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Biografia da nação: História e luta de classes

José Carlos Ruy Publicado em 19.07.2018

A Editora Anita Garibaldi lança o novo livro do jornalista e historiador José Carlos Ruy, Biografia da nação: História e luta de classes. O portal Grabois disponibiliza as apresentações e resenhas do historiador Altair Freitas e do sociólogo Julio Vellozo.

 

José Carlos Ruy é jornalista e historiador. Participou do jornal Movimento e da revista Retrato do Brasil; foi editor do jornal A Classe Operária; é membro da equipe do Portal Vermelho, da Comissão Editorial da revista Princípios, do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois.

Um profundo estudo do Brasil

Altair Freitas

A leitura – e mais do que isso, o estudo – deste livro merece entrar para aquela lista de obras preferenciais para toda pessoa que queira compreender de modo mais profundo o que é o Brasil, como foi possível ao povo brasileiro e às principais forças políticas e econômicas, construir uma das maiores nações do mundo, considerando o período histórico iniciado a partir da invasão e ocupação dos portugueses entre o final do século XV e as primeiras décadas do XVI, na esteira do processo de expansão da Europa, singelamente conhecido por todos como “As Grandes Navegações”.

A Biografia da nação, história e luta de classes, tem a marca registrada do seu autor, o jornalista e pesquisador marxista José Carlos Ruy: o manejo de conceitos e instrumentos fundamentais do marxismo como a Luta de Classes e o Materialismo Histórico e Dialético, não apenas como referenciais teóricos, mas como verdadeiros equipamentos da ciência histórica e social para analisar o desenvolvimento do Brasil à luz do estudo de uma vasta bibliografia que remonta à fantástica carta descritiva de Pero Vaz de Caminha sobre a chegada da esquadra Cabralina em 1500.

 O livro é, portanto, também, uma deliciosa viagem pela produção literária de gerações a fio de portugueses, estrangeiros e, especialmente, de brasileiros – desde as primeiras gerações de descendentes dos primeiros colonizadores lusitanos que se aventuraram por aqui. Uma viagem que abrange praticamente todos os matizes e variantes ideológicos que nortearam aqueles (as) que escreveram sobre o Brasil. É um livro sobre livros e sobre as variadas interpretações sobre o que foi o Brasil, sobre o que era o nosso país e suas perspectivas futuras quando analisado pelas “penas” dos diversos escritores, historiadores, pensadores, com particular acento no estudo sobre como o pensamento marxista brasileiro buscou compor uma visão sobre o nosso desenvolvimento, contradições, lutas, limites e potencialidades.

Mas o grande mérito do livro não são as referências bibliográficas, uma “biografia da biografia” mas a efetiva compreensão sobre a enorme complexidade envolvida na construção do Brasil como nação. Sendo inicialmente uma colônia clássica do tipo “por exploração”, destinada a ser um anexo da economia portuguesa, fornecedora de produtos agrícolas e ouro para Portugal – processo que nos aproxima de modo profundo às demais nações da América Latina, resultantes do mesmo processo histórico – o Brasil superou Portugal a partir de um determinado momento em pujança econômica. E a partir daí vivenciou-se nestas terras tropicais lutas renhidas, complexas, envolvendo as classes sociais fundamentais – senhores de engenho e escravos e burguesia e proletariado – mas também a profunda dicotomia crescente entre colônia e metrópole, país independente e imperialismo, tudo isso emaranhado às lutas entre facções, segmentos, frações das classes dominantes entre si pelo controle do Estado, colonial e, posteriormente, nacional. Um livro, enfim, para ser lido, relido, estudado.

PREFÁCIO

Julio Vellozo

Contar a história do Brasil foi uma das aventuras intelectuais mais importantes desses quase duzentos anos de vida independente do país. José Carlos Ruy, que está nessa labuta há muitas décadas, oferece ao público leitor mais amplo, e também aos especialistas, uma obra decisiva, destinada a figurar entre as mais importantes sobre o assunto.

Nela, o autor segue o ensinamento mais citado do que implementado de Lukács de que a única ortodoxia que os marxistas devem aceitar é a do método. O método usado é o materialismo dialético, mas não em suas versões caricaturais. Ruy consegue se manter longe das vulgatas deterministas que ainda pululam em nossas livrarias e que só ajudam a desmoralizar o marxismo entre os interessados em história.

Rigoroso e consequente, Ruy escolhe a luta de classes como fio condutor da história da nação e observa a nossa historiografia partindo desse prisma. Deixando claro o lugar do qual escreve e renunciando prontamente a qualquer ilusão de cientificidade positivista, reconhece que toda história parte de uma interpretação comprometida com uma visão de mundo. Um realismo epistemológico honesto e necessário, sistematizado brilhantemente por Michel de Certeau, monge jesuíta que se dedicava à história das religiões.

Os Estados nacionais são um fenômeno bastante datado historicamente, surgiram na virada do século XVIII para o XIX e se viabilizaram através do árduo trabalho de historiadores, que construíram parte decisiva da argamassa na qual eles estão assentados. A ideia de um nascimento glorioso e cronologicamente bem localizado, construído em todos os países obedecendo a essa missão concreta, não poupou nenhuma das nações que conhecemos hoje. Assim, os alemães gostam de pensar que já existiam antes mesmo do Império Romano, algo que estaria referendado na Germânia, de Tácito, escrita em 98 d.C. Os franceses, por sua vez, acreditam que já eram seus vizinhos naquela época longínqua, o que pode ser visto tanto nas narrativas que projetam uma França no reino de Clóvis, no século V, quanto na divertida patriotada gaulesa de um Asterix & Obelix. Os holandeses se veem como descendentes de Brino, o bárbaro que liderou uma assembleia antirromana postado de pé em cima de um escudo. A romantização dos batismos nacionais é extensa e criativa e, em que pese sua base ficcional, traz consequências reais para o povo que neles se banham.

