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O círculo de fogo americano – dinheiro, poder, poder, dinheiro.

Reginaldo Moraes Publicado em 17.01.2017

Hoje muito se fala sobre a concentração de riqueza e poder nos Estados Unidos. Muito mais do que há uns 30 anos atrás. O resultado das “reformas estruturais” e da “reengenharia’ das empresas não foi democracia, nem desenvolvimento, nem distribuição de felicidade e segurança. Foi um mundo de mais insegurança e violência e uma polarização brutal de rendas e formas de vida.

Famílias negras e imigrantes morram em bairros abandonados de Detroit, cidade falida e sem empregos

Essa polarização acelerou-se nos últimos quarenta anos. Sobre esse tema, recolhi alguns gráficos do site de esquerda Mother Jones, que transportei para um software de tratamento de imagem e fiz as traduções e adaptações necessárias para a compreensão de um leitor brasileiro. Aí vão. Creio que são úteis para ver o que aconteceu lá no norte do globo e, de quebra, pensar nas réplicas esfarrapadas do chamado Sul Global.

 

Gráfico 1 

Fonte: Extraído da revista Mother Jones. Disponível em: .

O gráfico mostra a diferença de crescimento das rendas, por faixa, entre 1980 e 2007. Para a média das famílias, o que se viu foi a estagnação ou um crescimento quase nulo. Com exceção dos 20% mais ricos: esta faixa teve um pequeno crescimento. Mas o pessoal do verdadeiro topo, os 1% de cima, saltou vários degraus. O leitor deve notar que esse gráfico mostra a evolução da renda “before taxes”, antes dos impostos. Reflete aquilo que se produz na economia, antes do recolhimento dos impostos e das transferências de renda. É bom esclarecer: não se resume a “aquilo que se produz pelo funcionamento do mercado”, mercado de trabalho ou o que quer que seja. Não exatamente: porque boa parte desses resultados é severamente influenciado por instituições políticas – as leis de proteção ambiental ou trabalhista, as regulações publicas etc. Portanto, essa renda é resultado do tal “mercado” mas, também, do funcionamento das instituições políticas reguladoras, das leis da “economia mista”. Mas quando entram a política tributária e os programas de transferência de renda seríamos levados a esperar uma “correção da desigualdade”, isto é, a esperar que tal intervenção do estado entraria em cena para “corrigir” as desigualdades produzidas pela dureza do modelo econômico. Mas, não é isso que acontece. Veja a evolução das rendas “depois dos impostos”.

Gráfico 2

Fonte: Congressional Budget Office.

Como se nota, na sociedade norte-americana, o efeito da política tributária e dos programas de transferência não é uma redução da desigualdade e uma melhora na situação do andar de baixo. Não. A Tabela 1 mostra que, com essas políticas, a participação dos mais ricos na renda gerada aumentou. Aparentemente, as políticas “sociais” do estado norte-americano – as transferências de renda – estão funcionando como um Robin Hood invertido: ele tira dos pobres e transfere para os ricos. Confirma-se a profecia de São Mateus: Daqueles que nada têm, ainda mais lhes será tirado; para aqueles que tudo têm, ainda mais lhes será dado.

E é isso mesmo. A Mother Jones fez as contas desse assalto à mão armada (afinal, assalto feito dom a força do Estado, cuja essência é a arma).

 

Tabela 1 

Essas transferências ajudaram a acelerar terrivelmente a polarização social. E um dos seus segredos é a fantástica política de cortes de impostos para as rendas altas, desde Reagan e passando pelos dois Bushs, ao lado de normas, leis e resoluções que permitem que os ricos paguem o imposto que julguem mais cômodo. Perfeitamente legal, como diz o título de um jornalista investigativo norte-americano que descreve essas manobras. O Congresso aprovou todas. E ninguém deveria se surpreender com isso. É para isso que servem os amigos.

Veja o comentário certeiro de David Cay Johnston:

O esforço da América corporativa para moldar a ambos os partidos políticos para obedecer a seu comando foi cada vez mais bem-sucedido, na medida em que os políticos precisavam cada vez mais de contribuições para comprar os anúncios de televisão que os reelegeriam. Os políticos insistiam que ninguém comprou seu voto com sua doação e isso era verdade. Mas o que as doações de fato compravam, todo político reconhece, foi o acesso. Esse acesso significava que cada senador e representante estava ouvindo principalmente as preocupações e ideias dos super-ricos, da classe política do doador. Ao mesmo tempo, as forças do outro lado – sindicatos, defensores dos consumidores e instituições de caridade de serviço social – tinham pouco para dar e, exceto para os sindicatos, eram impedidos por lei de fazer doações de campanha. Estas forças foram tão debilitadas que o Congresso frequentemente se comportou como uma subsidiária da América corporativa, permitindo que os super-ricos usassem seu acesso aos legisladores para afirmar que o que era bom para eles era bom para o resto da América. (Johnston, David Cay – Perfectly Legal – the covert campaign to rig our tax system to benefit the super rich and cheat everybody else, ed. Penguin, N.York,  2003, p. 44)

Nas eleições de 2000, para o Congresso, o apartidário Center for Responsive Politics descobriu que mais de 80% das contribuições políticas identificáveis vieram de um em cada 625 norte-americanos. Nas eleições de 2002, a proporção caiu para 1 em 833, aproximadamente, igualando os 1% do topo.

Resumindo a ópera. Como dissemos, podemos ficar imaginando o que fazem com esse dinheiro os tais 0,01%, umas 14 mil pessoas que ganham, por ano, US$ 24 milhões. Podem ter consumo excêntrico, dando festas em que enchem uma lagoa de champanhe, podem comprar quatro jatinhos e castelos em várias partes do país e do mundo. Mas há um item na cesta de consumo deles que é especial, porque não é apenas consumo, é investimento. É consumo, sim, porque se divertem com isso, mas é investimento, porque reverte em mais lucro ainda. Esse item é: politica. Os 0,1% dos cidadãos mais ricos dos Estados Unidos são responsáveis por 85% do financiamento das campanhas políticas. Simples assim. Eles compram política. Compram campanhas políticas, compram leis, compram interpretações da lei (juízes e suas sentenças), compram vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores, xerifes. O que vier eles traçam. Ah, sim, não vamos nos esquecer: eles também compram organizações especializadas em impedir ou desestimular o voto dos desgraçados. E assim, como têm muito dinheiro, compram a política. E comprando a política isso lhes garante mais dinheiro. O círculo se fecha. O único risco que correm é essa coisa ficar tão podre, mas tão podre, que a insatisfação saia por outros poros, como o crime, a violência aparentemente “gratuita”. Mas, para isso, bom, para isso eles compram mais leis, mais  policiais, mais presídios. E mais pastores, radialistas e locutores de TV despejando lixo para seu respeitável público. 

Publicado originalmente em seu blog no Jornal GGN