Acerbas acusações têm sido lançadas contra a URSS a propósito da capacidade aquisitiva do operário soviético apresentada como inferior à dos operários dos países ocidentais. Todas as estatísticas soviéticas não foram suficientes para provar, pela magia dos números comparados, o atraso econômico da URSS.

É difícil acreditar-se que tantos esforços tenham sido feitos, única e exclusivamente, para demonstrar, por exemplo, que um par de sapatos custa mais caro na União Soviética que num país do ocidente — o que aliás é falso — ou ainda para demonstrar, em palavras de colorido científico, que um par de sapatos representa na União Soviética uma quantidade de trabalho maior que no ocidente. Três anos após o término da guerra, semelhante comparação, mesmo que fosse exata, não provaria, a rigor, nada do que os polemistas têm interesse em provar. Isto porque nós concordamos de bom grado, e mesmo de muito bom grado, que em 1942, por exemplo, quando a URSS foi invadida até ao Cáucaso, um par de sapatos custava aqui mais caro, por certo, do que nos Estados Unidos, que não foram invadidos, nem sequer ameaçados de invasão. Se hoje os sapatos soviéticos estivessem, por acaso, ainda mais caros que os americanos, isto apenas relembraria que a URSS, menos feliz que os Estados Unidos, não pôde, durante longos anos, ficar tranquilamente a fabricar calçado.

É bem evidente que os polemistas não se inclinam com tanto ardor sobre as estatísticas e as tabelas de preços soviéticos, simplesmente para mostrar que os preços soviéticos, numa determinada data e num determinado local, à sua escolha, são mais elevados do que no Ocidente. Sua intenção é fazer com que o leitor chegue à conclusão de que os preços são necessariamente, sempre e em toda parte, mais elevados na URSS do que no Ocidente, que o nível de vida ali é necessariamente mais baixo e que isto é a consequência necessária do socialismo, considerado como o pior dos males.

O Sr. André Pierre, que em 1945 escreveu um livro exaltando a URSS(1) e atualmente é o principal fornecedor de matéria anti-soviética ao jornal “Le Monde”, apresenta em “Uma Semana no Mundo”, de 17 de abril de 1948, um quadro com desenhos, sugestivos para mostrar, a seu modo, como vivem o operário russo e o operário americano. Acompanha sua exposição com um quadro sinótico, feito às pressas, exprimindo em horas de trabalho, ou mesmo em minutos de trabalho, o valor de um par de sapato, de um quilo de pão branco, de uma dúzia de ovos, etc, nos dois países. É claro que, a lhe darmos crédito, tudo isto e o resto custam mais caro na URSS do que nos Estados Unidos, o que lhe permite deduzir que

“a prosperidade e a alegria sob o regime soviético” não passam de “mentiras de propaganda”.
Mas o Sr. André Pierre e seus colegas, que tanto se empenham em comparar os preços soviéticos com os preços ocidentais, a fim de chegar à conclusão da interioridade do regime soviético, nunca estabeleceram, ao que sabemos, uma comparação idêntica entre dois países capitalistas, entre a França e os Estados Unidos, por exemplo. Ou se o fizeram, nunca tiraram outras conclusões, além das de ordem técnica e intrínseca, relativas por exemplo à interioridade ou superioridade do equipamento industrial. Então perguntamo-nos como se arranjará o Sr. Pierre perante a boa fé e a lógica quando, a respeito da União Soviética — e só a respeito da União Soviética — chega a conclusões não exclusivamente de ordem técnica, mas sim de ordem fundamental.

A mesma pergunta pode ser feita, por exemplo, ao Sr. Thierry Maulnier. Também ele chega a conclusões categóricas, desta vez à base de uma simples comparação de certos preços soviéticos e franceses. E que conclusões!

“O operário da pátria do proletariado vitorioso é muito possivelmente o operário mais pobre do mundo”(2).
O que quer dizer, evidentemente, que o operário é pobre na União Soviética porque o proletariado ali é vitorioso, e que estaria em melhores condições se fracassasse.

“Por meio de que lógica eclética tiraram da comparação de preços básicos conclusões de princípio contra o único regime socialista?” — essa a pergunta que deve ser feita a muitos outros de nossos contraditores, alguns eminentes, outros não, que proclamaram que nenhum dos algarismos por eles mencionados poderia ser repetido diante de um auditório de pessoas que confiam na União Soviética, sem fazer imediatamente desmoronar essa confiança. Estamos, no entanto, no meio da viagem. E quando um viajante se encontra em determinado ponto de sua viagem, não sabemos se está no caminho certo ou errado. Então só uma pergunta é justa: “de onde vem e para onde vai?” E de acordo com a resposta, dir-lhe-emos: “segue” ou, então — “por ai não tem saída”.

Para eles, porém, não se trata de lógica, mas de um objetivo a atingir, mesmo por meios ilógicos.

