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A Seleção Brasileira e o torcedor freguês

Osvaldo Bertolino Publicado em 15.06.2018

A vitória ou a derrota em si não querem dizer nada. Afinal, como esclareceu o locutor Galvão Bueno, da TV Globo, “só um time pode ser campeão”. O problema é que o “camisa-dez” saiu de campo e com ele aquele líder com o poder de conduzir o time à vitória. Hoje, o futebol é regido pela égide da ciranda financeira.

Nike, em grego, significa vitória. Mas para o futebol, a principal marca esportiva da Seleção Brasileira pode ser associada à derrota. Ela ajuda a entender melhor os motivos que levaram a nossa Seleção a se distanciar do futebol exuberante de outros tempos, impondo a tática dos negócios sobre o jogo com o “camisa-dez” — aquele jogador que usa mais o cérebro do que as pernas, deixando o time mais vistoso, mais inteligente. No Brasil, depois das gerações de ouro das décadas de 1960, 1970 e 1980, vimos desfilar talentos como Giovanni, Alex, Diego, que sumiram do mapa futebolístico da Seleção com a tática extra-campo.

Aquela velha máxima de que o importante é competir cedeu lugar à disputa acirrada pelos bilhões de dólares que circulam nesse mundo rarefeito. O “camisa-dez” saiu de campo — Zinedine Zidane foi o último desse espécime — e com ele aquele líder com o poder de conduzir o time à vitória. Não há mais, no futebol “moderno”, aquela figura que gozava de um poder não instituído. Nas Copas do Mundo de antes, se falava tanto desse jogador quanto do nacionalismo mesquinho característico desse evento esportivo.

Hoje, o futebol é regido pela égide da ciranda financeira. Os berros dos técnicos têm o mesmo efeito da antiga gritaria dos operadores das bolsas de valores. Um título futebolístico tem papel tão derivativo quanto mudanças na cotação do peso argentino em relação ao dólar no futuro ou a taxa de juros embutida numa ação da Petrobras. O prestígio esportivo da Seleção Brasileira, por exemplo, ajudou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a transformar o time numa máquina de fazer dinheiro, vendendo amistosos e carregando uma penca de patrocinadores.

Transformação do mundo da bola

Muito mais significativo do que as cifras envolvidas é o movimento por trás delas. Mais da metade da receita anual da Seleção Brasileira é garantida por três grandes contratos de patrocínio — com a Nike, com a Ambev e com a Vivo. Outra fatia importante do faturamento vem das cotas pagas ao time pelos amistosos disputados no exterior. Nesse caso, vem sendo também registrado aumento substancial de valores ao longo dos últimos anos. Um jogo amistoso dos canarinhos equivale ao cachê de um show de estrelas do rock, como os Rolling Stones e o U2.

Os direitos de transmissão de cada uma das partidas disputadas pela Seleção são vendidos pela CBF à Rede Globo, que tem contrato de exclusividade para os canais abertos. A emissora paga 600 mil dólares por evento à entidade. Até mesmo os períodos de treinos e concentrações são usados para aumentar os lucros da CBF. Nas semanas que antecedem a estreia na Copa da Alemanha, a seleção recebeu 1,2 milhão de dólares para se hospedar no luxuoso Park Hotel Weggis, na região de Lucena, na Suíça. O pacote incluiu a realização de dois jogos-treinos no país.

A transformação do mundo da bola num negócio milionário, ocorrida no início da década de 1990, ajudou a Seleção a atingir o atual faturamento. Graças à sua hegemonia nos gramados, o time alcançou patamar privilegiado de visibilidade no mais popular esporte do planeta — uma posição que não se modificou mesmo depois do fiasco de 2014. Isso gerou a multiplicação de valores de todos os negócios que envolvem a Seleção.

