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    Comunicação

    De como, de um arroyo, se faz um rio

    Comecemos pelo nome, que nele há muito da coisa nomeada: Arroyo – assim com ípsilon, que é para nos dar a impressão de que algo de nossa pátria latino-americana habita esse nosso chão. Quem diz arroyo diz correnteza, riacho intermitente, que ora corre, ora estanca; que agora esta vivo e, depois, morto – e, após, […]

    POR: Redação

    4 min de leitura

    Comecemos pelo nome, que nele há muito da coisa nomeada:
    Arroyo – assim com ípsilon, que é para nos dar a
    impressão de que algo de nossa pátria latino-americana
    habita esse nosso chão. Quem diz arroyo diz correnteza,
    riacho intermitente, que ora corre, ora estanca; que
    agora esta vivo e, depois, morto – e, após, renascido.
    Arroyo, por isso, bem podia ser ave, daquelas que
    queimam até o pavio de si e, em seguida, ressurgem. Não
    de si, mas do mundo, dos homens que acabou de espantar.

    E porque os espantou, os fez mais homens, porque mais
    conscientes de sua própria precária e divina humanidade.

    Rio e ave, Arroyo era operário do metal – mensageiro de
    Ogum e parteiro do futuro tão sonhado. Sindicalista,
    rompedor de grilhões, Arroyo é comunista. É, porque não
    morre. Não morre, porque comunista.

    Porque comunista, Arroyo era, pois, um homem comum.

    Destes que caminham aí pelas ruas desta cidade sitiada
    pelo medo e pela fome. Destes que pegam ônibus às
    quatro, cinco da manhã; comem marmita ao meio-dia; tomam
    o trem lá pela ave-maria; chegam em casa só o pó e
    encontram forças para pensar:

    Pensar que o mundo pode ser outro, mais nosso e menos
    cão. Pensar que a vida tem jeito, basta esse sentimento
    que se verifica aqui, de comunhão. Pensar que a verdade,
    apesar de tudo, tem sempre razão. E que, pra cabra
    safado, ladrão, não há de haver perdão. Pensar que a
    festa do povo, seu carnaval, tem gosto, cara, cheiro,
    jeito de revolução.

    E porque assim pensa, e é rio, é ave, operário e nosso
    irmão, Arroyo é símbolo de um tempo em construção.
    "Tempo partido, de homens partidos". Tempo que constrói
    um povo uno, feito de carne e trabalho. Tempo que
    prepara tempo novo e novas eras. Tempo que planta, mais
    do que canta, porque sabe todas as notas da raiz. Tempo
    de coisas fortes, que projetam homens mais fortes que as
    coisas. Tempo de união e luta, enfim.

    Poderemos nós ser Arroyo? Poderemos nós, comunistas de
    então, subir-lhe aos ombros e abraçar o amanhã – tantas
    vezes acreditado quanto negado? Acreditamos nós que
    somos filhos de uma classe? Agimos nós como o presente e
    o futuro dos que trabalham, dos sem-casa, dos sem-roça?
    Sabemos nós os passos da juventude? Temos no sangue as
    fornalhas acesas da luta e, nos olhos, os séculos das
    guerras por travar?

    Ainda assim, camaradas, e não por outra razão, sejamos
    todos Arroyo, por fim. E que venha o futuro com sua
    terrível face de primavera. E formemos nós, por que
    não?, esse vasto rio. Rio que, com seu peso de corpo,
    inunde fábricas, escolas; planícies asfaltadas e por
    semear. E que, com seu corpo de água, abra nas mesmas
    fábricas, escolas e planícies abissais crateras de
    consciência e, lá, deposite, grânulo, o sentimento de
    revolta.

    *Ângelo Arroyo, dirigente do PCdoB e guerrilheiro do Araguaia, nasceu aos 6 de novembro de 1928 em S. Paulo. Metalúrgico, ingressou no Partido em 45. Foi líder do Sindicato do Metalúrgicos de S. Paulo nos anos 50. Participou das greves de 52 e 53. Foi fuzilado aos 48 anos, aos 16 de novembro de 1976, no episódio conhecido como a Chacina da Lapa.