Trata-se, para esses cidadãos, de confundir o socialismo, com o fim de consolidar seu contrário, o capitalismo. Mas nem o socialismo nem o capitalismo podem ser definidos pelo nível dos preços considerados numa determinada data. Se o nível de vida, existente num momento isolado da história, fosse bastante para provocar a derrocada de um regime, há muito que o capitalismo teria desaparecido, fulminado. E, pelo contrário, quando as devastações da segunda guerra mundial condenaram o povo soviéticos a viver, como toupeiras, sob as ruínas, o socialismo reforçou-se, como já se havia reforçado no meio das misérias das guerras de intervenção.

O argumento dos preços básicos imutáveis nada vale, nem a favor nem contra o socialismo ou o capitalismo. Está fora e abaixo da questão. Os cruzados do anti-sovietismo sabem disso muito bem e não se animam a tirar conclusões de princípio pela comparação de números entre países capitalistas.
Entretanto, ao atacar a URSS neste terreno, eles se jactam, de forma bastante contraditória, de realizar senão a grande história, pelo menos a alta política. Na realidade, fazem toda uma onda para, afinal, colher nas mãos em concha algumas gotas de água.

Tanto pior para eles.

                                           O Modo Falso e o Modo Justo de Colocar o Problema

O argumento dos preços básicos imutáveis, tão utilizado contra a União Soviética, limita-se à seguinte comparação sintética: “O operário Vassili Ivanov, da fábrica de automóveis Stálin, em Moscou, pode comprar com seu salário mensal menos artigos de consumo que o soldador Joe Kupovits, da fábrica “River Rouge”, da Ford Motor Company de Dearborn” (Tomamos a liberdade de tirar este último nome do artigo do Sr. André Pierre).

Ora, esta afirmação contém sete lacunas fundamentais e uma secundária, o que não chega a ser de todo mau para uma afirmação que pretende liquidar a confiança no regime socialista e demonstrar que é preferível viver no regime capitalista.

Em primeiro lugar: Se o operário Vassili Ivanov é um cidadão soviético e o soldador Joe Kupovits um cidadão americano, não são, no entanto, nem um nem outro, os representantes exclusivos de seu país. Existem outras categorias de cidadãos,por exemplo os camponeses e os intelectuais, ou ainda os desempregados e os engraxates (estes últimos, é verdade, representantes exclusivos dos países capitalistas). Assim, não poderia ser estabelecida uma comparação válida com a omissão desses cidadãos.

Em segundo lugar: Se Vassili Ivanov e Joe Kupovits são cidadãos de pele branca, no entanto têm irmãos “de cor”, amarela ou negra. Seria injusto esquecê-los.

Em terceiro lugar: Se os artigos de consumo são indispensáveis à vida, há no entanto outras coisas tão indispensáveis quanto eles, tais como o descanso, cuidados médicos, instrução, livros, e seria interessante estabelecer algumas comparações: quantos livros pode adquirir um kolkozeano kirguis e um trabalhador agrícola negro da Luisiana (a tradução das obras de Vitor Hugo, digamos, ou uma enciclopédia), quantas vezes foram ao teatro e quantos meses de férias puderam obter.

Em quarto lugar: Se Vassili Ivanov e Joe Kupovits, ambos do sexo masculino, têm direito às vantagens dos seus respectivos regimes, as mulheres igualmente aspiram a essas vantagens. A comparação não deve, pois, sacrificá-las.

Em quinto lugar: Se o salário mensal oferece um interesse incontestável, não cobre no entanto a manutenção de um homem durante toda a sua vida, desde a infância até a velhice. É necessário não esquecer os inválidos, as crianças ou os velhos, que não trabalham, não recebem salário.

Em sexto lugar: Se Vassili Ivanov e Joe Kupovits são hoje, possivelmente, celibatários, pode ser que um dia sejam pais de família e mesmo de família numerosa. Como viverão eles e os seus?

Em sétimo lugar: Se elevemos reconhecer toda a importância à situação do momento, o trabalhador faz ainda mais questão de saber o que será o dia de amanhã, o que lhe reserva o futuro: aumento ou diminuição da capacidade aquisitiva, estabilidade do emprego ou desemprego, etc. É preciso comparar as PERSPECTIVAS.

Como se vê, os números básicos lançados na discussão exigem uma séria retificação. Voltaremos ao assunto, mas vamos, em primeiro lugar, liquidar a questão da lacuna secundária.


Uma Comparação Falsa nos Termos

Esta lacuna secundária diz respeito diretamente a Vassili Ivanov e Joe Kupovits, quer dizer, à afirmação em si, segundo a qual este último viveria melhor do que o primeiro.

Joe Kupovits, cujo salário está acima da média na Ford, tem em sua casa, conforme descreve o Sr. André Pierre, baseado na revista americana “Parade”, gás, eletricidade e telefone, possui um auto e tenciona adquirir um terreno para construir uma casa, está segurado contra acidentes e doenças, tem quatro filhos a seu cargo, enfim vive perfeitamente bem e feliz.

Na URSS, ao contrário “é necessário ser pelo menos chefe de empresa, alto funcionário, escritor, artista ou dirigente do Partido Comunista para ter seu carro e sua “casa”, enfim “salvo para uma minoria de privilegiados, o nível de vida dos trabalhadores conserva-se muito baixo na URSS e, de qualquer forma, é muito inferior ao dos operários americanos”.