Por aqui, os historiadores brasileiros cumpriram uma função semelhante, consagrando como ponto inicial de nossa trajetória a chegada dos ibéricos a esta parte do continente, em 1500. Para isso, contaram com um grande trunfo: a presença de um escritor de talento na frota de Cabral. De cunho impressionantemente literário, a carta de Pero Vaz ao rei de Portugal serviu como uma certidão de nascimento e tanto para este Brasil mitificado. Apesar de sua força estética, esse início em 1500 se trata, como destaca o autor, de uma construção romântica. De um ponto de vista historiográfico, seria mais adequado dizer que o Brasil nasce com sua independência, em 1822: uma ruptura que pode ser compreendida como parte das chamadas Revoluções Atlânticas que varreram o mundo entre o final do século XVIII e a primeira metade do XIX.

Apontar o caráter mítico do nascimento em 1500 não faz com que o autor exclua a corrente interpretativa que o propõe. Pelo contrário: partindo de elaborações de vários matizes, Ruy tece uma narrativa que é a um só passo uma biografia da nação e dos biógrafos da nação. Trata-se de uma obra sobre a história do Brasil e também sobre sua historiografia. Isso resulta em um texto muito interessante, porque, de fato, história e historiadores devem ser vistos como mutuamente determinados.

Outra força determinante deste livro é Ruy ter escolhido dar lugar decisivo ao escravo em sua interpretação do período anterior à Abolição. Dessa forma, o autor dá a devida atenção aos pensadores que viram nas relações de produção escravistas a chave para o entendimento de um país que, durante três séculos, teve a produção de suas riquezas baseada na coação extraeconômica. Isso implica reconhecer que a violência contra as pessoas escravizadas não era um aspecto acessório da sociedade brasileira, mas parte da própria estrutura produtiva que a sustentava. Se a consciência é resultante da existência material e se, nesta materialidade, o trabalho tem papel central, desconsiderar essa violência cotidiana, permanentemente reiterada durante séculos, é tapar o sol com a peneira.

Também não escapam à abordagem atilada do autor as disputas internas entre diferentes setores das classes dominantes. Ao adotar a luta entre as classes como categoria explicativa, muitos autores acabam incorrendo no erro de enxergar apenas a contradição estrutural entre os produtores de riquezas e aqueles que se apropriam do sobretrabalho alheio, relegando às classes dominantes um retrato de homogênea amorfia. Tal perspectiva, apesar de funcionar bem nos manuais, explica pouco ou nada da história do Brasil. No nosso caso, a dinâmica da luta entre as classes foi, em muitos momentos, presidida por embates entre os setores dominantes, ou mesmo entre os setores médios e os setores dominantes. Como explicar fenômenos como, por exemplo, o tenentismo, sem essa visão mais ampla?

Este é um livro de história das ideias na medida em que seu autor faz um inventário crítico das obras dos principais historiadores do país. Nesse ponto, Ruy se mostra um grande leitor tanto no sentido da quantidade — já que passam pelo seu crivo um enorme número de escritos —, como no sentido de ser um grande analista das ideias alheias, uma tarefa especialmente desafiadora quando muitas dessas ideias são sustentadas por gente cuja visão de mundo lhe é oposta. Nesse aspecto, podemos lembrar do exemplo de Isaiah Berlin: liberal radical, sua biografia de Karl Marx talvez seja das melhores exposições sistemáticas da obra do revolucionário alemão. Isso porque Berlin é um mestre nessa difícil arte de tratar das ideias dos outros, pois sabia, como poucos, separar o momento da compreensão do tempo do juízo e da crítica. Essa qualidade, para além de ser fruto da tolerância e da humildade que todo verdadeiro intelectual deve ter diante do conhecimento, nasce de uma crença na força das ideias, na potência que elas demonstraram ter por si mesmas. Em um tempo difícil como o atual, é sempre bom lembrar dessa potência.

Para além de grande leitor, Ruy demonstra capacidade de realizar articulações interessantes entre pensadores diversos. Para dar um exemplo disso, são criativas e fecundas as ligações entre as obras de Oliveira Viana e Fernando Henrique Cardoso, passando pela visão do Brasil esposada por Golbery do Couto e Silva. Adotando método parecido com o defendido por Gildo Marçal Brandão em seu fundamental Linhagens do Pensamento Político Brasileiro, Ruy constrói filiações de longo curso entre autores, mas o faz de modo pouco convencional, traçando linhas de continuidade pouco óbvias e muito ousadas, como aquela supracitada.

Por todos esses motivos, o que o leitor tem em mãos é uma obra maiúscula, escrita por um intelectual de alto nível: generoso com as ideias alheias, leitor arguto, criador de conexões criativas e expositor de talento. Assim, abolete-se em uma cadeira confortável, junte papel e lápis (o livro merece o esforço de um bom fichamento) e deixe José Carlos Ruy lhe expor tudo o que aprendeu em muitos anos de estudos sobre a história do país e de seus intérpretes.

Professor doutor Júlio Cesar de Oliveira Vellozo, da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da pós-graduação stricto sensu da FADISP.

Biografia da nação: História e luta de classes

Autores: José Carlos Ruy

ISBN: 978-85-7277-194-8
Formato: Livro Impresso
Páginas: 208
Edição: 1
Ano: 2018
Peso em Gramas: 330.00
Formato: 16.00x1.20x23.00
R$ 35,00

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