O cronista arranha, cisca, esgaravata o próprio HD em busca do texto. Não que falte assunto, que o mundo tenha empobrecido. Assuntos há. Mas a visão do escriba se turva, entorta e o grande acervo do mundo escorrega, resvala manhoso. As coisas querem gritar. Falar de lembranças… Quem sabe, coçar a vaidade de amigos, políticos, intelectuais, artistas ou demiurgos. Os fatos e os rostos giram e perdem a hierarquia. O mundo é um filme de cenas simultâneas e roteiros embriagados. O cronista toma uma ponta do real, quer salvar do sumidouro do esquecimento. Resgatar o dia vivente. Os companheiros, as amadas, os que ficaram à beira do caminho. Os meninos que a dor da cidade vomita pelas ruas. Há tanta solidão no feral destino humano. Há tanto clamor sem refrigério. O que fazer das criancinhas que os próprios pais torturam, abusam e matam? Escrever sobre este horror… Alguém pode se comover. Alguém pode encontrar sua própria criança perdida no burburinho insano e célere. Comentar o último livro publicado em Pecusburgo, responder aquela carta que ainda chegou pelas mãos do carteiro, sem usar o tempo real da internete. Pondera sobre a carreira implacável do tempo. Os artifícios e truques com que se alimenta a fuga do envelhecer. A vizinha que fez um apigreide, isto é, deu uma recauchutagem na cara, uma turbinada nos glúteos, no ventre, nos seios. Esticou o couro, perdeu as rugas da escrita da vida, endureceu o olhar, em busca da menina lírica que o desamor amassou e corroeu. Todos os assuntos são dignos porque falam de coisas que existiram ou deixarão de existir. Querem mover os teclados do computador, ser lembrados nem que seja por pequenos merecimentos recolhidos do pó. Vão invadindo os neurônios do escriba e pedindo voz. São como cavalos arreados: só passam uma vez. São como oportunidades: não têm cabelos. Passou, passou. E aqueles poucos que ainda lêem, mesmo que seja um trecho do jornal, em bus ca de maledicência, crime ou diversão? Seus olhos acompanham o cronista enquanto busca na agridoce aflição da escrita um gesto, uma pétala de rosa, a palavra misteriosa e nova sobre coisas tão velhas. Os possíveis leitores cúmplices se oferecem num desfrute antecipado favorecendo escolhas, ajudando a construção de um diálogo que quer nascer, ainda que vá existir precariamente na folha do diário esquecida na sala de espera do hospital. Recolhida na calçada pelo gari em sua tarefa diária de limpar o mundo. Bem que o cronista poderia aproveitar sua lição. Escrever coisas de alguma beleza todos os dias sem se importar com horda sujadora. Cada crônica poderia ser uma celebração. Comentar uma obra de arte, um gesto de inusitado afeto, uma esperança para dias crepusculares. Passar a vida a limpo, anônimo e belo trabalho de gari que limpa as ruas cantando. Seria uma solução. Limpar um pouco o mundo das almas. Vender por um momento a sensação de alegria, a festa, o fulgor que pesponta a vida como ilhas num oceano de naufrágios.
O gari das palavras
O cronista arranha, cisca, esgaravata o próprio HD em busca do texto. Não que falte assunto, que o mundo tenha empobrecido. Assuntos há. Mas a visão do escriba se turva, entorta e o grande acervo do mundo escorrega, resvala manhoso. As coisas querem gritar. Falar de lembranças… Quem sabe, coçar a vaidade de amigos, […]
POR: Aidenor Aires
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