Isto é levar um pouco longe a confiança no “paraíso” americano e o desejo de ignorar a realidade soviética.

Seja-nos permitido lembrar certa “Carta de Washington” intitulada: “Opulenta e miserável América”, do correspondente especial de “Le Monde” nos Estados Unidos, Sr. Maurice Ferro (É claro que o Sr. Pierre poderá alegar que ele e o Sr. Maurice Ferro são duas pessoas distintas; mas não há dúvida de que “Uma semana no Mundo” e “Le Monde”, são uma só).

Nesta carta, que foi publicada a 7 de fevereiro de 1948, dois meses antes do artigo do Sr. André Pierre, lê-se:

“A América opulenta, a América do automóvel e da máquina automática de lavar roupa “individual”, é mais uma legenda que se desvanece ao lhe tocarmos. Se de fato existisse um automóvel por cada grupo de três pessoas, por que estariam superlotados sempre o metro, os ônibus e os bondes? A verdade é bem outra. Se teoricamente não falta nada, se a fartura se patenteia nas vitrines das lojas, é necessário entretanto ter os meios para comprar tudo o que se nos depara à vista. Ora, o reino do dólar não é a república dos ricos (O grifo é nosso — I. S.)

Isto é categórico e deixa entrever que o soldador Joe Kupovits, com seu automóvel e seu telefone, é apenas teoricamente representativo dos operários americanos. A menos que seja efetivamente representativo e que apenas teoricamente possua seu automóvel e seu telefone.

O Sr. Maurice Ferro tem ainda a maldade de insistir. “Este estado de coisas tocou os parlamentares”, declara ele. Desta forma a “Comissão Senatorial de Inquérito dos Bancos e da Moeda” (Senate Banking and Currency Committee), tendo decidido realizar uma investigação, escutou o testemunho de um mecânico da “Campbell Soup Company”, de nome Cyrus J. Waud. Este compareceu perante a comissão, acompanhado de sua mulher (“que apresentava com desânimo uma face de resignada tristeza”) e de dois de seus seis filhos, e declarou:

“Ganho quarenta e oito dólares por semana, que mal chegam para “viver”. . . Minha mulher não trabalha. Quem tomaria conta dos filhos? Como nos arranjamos? Cortamos uma volta. E ainda somos mais felizes que as famílias de muitos de nossos camaradas. Nossa alimentação deixa muito a desejar.
Carne é luxo que só podemos ter uma vez na semana. Substituimo-la pelos ovos. As crianças estão privadas do suco de laranja. Leite? Meu salário não dá para comprar mais que 12 litros por semana, para 6 crianças, das quais a mais velha ainda não tem onze anos. Assim como minha mulher e eu, as crianças também são sub-alimentadas. Hoje trago minha roupa de domingo. Já tem quatro anos e é a mais nova que tenho. Minha mulher nunca compra roupa nova. Uma irmã que mora em Nova York deu-lhe este vestido que traz hoje. Nem se fala em ir ao cinema. Quanto aos meus filhos em idade de frequentar escola, vão a pé. Não podemos mesmo pagar o ônibus para eles. O único luxo deles consiste em cinquenta cents de doces por semana. Mas com este regime fizemos economias: conseguimos vinte dólares em algumas semanas. Infelizmente não vão durar muito. São para os nossos credores, a quem devemos trezentos dólares, emprestados para pagar ao médico e a conta da farmácia. E não temos meios para ir ao dentista, embora minha mulher e eu tenhamos necessidade urgente de tratar os dentes”.
Conta o Sr. Maurice Ferro que o Presidente da Comissão, emocionado, chamou uma das meninas e meteu-lhe nas mãos uma nota de cinco dólares, colocando depois um carro à disposição dos pais para que pudessem visitar a cidade.

O depoimento de Cyrus J. Waud perante a comissão Senatorial, desmente o testemunho da revista “Parade” invocado pelo Sr. André Pierre. Existem também estatísticas que o desmentem. Segundo a revista em questão, Joe Kupovits ganha 61 dólares por semana para uma família de seis pessoas, que pode viver na abastança. Ora, segundo o cálculo do Comitê Heller, da Universidade da Califórnia, o mínimo vital era, em janeiro de 1947, de 72 dólares e 52 cents. Joe Kupovits teria, pois, mesmo só com dois filhos, um déficit semanal de 11 dólares e 52 cents. Além disso, o salário médio dos operários industriais em janeiro de 1947 era apenas de 46 dólares e 94 cents, o que significa que seu déficit era já, nessa época, de 25 dólares e 58 cents. Do lado americano, a temerária comparação do Sr. André Pierre é, portanto, falsa.

É falsa igualmente do lado soviético. Pois é necessário estar enormemente mal informado para acreditar que ninguém cuidaria dos filhos de um operário soviético, se sua mulher fosse trabalhar, ou que o operário soviético considero um luxo a carne e que não pode pagar condução para seus filhos sub-alimentados, ou que se endivida quando adoece.

Se a comparação dos níveis de vida de Vassiíi Ivanov e de Joe Kupovits peca por sete lacunas fundamentais, peca também por este pequeno detalhe de que os dois termos da comparação são falsos.