Atuação de Ronaldo fora de campo

Um estrela da Seleção, em particular, também se beneficiou muito dessa condição; o atacante Ronaldo. Além dos ganhos com sua imagem, ele soube como ninguém surfar nessa onda de negócios no futebol. Nunca um atleta brasileiro esteve no epicentro de somas tão estratosféricas. A Siemens, companhia alemã que fabrica desde softwares para computadores até reatores atômicos e tem faturamento de 80 bilhões de dólares, lançou uma linha mundial de celulares com a marca do jogador. O acordo foi firmado depois que uma pesquisa da empresa mostrou que a venda dos aparelhos cresceu 27% no Brasil apenas porque Ronaldo vestia a camisa do Real Madrid, clube patrocinado pela Siemens.

A Ambev, maior fabricante de bebidas do Brasil, tem uma experiência semelhante. A direção da companhia contratou Ronaldo para a inauguração de uma fábrica na Guatemala. O país parou, as pessoas invadiram as ruas e a maior rede de televisão local transmitiu durante 2 horas um programa sobre a vida de Ronaldo em horário nobre. Três meses depois, a Ambev, uma companhia de quase 2 bilhões de dólares, já detinha 40% do mercado local. E a Nike lançou uma linha de roupas esportivas com a assinatura do jogador. Essa linha veio se juntar aos produtos já oferecidos pela empresa, um colosso de 12 bilhões de dólares por ano — um bilhão só com o futebol.

Muito já se falou sobre a atuação de Ronaldo dentro de campo. Ele já foi uma promessa do futebol, o Fenômeno, o desenganado pelos médicos e o melhor jogador do mundo. Foi chamado até de “gordito” pela imprensa espanhola. Mas o que poucos conhecem é o funcionamento da estrutura que havia por trás do jogador, uma máquina de gerar lucros para as empresas com as quais ele trabalhava e, claro, para ele próprio. Hoje, Ronaldo é um dos ex-atletas mais ricos do mundo. Sua saúde financeira deu origem a um bem estruturado grupo empresarial com oito companhias, o grupo R9.

Ronaldo possui quatro empresas no ramo de imóveis, uma de participações e licenciamentos, uma clínica de fisioterapia e duas empresas só para gerenciar seus contratos de publicidade. Só estas últimas, a Empório Ronaldo e a Mike (não confundir com Nike), lhe rendem mais de 60 milhões de reais por ano. Ele também transita pelo submundo do futebol — seus antigos empresários, Alexandre Martins e Reinaldo Pitta, foram presos por envolvimento num escândalo de lavagem de dinheiro.

Comissões Parlamentares de Inquérito

Como administradora da seleção, a CBF tem aproveitado esse cenário favorável para fechar bons acordos comerciais. “Até a década de 80, o time era sustentado por verbas do governo”, disse certa vez Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF. Aos poucos, as estatais foram sendo substituídas por empresas privadas. Os valores dos contratos de patrocínio alcançaram novo patamar quando a Nike se tornou parceira da Seleção, em 1996. Até hoje a multinacional norte-americana contribui com parte substancial do faturamento da equipe: são 12 milhões de dólares por ano.

O contrato vai até 2018. Uma cláusula previu bônus de 6 milhões de dólares em caso de vitória nos mundiais de 2010, 2014 e 2018. Além do direito de ser a fornecedora de material esportivo do time, a Nike pode explorar a imagem da Seleção em uma série de produtos. A empresa lançou, por exemplo, uma linha de quatro relógios com as cores e o escudo da seleção. Cada modelo custa cerca de 600 reais. O aumento do faturamento do time brasileiro nos últimos anos veio acompanhado de uma série de denúncias de irregularidades nos principais contratos firmados por Ricardo Teixeira.

Os negócios foram alvo de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), uma na Câmara dos Deputados e outra no Senado. O relatório final das investigações, divulgado em 2001, apontou indícios de 17 crimes envolvendo os principais dirigentes do futebol brasileiro, como evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. O Ministério Público Federal deu prosseguimento às investigações, mas os processos ainda não foram concluídos.

