Ficou tão grande a humanidade que já não se pode sentir, com a falta de alguém, a perda de um pedaço do mundo. São mortos solitários. Inclusos em sua própria história. Deixam poucas lembranças. É diferente quando mortes ordinárias e previsíveis assumem corpo de multidão – terremotos, tisunames, naufrágios, desastres aeronáuticos, atos terroristas de grupos ou de estados. Aí o morticínio extrapola o sentimento das pessoas e cai como um chumbo de pesar na inconciliável família humana. Sucede assim com esse desastre do avião da Air France e seus 228 passageiros. Tantos que iam pela vida trabalhando, fazendo planos, sonhando. Paramos um instante em nossa pressa sem destino e nos condoemos como se todos aqueles passageiros que nunca vimos se tornassem, repentinamente, nossos parentes, amigos, vizinhos, ou nossa própria representação. Afinal, qualquer um pode despencar da temeridade de Ícaro para o mar profundo. Embora a busca de explicações tenha, na mídia, ofuscado os dramas pessoais, não se pode esquecer do jovem que viajava para estudar no exterior. Um grupo que retornava de um exótico passeio ao país ainda futuro. Talvez o único passeio de suas vidas. O que dizer do casal que sonhava com uma lua de mel em algum país europeu? Inicialmente, a pretexto de uma minguada esperança, a companhia aérea, os fabricantes da aeronave, até os governos formulavam hipóteses diversas buscando explicar o inexplicável. Mesmo que descubram as causas técnicas ou humanas que pariram o desastre não lograrão confortar os perdedores desta tragédia. Filhos sem pais. Pais sem filhos. Esposos violentamente separados. Isso não se acomodará em explicações e estatísticas. Restarão buracos impreenchíveis de saudade, dor e desolação engolidos pelo mar oceano. Restará talvez a lição duramente ministrada que poderá socorrer sinistros futuros. Sobre o cenário do irremediável, porém, é preciso lembrar que o Brasil, criticado e desamado por seus muitos desmandos, teve no caso uma atuação de heróica beleza. Estou pensando no trabalho da Força Aérea e da Marinha brasileiras. Desde os primeiros momentos, navios e aeronaves lançaram-se ao mar. Não só porque o infausto acercou-se das águas territoriais, que momentaneamente ampliaram o mapa do país imaginário, mas porque, num gesto espontâneo desenhou no atlântico nosso rosto de nação solidária. Talvez por ser uma nação infeliz, tenha tanto jeito para estender as mãos, os braços e abrir o peito à dor alheia. Lá estavam nossos oficiais e nossos meninos, enfrentando o oceano e as tempestades. Buscavam destroços, mas o que sonhavam encontrar era sobreviventes e, secadas as esperanças, corpos das pessoas. Voam e velejam contra o tempo e vão recolhendo da falibilidade humana e das fúrias da natureza os seres imolados. Se não pudemos evitar o desastre ou salvar vidas, estivemos ali. O povo brasileiro continua nos corações e braços de nossos soldados emprestando a solidariedade e o amparo possível. "Nenhum corpo avistado deixará de ser resgatado.", disse um oficial.
O desastre do air-bus: salvados
Ficou tão grande a humanidade que já não se pode sentir, com a falta de alguém, a perda de um pedaço do mundo. São mortos solitários. Inclusos em sua própria história. Deixam poucas lembranças. É diferente quando mortes ordinárias e previsíveis assumem corpo de multidão – terremotos, tisunames, naufrágios, desastres aeronáuticos, atos terroristas de […]
POR: Aidenor Aires
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