                                                      Uma Digressão a Respeito do Pão

Depois da baixa dos preços e da supressão do racionamento, operados a 16 de dezembro de 1947, o pão de centeio (é o que os russos preferem e estão no seu direito de preferir) custa em Moscou 3 rublos o quilo e o pão de trigo custa 4 rublos e 40 cêntimos.

“Calculai o que isto representa para um salário de 1.000 rublos por mês, e comparai o que se pode comprar em quilos de pão com um salário mínimo de 10.000 francos por mês na França”.

Foi na Assembléia Nacional que um orador colocou este problema, pensando, aliás, sem razão, que o pão branco custa em Moscou 7 rublos e 80. Façamos o cálculo.

Para um salário mensal de 1.000 rublos, o operário de Moscou pode comprar 333 quilos de pão de centeio ou 227 quilos de pão de trigo. Acrescentemos também, a fim de não trair o espírito dentro do qual foi colocado o problema, que ele poderia, ao preço imaginário de 7 rublos e 80, comprar 128 quilos de pão branco.

Inversamente, pelo preço de 35 francos o quilo, o operário francês pode, com um salário de 10.000 francos, comprar 286 quilos de pão.

Infelizmente não sabemos para que serve este cálculo, a não ser para distração. Isto porque a aritmética oferecida pela realidade é totalmente outra.

Já se viu um pai de família calcular a quantidade de pão que teoricamente poderia comprar, como se só comprasse pão, e não o que ele pode efetivamente comprar se quiser obter o resto necessário à vida? Pensemos que Cyrus J . Waud também poderia comprar teoricamente centenas de quilos de pão com seu salário de 48 dólares e que nem por isso deixou de se endividar para pagar ao seu médico. Ele acha-se perante um dilema bem concreto e não teórico — renunciar ao pão para pagar ao médico, ou renunciar ao médico para pagar o pão.

Depreende-se daí que a quantidade de pão ou outros artigos de consumo que se podem teoricamente e não efetivamente comprar com um salário mensal, não basta para indicar o nível de vida dos assalariados. O problema aritmético, apresentado na Assembléia Nacional, não tem, por assim dizer, os pés na terra. É fácil demonstrar.

Nos Estados Unidos, os aluguéis atingem até 25% e mesmo 30% dos salários. São fixados pelos proprietários em números absolutos, qualquer que seja a renda do locatário. Na URSS, o aluguel é função do salário: 5% em média, representando para o mesmo apartamento somas muito variáveis, de acordo com a renda do inquilino. Por outras palavras: o operário americano é obrigado a retirar até 30% (contra 5% para o operário soviético) da quantidade de pão que teoricamente pode comprar, antes que possa determinar quanto efetivamente pode comprar. Isto seria já o bastante para demonstrar quanto é sem sentido o problema aritmético proposto. Mas ha outros fatores mais importantes que com ele se chocam.

O nível de vida não se define apenas pelas necessidades materiais, como alimentação, vestuário e habitação, por exemplo, mas também pelas necessidades não materiais, como saúde, instrução, cultura, divertimentos e tantas outras.

Ora, todas as comparações enumeradas, que foram estabelecidas entre a relação de preços-salários na URSS e nos países capitalistas, referem-se exclusivamente ao primeiro setor. Isto não é mero acaso, mas porque apenas aquelas necessidades materiais permitem afirmar: para um salário mensal, pode-se comprar, aqui ou lá, tantos quilos de pão, de manteiga, de carne, tantos pares de calçado ou ainda uma determinada parte de um costume de pura lã ou de um automóvel. Em compensação é impossível afirmar: determinado salário mensal permite adquirir uma determinada parte de instrução ou assegurar uma determinada parte de saúde, etc.

A vida é refratária a uma tal aritmética. Se fosse possível somar o valor da saúde e o da falta de preocupação materiais dos pais e de toda a segurança que o Estado Soviético proporciona de início a todos os cidadãos, antes e além do pagamento dos salários, estabeleceríamos quadros sinóticos muito mais edificantes do que os apresentados em “Uma semana no Mundo.”

Façamos a suposição de que um operário soviético caia doente e que depois de seu restabelecimento seja necessário um repouso prolongado na Cote d’Azur soviética, a Criméa. Qual o operário de país capitalista que não tem, em semelhantes circunstancia, que resolver um dilema idêntico ao de Cyrus J. Waud?. Privará a família de pão para fazer seu repouso, ou se privará a si mesmo do repouso para dar o pão à sua família? As economias eventuais — resultado de privações anteriores — irão ser consumidas? De qualquer forma, gastará completamente seu salário, se por acaso a sua incapacidade para o trabalho, resultante da doença, não fez com que o perdesse. Bem diferente é o caso do operário soviético. Será tratado gratuitamente numa clínica e fará de graça seu repouso na Criméa: recuperará a saúde e, além disso, guardará seu salário, no qual não teve necessidade de tocar, nem durante sua estadia na clínica, nem durante seu repouso. Qual a relação entre isto e a quantidade de pão que ele poderá teoricamente comprar?

