Prosa@Poesia

Exu

Pierre Fatumbi Verger Publicado em 09.05.2008

*

 

Laroyê!

 

Exu é o mais sutil e o mais astuto de todos os orixás.

Ele aproveita-se de suas qualidades para provocar mal-entendidos e discussões

entre as pessoas ou para preparar-lhes armadilhas.

Ele pode fazer coisas extraordinárias como, por exemplo,

carregar, numa peneira, o óleo que comprou no mercado,

sem que este óleo se derrame desse estranho recipiente!

Exu pode ter matado um pássaro ontem, com uma pedra que jogou hoje!

Se zanga-se, ele sapateia uma pedra na floresta, e esta pedra põe-se a sangrar!

Sua cabeça é pontuda e afiada como a lâmina de uma faca.

Ele nada pode transportar sobre ela.

Exu pode também ser muito malvado, se as pessoas se esquecem de homenageá-lo.

É necessário, pois, fazer sempre oferendas a Exu, antes de qualquer outro orixá.

A segunda-feira é o dia da semana que lhe é consagrado.

É bom fazer-lhe oferendas neste dia,

de farofa, azeite de dendê, cachaça e um galo preto.

 

Certa vez, dois amigos de infância, que jamais discutiam,

esqueceram-se, numa segunda-feira, de fazer-lhe as oferendas devidas.

Foram para o campo trabalhar, cada um na sua roça.

As terras eram vizinhas, separadas apenas por um estreito canteiro.

Exu, zangado pela negligência dos dois amigos,

decidiu preparar-lhes um golpe à sua maneira.

Ele colocou sobre a cabeça um boné pontudo

que era branco do lado direito e vermelho do lado esquerdo.

Depois, seguiu o canteiro, chegando à altura dos dois trabalhadores amigos e,

muito educadamente, cumprimentou-os:

“Bom trabalho, meus amigos!”

Estes, gentilmente, responderam-lhe:

“Bom passeio, nobre estrangeiro!”

Assim que Exu afastou-se, o homem que trabalhava no campo à direita,

falou para o seu companheiro:

“Quem pode ser este personagem de boné branco?”

“Seu chapéu era vermelho”, respondeu o homem do campo à esquerda.

“Não, ele era branco, de um branco de alabastro, o mais belo branco que existe!”

“Ele era vermelho, um vermelho escarlate, de fulgor insustentável!”

“Ele era branco, tratas-me de mentiroso?”

“Ele era vermelho, ou pensas que sou cego?”

 

Cada um dos amigos tinha razão e estava furioso da desconfiança do outro.

Irritados, eles agarraram-se e começaram a bater-se

até matarem-se a golpes de enxada.

Exu estava vingado!

Isto não teria acontecido se as oferendas a Exu

não tivessem sido negligenciadas.

Pois Exu pode ser o mais benevolente dos orixás

se é tratado com consideração e generosidade.

Há uma maneira hábil de obter um favor de Exu.

É preparar-lhe um golpe mais astuto que aqueles que ele mesmo prepara.

 

Conta-se que Aluman estava desesperado com uma grande seca.

Seus campos estavam áridos, a chuva não caía.

As rãs choravam de tanta sede e os rios

estavam cobertos de folhas mortas, caídas das árvores.

Nenhum orixá invocado escutou suas queixas e gemidos.

Aluman decidiu, então, oferecer a Exu grandes pedaços de carne de bode.

Exu comeu com apetite desta excelente oferenda.

Só que Aluman havia temperado a carne com um molho muito apimentado.

Exu teve sede.

Uma sede tão grande que toda a água de todas as jarras que ele tinha em casa,

e que tinham, em suas casas, os vizinhos,

não foi suficiente para matar sua sede!

Exu foi à torneira da chuva e abriu-a sem pena.

A chuva caiu.

Ela caiu de dia, ela caiu de noite.

Ela caiu no dia seguinte e no dia depois, sem parar.

Os campos de Aluman tornaram-se verdes.

Todos os vizinhos de Aluman cantaram sua glória:

 

Joro, jara, joro Aluman,

Dono dos dendezeiros, cujos cachos são abundantes!

Joro, jara, joro Aluman,

Dono dos campos de milho, cujas espigas são pesadas!

Joro, jara, joro Aluman,

Dono dos campos de feijão, inhame e mandioca!

Joro, jara, joro Aluman!”

 

E as rãzinhas gargarejavam e coaxavam,

e o rio corria velozmente para não transbordar!

Aluman, reconhecido, ofereceu a Exu carne de bode

com o tempero no ponto certo da pimenta.

Havia chovido bastante. Mais, seria desastroso!

Pois, em todas as coisa, o demais é inimigo do bom.

 

Pierre Fatumbi Verger

Lendas Africanas dos Orixás

Tradução: Maria Aparecida da Nóbrega

Editora Corrupio – 4ª edição, 1997