Os prejuízos desse modelo para o futebol são evidentes. Uma semana antes da Copa de 1998, por exemplo, a Nike, tentando capitalizar ao máximo o momento, convocou os jogadores para participar de uma festa de inauguração. O capitão Dunga (patrocinado pela Reebok) chegou a dizer que os jogadores deviam treinar, e não participar de eventos sociais. Depois da derrota para a França na final (por 3 a 0), foi levantada a possibilidade de que a Nike teria sido a responsável pela escalação de Ronaldo, que acabara de passar por crise convulsiva. Naquele evento ficou patente a influência dos patrocinadores nos destinos da seleção.

Isqueiros e cinzeiros 

A confusão começou nos amistosos que antecederam a Copa de 1994. Como não havia comprado cotas de patrocínio nas emissoras de TV, a Brahma invadiu os estádios com placas e torcidas uniformizadas. O jogador Bebeto, patrocinado pela cervejaria, chegou a comemorar um gol fazendo o número 1 (exatamente como fazia nos comerciais da Brahma). Em represália, as câmeras da Globo enquadravam o campo apenas parcialmente, para impedir que a sinalização da Brahma entrasse em cena. O telespectador chiou com os cortes nas transmissões dos jogos. O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) intercedeu. No final, a Brahma diminuiu a presença nos campos e as emissoras voltaram a transmitir os jogos normalmente.

A Fédération Internationale de Football Association (Fifa) também está toda contaminada por esta lógica. Num artigo publicado na revista científica Lancet, alguns médicos questionaram a inclusão de companhias como a cervejaria Budweiser, a indústria de refrigerantes Coca-Cola e a cadeia de fast-food McDonald’s como parceiros oficiais da Fifa. Segundo os autores do artigo, a entidade tem a obrigação de evitar relacionamentos com patrocinadores que não sejam adequados. Após a Copa de 2002, a Fifa recebeu uma premiação pelo combate ao fumo por ter feito o torneio com severas restrições a fumantes e rejeitando anunciantes ligados a empresas de tabaco.

Na Copa de 2006, no entanto, a proibição de se fumar nos estádios foi abolida e era possível encontrar isqueiros e cinzeiros entre os produtos oficiais da Copa. “A presença de parceiros da Fifa como a Budweiser, a Coca-Cola e o McDonald’s ilustra bem o conflito existente entre o esporte internacional e a promoção de um modo de vida saudável”, diz o artigo. “Esta tensão reforça a necessidade de se reavaliar as relações entre organizadores e seus patrocinadores, assim como dos governos assegurarem a eficiência das suas legislações e do investimento público no esporte de elite”, afirmam os autores.

O poder do dinheiro grande

Na Copa da França, em 1998, os anúncios de bebidas alcoólicas ficaram fora dos estádios. E nem por isso os franceses deixaram de mandar a campo um time impressionante. O lema da Copa, C est beau, un monde qui joue (É bonito, um mundo que joga), completava aquela combinação de esporte e lazer. Mas era um esforço isolado. Ali perto, na Inglaterra, a Federação Inglesa de Futebol é patrocinada pelo McDonald’s. O futebol do país está tomado por grupos econômicos — alguns deles operando com dinheiro de duvidosa procedência.

O renascimento do futebol no Reino Unido aconteceu a partir de 1992 quando Murdoch e a British Sky Broadcasting investiram milhões de libras esterlinas, pagando pelos direitos de transmissão ao vivo das partidas (até aquele momento, não havia cobertura ao vivo dos jogos das equipes inglesas) — um modelo que está sendo copiado em vários lugares, inclusive no Brasil. Um dos principais problemas é a publicidade na TV.

A maioria dos canais não coloca anúncios no ar durante as partidas, pelo simples motivo de que o futebol é um esporte com pouco tempo de interrupção. Por isso, os nomes dos patrocinadores são expostos em placas em volta do campo. Já se fala em mudanças nas regras do futebol para facilitar a veiculação de comerciais na TV. Isso seria o fim do futebol tal como o conhecemos hoje. O problema é que o futebol está ganhando dinheiro grande. E o dinheiro grande muitas vezes acaba conseguindo o que quer.