Suponhamos ainda que o operário soviético tem três filhos, os quais desejam respectivamente ser engenheiro, médico e agrônomo. Igualmente neste caso, o operário no regime capitalista achar-se-á frente a um dilema sem solução: priva-se do pão para manter seus filhos até o fim de seus estudos ou fazer com que seus filhos renunciem à profissão de engenheiro, médico e agrônomo. Os filhos do operário soviético, ao contrário, farão seus estudos, e o Estado subvencionará todas as suas necessidades, graças a um sistema de bolsas e a uma organização apropriada de sua vida de estudantes. Qual dos dois operários, o do regime soviético ou o do regime capitalista poderá efetivamente comprar mais pão?

O problema aritmético, que consiste em exprimir os salários mensais em pão, manteiga, carne e calçado, e tirar dai uma comparação do nível de vida sem dúvida faz, à primeira vista, tontear as cabeças, pelo efeito da surpresa e da dança dos números que promove. Mas, refletindo bem, fica evidente o absurdo, pois se trata de dois regimes totalmente diferentes. Pior que um absurdo, reduz-se a um passatempo,

                                                                            As Principais Evidências

Perguntarão quais os meios que tornarão possível a comparação? Essa comparação é possível graças à análise, à descrição da vida, tal como ela é realmente, em seu conjunto.

Há também as estatísticas. Há os testemunhos, o de Cyrus J. Waud e mesmo o do Sr. Truman. A 6 de setembro de 1948, declarava o presidente dos Estados Unidos:

“Certos trabalhadores não têm a proteção de um salário suficiente… Muitos trabalhadores necessitam também da proteção de uma assistência social compensadora e de um programa nacional de seguro-doenças”.
Não existe, pois, para o operário americano a proteção de um salário mínimo suficiente, não existe mesmo assistência social bastante nem programa nacional de seguro contra doenças, e no entanto, segundo afirmam alguns, o operário soviético estaria numa situação inferior, ele que considera a assistência social, as casas de repouso, as belas e mesmo luxuosas clínicas como coisa tão natural como o ar que respira.

Os Estados Unidos dispõem de 30.000 quiromantes que tratam a escarlatina com uma pancada de martelo na coluna vertebral e declaram que “a bacteriologia é uma das maiores mentiras jamais inventadas”. Verificam-se ali 75.000 casos anualmente de crianças mortas ao nascer, das quais 30.000 poderiam ter sido salvas se a assistência médica fosse organizada. Sabe-se que apenas 3% da população pode garantir por completo as despesas de sua assistência médica. Além disso, em 1947 havia nos Estados Unidos 7 milhões de desempregados e outros tantos, parcialmente desempregados, que apenas trabalhavam de 15 a 34 horas por semana, e no entanto as condições de vida na URSS seriam de tal forma piores de acordo com a afirmação de “Professions”, o jornal do chefe da empresa, que é impossível “acreditar que a paz do ♦mundo possa aceitar tais situações”.

Apreciemos outros fatos. Nos Estados Unidos são linchados negros. Em 1939 o salário médio mensal de um branco, na União Sul-Africana, era de 384 libras esterlinas, e o de um negro, de 33 libras. Em Ceilão a sub-alimentação ocasiona uma mortalidade infantil de 80%. No entanto pretende-se fazer crer que os cidadãos soviéticos “de cor” seriam ainda mais infelizes que seus irmãos americanos ou britânicos, quando em Kirguizia, país do analfabetismo integral antes da Revolução, existem hoje 1.600 escolas primárias secundárias e superiores, 33 escolas técnicas, 23 institutos de pesquisas científicas, uma filial da Academia de Ciências da URSS; mais de 19.000 alunos de escolas superiores, 64 jornais e revistas em língua kirguize, enquanto em Kazakhia, o número de leitos de hospital aumentou em 1941, em relação a 1913, de 15 vezes, na Turkmenia de 22 vezes e em Tadiikia de 100 vezes.

A mulher de Cyrus J Waud não pode trabalhar, porque ninguém cuidaria de seus seis filhos, mas ainda há quem tenha o atrevimento de dizer que na URSS a família estaria ainda mais sobrecarregada, embora em cada empresa casa cidade, cada aldeia, haja creches e jardins de infância suficientes à disposição das crianças, enquanto a mulher é livre para trabalhar e gosta de trabalhar porque não o faz por necessidade material.

A evidência dos fatos desmente os detratores da URSS. E não há instância mais alta, diante do raciocínio do que a evidência.

Certos romances encerram cem ou mil vezes mais verdade e poder de testemunho do que o quadro perfeitamente desenhado, mas perfeitamente inútil, feito para as necessidades do jornal “Uma semana no Mundo”. Marx e Engels diziam que os romances de Balzac lhes tinham feito conhecer o século XIX, melhor do que pilhas de livros eruditos sobre a economia política. Os livros que um Steinbeck ou um Caldwell, que estão longe de ser comunistas, nos pintam da América, destroem radicalmente todas as afirmativas dos turiferários dos Estados Unidos. E um Ostrovsky e um Cholokhov criam, a respeito da URSS, evidências interiores mais poderosas que todas as historietas anti-soviéticas reunidas.

