal", música interpretada originalmente pelo mestre ritmista Jackson do Pandeiro.

Para os de pouca memória, não custa lembrar: a composição de Genival Macedo e Nestor de Paula, na voz do grande artista paraibano, virou um dos maiores sucessos nos forrós nordestinos nos anos 50/60. Não havia garoto na região - a exemplo deste jornalista que vos escreve - que não tivesse na ponta da língua, letra e música de "A Mulher do Aníbal".

A música foi depois reinterpretada em gravação mais recente de Chico Buarque de Holanda (de avô pernambucano). Por coincidência (ou não?) um dos principais e mais polêmicos personagens políticos desta semana, ao lado de Oscar Niemeyer. O arquiteto, enfrentando a chuva e os 102 anos de idade, como assinalou o jornal português Diário de Notícias, compareceu de cadeira de rodas ao ato de declaração de voto de artistas e intelectuais no Teatro Casa Grande, no Rio.

Uma semana para não esquecer na refrega decisiva entre a petista Dilma e o tucano Serra pelo assento do poder que depois de oito anos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixará livre em janeiro de 2011 no Palácio do Planalto. Nomes de peso no atual "staff" de comando da campanha governista, novamente eufóricos com os mais recentes números das pesquisas, estão convencidos de que "o grito dos artistas" na histórica casa de espetáculos carioca, foi um marco. Serviu para acordar Lula, Dilma e os propagandistas de sua campanha, que andavam sonolentos e sem inspiração diante do inesperado segundo turno que tiveram de encarar.

Os números da mais recente pesquisa do instituto Datafolha, porém, apontam também em outras direções na arrancada final da candidata petista: a popularidade do presidente Lula, que não para de aumentar e quase bate no teto em fim de governo de dois mandatos. Isso teria turbinado o desempenho de Dilma Rousseff, principalmente na região Nordeste, seu maior celeiro de votos no primeiro turno (Bahia e Pernambuco à frente), enquanto o candidato do PSDB, Jose Serra, segue derrapando no Sudeste, área que os tucanos e seus aliados do DEM sempre tiveram como fundamental para uma "virada" antes de 31 de outubro.

No Nordeste (cerca de 27% dos eleitores do país), Dilma cresceu cinco pontos em uma semana, indo de 60% a 65% das intenções de voto. Lula, segundo o Datafolha, registrou esta semana 82% no pico de aprovação para o seu mandato (respostas "bom" e "ótimo"), desde quando assumiu o comando do poder, em janeiro de 2003.

Serra só lidera no Sul, no conjunto das regiões brasileiras, com 50% (tinha 48% semana passada) contra 39% da governista (o percentual era de 40%). No Nordeste, para quem segue acreditando em pesquisas eleitorais, a mais recente Datafolha indica que a vantagem de Dilma é de 37 pontos (Serra só pontua 28% na região quando faltam oito dias para a votação). No Norte e no Centro-Oeste juntos, Dilma tem 49% contra 42% do tucano.

Tudo pode não passar de nuvens de momento, embora os números parecem indicar que cada vez é mais reduzido o percentual dos que acreditam nessa história, incluindo os mineiros que a criaram.Virar o jogo, portanto, não é tarefa fácil para os tucanos e seus aliados no segundo turno. Vários deles, dos mais importantes, já abatidos no primeiro. Muito menos com campanha conduzida nos moldes arruaceiros atuais.

O coco do sucesso de Jackson do Pandeiro pergunta em seu refrão principal: "Que briga é aquela que vem acolá?". E narra o bafafá da mulher do Aníbal com o Zé Hangar, iniciada "numa brincadeira lá no brejo véio", na qual a mulher do Aníbal foi dançar, "e o Zé inxirido, quis lhe conquistar". O tempo virou, e de madrugada, no meio da estrada, o pau ainda "tava comendo".

Mais não conto para não tirar a graça. Quem não conhece ainda a historia, que a escute na voz de Jackson do Pandeiro ou de Chico Buarque. Só posso adiantar que o caso não acaba bem para o Zé do Hangar. Mas isso é coco e não tem nada a ver com eleição.

Ou será que tem?

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Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog Bahia em Pauta ( http://bahiaempauta.com.br/).

Fonte: Terra Magazine