Especiais - Futebol, beleza e arte que conquistaram o Brasil

Utopia fatal

Nelson Rodrigues Publicado em 10.04.2014

O portal do Ministério do Esporte publica até o mês de junho, às vésperas da Copa do Mundo, uma série de crônicas escritas por Nelson Rodrigues entre as décadas de 1950 e 1970. Os textos foram publicados no livro “A Pátria de Chuteiras”, lançado em 9 de dezembro pelo ministro do Esporte, Aldo Rebelo.Confira o 15º texto da série de crônicas de Nelson Rodrigues

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São 40 crônicas selecionadas pelo próprio ministro em um trabalho de pesquisa de mais de um ano. O futebol foi a metáfora utilizada por Nelson Rodrigues para a apresentação e a divulgação de um Brasil eficiente e vitorioso.

Confira abaixo a 15ª crônica da série: “Utopia fatal”. O site do ministério publica dois textos por semana, aos domingos e às quintas-feiras.

"Em futebol, como em tudo o mais, o craque é decisivo. Evidente que os onze são indispensáveis. Mas o que leva público e faz bilheteria é o craque. Eu diria que, no time de Pelé, só ele existe e o resto é paisagem."

Utopia fatal (1)

Amigos, leio uma entrevista do técnico alvinegro, Admildo Chirol, na qual ele condena “as estrelas solitárias do futebol atual”. Eu admiro os portadores de certezas definitivas, imutáveis. E o que se sente, nas palavras de Chirol, é que ele não faz a concessão da dúvida, de um “talvez”, de um “quem sabe?”. Não. Tudo, em Chirol, tem a ênfase de uma última palavra.

Mas vejamos as suas verdades. Diz ele que a Copa do Mundo de 66 veio trazer o “futebol brasileiro à realidade”. Ao ouvir falar em “realidade”, poderíamos perguntar: — “Qual delas?” E, então, Chirol explica a “sua” realidade. Diz textualmente: — “O personalismo não é mais concebido dentro de uma equipe, e sim o coletivismo.” Percebe-se que, ao falar assim, o simpático treinador vibra de certeza inapelável e eterna.

Nada de estrelato, de homem-chave, de vedetismo. Todos iguais entre si como soldadinhos de chumbo. E assim vai a entrevista, ressoante da palavra encantadora: “Coletivismo, coletivismo.” Cabe então a pergunta: — será isso possível? Não estará o caro Chirol correndo o risco de se envenenar a si mesmo e ao time com uma utopia fatal? Vejamos.

Seja como for, uma observação cabe inicialmente: — o ponto de partida de Chirol é altamente discutível. Segundo ele, a recente Copa trouxe o Brasil à realidade. Inexato, inexato. A Copa não valeu como teste, e repito: — o futebol brasileiro lá não esteve. Apenas testou-se a inépcia, a incompetência e a burrice da nossa Comissão Técnica. Fomos derrotados não pelo “coletivismo” dos outros, mas pela burrice dos nossos dirigentes.

Mas o dramático, na entrevista de Chirol, é o fim que ele deseja e que ele anuncia do homem-chave, do homem-estrela, do craque quase divino. E aqui começam as minhas dúvidas. Terá ele meios e modos de apagar as dessemelhanças individuais que fazem o charme dos homens, povos, religiões e times? Em caso afirmativo, será desejável esse nivelamento absoluto e alvar?

Toda a experiência humana parece estar contra Chirol. Ninguém admite uma fé sem Cristo, ou Buda, ou Alá, ou Maomé. Ou uma devoção sem o santo respectivo. Ou um exército sem napoleões. No esporte também. Numa competição modesta de cuspe a distância, o torcedor exige o mistério das grandes individualidades. No futebol, a própria bola parece reconhecer Pelé ou Garrincha, e só falta lamber-lhes os pés, como uma cadelinha amestrada. Ai do teatro que não tenha uma Sarah Bernhardt ou uma Duse (2).

Em futebol, como em tudo o mais, o craque é decisivo. Evidente que os onze são indispensáveis. Mas o que leva público e faz bilheteria é o craque. Eu diria que, no time de Pelé, só ele existe e o resto é paisagem. Em 62, já os europeus faziam o seu coletivismo. Pois bem. Pois o nosso Mané, com um piparote, desmontou todo o coletivismo do inimigo. Num instante, a estrutura do futebol solidário esfarelou-se.

Na Inglaterra, na Alemanha e por todo o Velho Mundo — o tal coletivismo é mais plausível, e explica-se: — lá há uma miséria de talentos individuais. E como a robustez sobra, baseia-se o futebol em correrias delirantes e obtusas. Aqui, não. Não há um brasileiro, vivo ou morto, que  não tenha na sua biografia uma velha pelada. Agora mesmo, no aterro. De vez em quando, desponta um craque nas peladas que lá se disputam.

A meu ver, a teoria do Chirol apresenta dois defeitos: — primeiro, é inexequível; segundo, é indesejável. No dia em que desaparecerem os Pelés, os Garrinchas, as estrelas, enfim, será a morte do futebol brasileiro. E, além disso, no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais — será a morte do próprio homem.

Amigos, não sei se bem entendi. Mas para fazer o seu futebol impessoal e coletivista, o caro Chirol terá de preliminarmente mudar o homem. Para isso, terá que pedir à diretoria do clube uns vinte séculos ou mais. Note-se, porém: — antes dele, Cristo tentou a mesma coisa e fracassou. Os pulhas estão aí, impunes e bem-sucedidos.

O Globo, 17/8/1966

(1) Título sugerido pela edição do livro A pátria em chuteiras (Companhia das Letras, 1994). A crônica foi publicada originalmente na coluna “À sombra das chuteiras imortais” sem título. (N.E.)

(2) Sarah Bernhardt foi uma famosa atriz francesa. Nasceu em Paris, no ano de 1844, e faleceu em 1923 na mesma cidade. A atriz fez algumas apresentações no Brasil. Eleonora Duse foi uma das mais importantes atrizes italianas. Nasceu em Vigevano, em 1858, e faleceu em 1924, na cidade de Pittsburgh, Estados Unidos.