                                                                   Os Salários na União Soviética

E as rendas?

Ao afirmar que o socialismo é o pior dos males, a propagando anti-soviética, que não se preocupa comf a lógica, tenta estabelecer:

que a diferenciação dos salários na URSS é a negação do socialismo;
que a capacidade aquisitiva da maioria é ali inferior à da maioria no Ocidente;
que uma coisa é a consequência da outra.
O primeiro ponto é falso. O segundo ponto é falso da mesma forma. E o terceiro ponto não tem, portanto, razão de ser.

Sim, existe na URSS uma diferenciação de salários. Já explicamos isto. Voltaremos a lizê-lo e a explicá-lo.

Faremos primeiro uma pergunta: o defeito fundamental do regime capitalista será a diferença entre o salário de um aprendiz e o de um contramestre, entre o salário de um servente e o de um operário qualificado, ou será antes a diferença entre o salário de todas estas categorias, de um lado, e a renda dos capitalistas, do outro? Intencionalmente a propaganda anti-soviética tenta criar a confusão e fazer esquecer essa distinção essencial.

Já em 1929, trinta e oito dos homens mais ricos dos Estados Unidos partilharam entre si um, lucro de 360 milhões e 644 mil dólares, ou seja perto de 9 milhões e 500 mil dólares para cada um. Mas, no mesmo ano, 428.128 operários da indústria de algodão receberam 322 milhões e 389 mil dólares, ou seja, 753 dólares cada um, isto é, cerca de 12.600 vezes menos. Entretanto, o “yacht” do banqueiro Morgan, “O Corsário”, custou 2 milhões de dólares, e certas festas oferecidas pelas famílias riquíssimas em sua residência tragaram a insignificância de 100.000 dólares.

Antes da segunda guerra mundial, a parte auferida pelos capitalistas americanos sobre a renda nacional representava 46%. Durante e depois da guerra, seus lucros aumentaram ainda, tanto em algarismos absolutos como em relação aos salários dos operários. E isto não é apenas a realidade americana, mas também a realidade de todos os países capitalistas.

Por toda parte os capitalistas se apropriam aproximadamente da metade da renda nacional, espoliando na mesma medida os operários do produto de seu trabalho, ao passo que, na sociedade socialista, 100% da renda nacional entram para a riqueza coletiva.

Considerar a apropriação capitalista idêntica à diferenciação dos salários em regime socialista, é demagogia das piores. Isto porque, na URSS, não existe outra diferença senão, precisa e unicamente, a que resulta da qualificação no trabalho.

Contudo, mesmo assim definida, a diferenciação dos salários na União ao Soviética não pode mais ser comparada à diferenciação dos salários nos países capitalistas.

No regime capitalista o que se vê é a luta dos trabalhadores por melhor qualificação, luta dura e constante contra os patrões, os quais não têm nenhum interesse em que se forme um corpo operário constituído exclusivamente de trabalhadores qualificados.

O melhoramento das qualidades profissionais é cerceado e só se verifica na medida em que se torna indispensável para o funcionamento do regime.

No regime socialista a qualificação não é um direito que o trabalhador tenha de lutar para conquistar, mas um direito que lhe é de fato garantido.

Mais do que isso: é um dever nacional. Isto porque a obra imensa e histórica do comunismo, a vitória sobre a natureza e sobre as coisas inertes, a produção em massa de mercadorias que irá permitir a realização da formula: “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”, tudo isto requer uma mão de obra altamente qualificada, capaz de aperfeiçoar os métodos de trabalho em que a máquina substituirá o homem nas tarefas inferiores.

Dissemos que é um dever nacional. Mas um dever cujo cumprimento é facilitado por toda a organização do trabalho, pela organização da vida em geral. Longe de ser cerceado em seu desenvolvimento, o operário é, ao contrário, incentivado para que se desenvolva e a diferenciação de salários nada mais é do que um meio de encorajá-lo.

O próprio termo qualificação possui, no regime socialista, uma significação muito mais ampla do que no regime capitalista. Não é apenas a realização de um trabalho mais complexo no quadro de um determinado método de trabalho; é sobretudo o esforço para melhorar o método do próprio trabalho. Cada operário soviético é, em potencial, um pequeno engenheiro — e muitas vezes um grande engenheiro. Quando um engenheiro aperfeiçoa determinado processo técnico, suprimindo ou facilitando o trabalho manual, liberta um operário de sua tarefa inferior e permite-lhe realizar, por sua vez, um trabalho mais produtivo e em consequência mais bem remunerado.

Desta forma, o aumento da produção e da produtividade justifica plenamente, no regime socialista, a diferenciação dos salários, ligada à qualificação; leva ao aperfeiçoamento constante dos métodos e contribui poderosamente para libertar o homem dos trabalhos inferiores e para o desenvolvimento geral do nível do trabalho.

O stakhanovismo, em sua forma atual, estende até à oficina e à empresa o esforço do aperfeiçoamento técnico: cada trabalhador dá a conhecer ao outro os resultados de sua experiência, permitindo assim a cada qual subir cada vez mais rapidamente as escalas da qualificação e do aumento de salário. E todo aperfeiçoamento é imediatamente aplicado em todo o país.

Onde está, nestas condições, a nova “classe burguesa” que teria sido criada, segundo a propaganda anti-soviética, pela diferenciação dos salários?

A classe burguesa, por definição, é impenetrável: os proletários, com exceção dos trânsfugas, não são por ela recebidos. A classe burguesa incuba seus privilégios e vai devorando a si mesmo.

A categoria dos “3.000” rublos ou dos “5.000” rublos não forma uma classe em relação aos “1.000 rublos”, da mesma forma que os escritores célebres não são uma classe em relação aos que ainda não se celebrizaram.

Ninguém nasceu diretor na União Soviética, mas qualquer pessoa pode vir a sê-lo. Da mesma forma, ninguém nasce com uma etiqueta nas costas de “servente” ou “arrumadeira”.

Muitos são os operários que ganham mais do que seu diretor, o que é inconcebível no regime capitalista. A função do diretor não exprime uma “posição social”, à qual esteja ligado forçosamente uma grande renda. O que determina a taxa dos salários é unicamente a qualidade e a quantidade do trabalho produzido. Uma e outra se medem em índices, em relação, claramente estabelecida, com a progressão dos salários. Para subir nesta escala não são necessários proteção ou capacidades excepcionais. Basta querer subir, querer aproveitar os inúmeros meios de aperfeiçoamento que a fábrica e o Estado põem à disposição de todos os trabalhadores.

Este é o princípio da diferenciação dos salários, e damos em seguida exemplos concretos.

Um filho de kolkozeano tem vocação para mecânico. Aos 15 anos, vem para Moscou e entra numa escola de radiotelegrafia. Fica ali alojado, alimentado e recebe ainda algum dinheiro para que possa frequentar o cinema, o teatro, etc. Aos 17 anos inicia sua carreira numa estação radiotelegráfica com um salário mensal de cerca de 700 rublos, para um dia de trabalho de 6 horas apenas, dada sua idade.

Outro jovem entra numa fábrica de automóveis, sem nenhuma especialização prévia, com um salário de cerca de 500 rublos. Imediatamente é, por assim dizer, atraído para as escalas superiores do trabalho qualificado: ensino técnico durante o trabalho, escolas técnicas, etc. Dois ou três meses depois não ganha mais os 500 rublos, porém 700 ou mais.

Se o princípio do desenvolvimento do trabalho é válido para todos os setores da vida econômica, as taxas dos salários variam, em parte, no entanto, de ramo para ramo.

Na fábrica de transformadores de Moscou, por exemplo, os salários médios dos ajustadores, oscilam em torno de 3.000 rublos — e dizemos “oscilam”, porque de um mês para outro o sistema de bônus progressivos leva a ligeiras variações.

Os mineiros, cujo trabalho é não só difícil, como constitui a espinha dorsal da economia soviética e nos quais, por isso mesmo, repousa a mais pesada responsabilidade nacional, atingem os mais elevados salários. Um mineiro medianamente qualificado ganha de 3.000 a 4.000 rublos. São frequentes os salários de 5.000 a 6.000 rublos e mais.

Na maioria dos casos, o orçamento familiar não se baseia apenas no salário do marido mas também no da mulher, e sucede frequentemente que esta ganha mais do que o homem. Por exemplo, se o homem é cabeleireiro, ganhará cerca de 1 .000 rublos por mês, enquanto a mulher que trabalha, digamos, numa fábrica têxtil, terá de 1.000 a 2.000 rublos, conforme sua qualificação, ou, mais ainda, se for stakanovista.

É claro que os princípios da diferenciação são idênticos em Moscou e em Tachkent, na Ucrânia e em Buriato-Mongolia.

É claro que são válidos não só nas cidades, mas também no campo. A produtividade do trabalho da terra exige, como no trabalho industrial, a qualificação técnica e científica. A agricultura soviética, que é a de Mitchurin e Lysenko, entrou na era do microscópio e das máquinas complexas. O kolkozeano aplica, como o operário industrial, os princípios da emulação, é remunerado segundo a qualidade do seu trabalho e tem o direito — tem mesmo o dever — de subir os degraus da qualificação.

Os kolkozeanos soviéticos realizam prodígios de produção e seu bem estar aumenta sem cessar. Nenhum kolkose ou sóvkose pode ser comparado com a situação dos campos dos países chamados ocidentais onde o habitat se degrada, as máquinas são inacessíveis aos camponeses, os credores avançam sobre o que o fisco deixou, por acaso, as pequenas explorações são absorvidas pelos grandes trustes agrícolas e onde se desenvolve um proletariado agrícola miserável. É assim que nos Estados Unidos, o valor das propriedades pertencentes a companhias de seguros, que se ocupam com operações hipotecárias, passou de 30 milhões de dólares em 1930 para 600 milhões em 1940.

                                                         Os Preços na União Soviética

Falemos agora sobre a capacidade aquisitiva. Já dissemos que era um absurdo demagógico considerar exclusivamente o setor “consumo” e silenciar sobre o setor que não se mede em cifras.

O trabalhador soviético, tanto o da cidade como o do campo, emprega seu dinheiro exclusivamente no setor “consumo”, no qual incluímos as despesas com livros, teatro, concertos, além de outras. Não há necessidade de deixar qualquer reserva, seja para a educação dos seus filhos, seja para férias, para caso de doença ou convalescença, ou ainda para a velhice, que lhe está garantida pelos seguros sociais. Este é o quadro geral.

Dito isto, eis alguns preços básicos do setor “consumo”. Batatas 50 a 80 kopeks o quilo; manteiga: 64 rublos; margarina: 44 rublos; açúcar: 15 rublos; café: 75 rublos; carne de boi, de primeira qualidade: 30 rublos; ovos: 12 rublos a dúzia; leite 3 rublos o litro; calçado de boa qualidade: 260 rublos (existe qualidade inferior por 100 e 150 rublos); um terno completo para homem: 430 rublos; meias: 7 rublos; uma vitrola: 900 rublos; um aparelho de-rádio de 5 válvulas: 600 rublos; um relógio pulseira: 900 rublos.

Que demonstram estes preços?

Mostram de um lado que são, em relação aos salários, mais baixos que os preços correspondentes na França. Deve-se ainda considerar que todas as empresas põem à disposição dos operários e empregados refeitórios a preços mensais entre 250 a 300 rublos pelas suas refeições diárias, almoço e jantar. Quanto às creches e jardins de infância, o preço não vai além de 80 rublos por mês, incluindo alimentação, isto quando a admissão não é totalmente grátis.

Não reside, porém, aqui o centro do problema. O fundamental é que esta relação é o resultado das baixas consecutivas dos preços e dos aumentos sucessivos dos salários, realizados depois da guerra. Já no presente os salários reais duplicaram em relação aos do ano passado.

O crescimento constante da renda nacional leva, por um lado, a um aumento dos salários, independentemente do aumento obtido pela qualificação individual dos trabalhadores, e por outro lado a uma baixa constante dos preços. Desafiamos nossos opositores para daqui a um ano. Veremos então como os preços e os salários terão evoluído nos vários países.

A União Soviética foi o primeiro país a suprimir o racionamento e proporcionar aos seus cidadãos uma baixa geral dos preços, o que fez, a 16 de dezembro de 1947, seguido de nova baixa a 10 de abril de 1948.

Enquanto no ocidente os trabalhadores lutam para obter reajustamento de salários, a fim de compensar, pelo menos parcialmente, a alta dos preços, os salários nominais aumentam na União Soviética e simultaneamente os preços baixam.

Contudo, a União Soviética sofreu durante a guerra devastações que deixam a perder de vista as perdas sofridas pelos outros países. Dirão: “já sabemos”. Mas terá a imaginação feito um esforço para compreender o que foram os sacrifícios da URSS? 1.710 cidades, 70.000 aldeias, 6 milhões de casas, 98.000 kolkoses, 1.876 sovkoses, 31.850 empresas industriais, 2.890 estações de máquinas e tratores, 65.000 quilômetros de estradas de ferro, 4.100 estações, 36.000 escritórios postal-telegráficos, 40.000 hospitais, 43.000 bibliotecas públicas, 84.000 escolas e outros estabelecimentos de ensino foram destruídos. 7 milhões de cavalos, 17 milhões de bovinos, 20 milhões de suínos, 27 milhões de carneiros, 110 milhões de aves domésticas foram abatidas, roubadas ou mandadas para a Alemanha. 25 milhões de cidadãos ficaram sem abrigo.

O Sr. André Pierre decididamente demonstra falta de tato quando ironiza, em artigo escrito quatro meses após o decreto de baixa de preços de 16 de dezembro, o governo ou o povo soviético (ele não diz a qual dos dois ataca), afirmando que não foram cumpridas as promessas feitas nessa data, quando por exemplo, em Tchéliabinsk, em vez de 113, só se abriram 72 armazéns, e em Kuibichev, 66 em vez de 85.

A URSS devastada, renasce. Trabalha-se duramente. Qual o país capitalista que, três anos após a guerra, goza de tamanho desenvolvimento e semelhante melhora?

É possível que em Kuibichev tenham sido abertos apenas 66 armazéns em vez de 85. Mas a liquidação de semelhantes “atraso” é tomada pelo povo soviético mil vezes mais a sério do que os capitalistas ocidentais estão interessados em resolver atrasos mil vezes mais graves em seu próprio país.

A União Soviética renasce das ruínas. Já ultrapassou seu nível de produção de antes da guerra, e os trabalhadores, tanto os da cidade como os do campo, vivem livres de qualquer preocupação material.

Há mais ainda do que ausência de preocupação. Orgulhoso de seus êxitos, orgulhoso de suas perspectivas, confiante na causa de todos, o povo soviético constrói hoje firmemente um futuro cada vez mais feliz e mais belo.
                                         
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Notas de rodapé:
(1) “Stalin contra Hitler” — Ed. Stock, março de 1945. 
(2) Thierry Maulnier — “O Operário mais pobre do mundo” — “O Fígaro” de 17 de dezembro de 1947 — Paris.