As primeiras palavras da Fundação Maurício Grabois, entidade de estudos, pesquisas, instituída pelo Partido Comunista do Brasil, PCdoB, são para saudar as delegações da América Latina e Caribe que gentilmente aceitaram nosso convite e, de igual modo, representantes de países de outros continentes. Os braços abertos da cidade do Rio de Janeiro se movimentam para abraçá-los e acolhê-los afetuosamente. Saudamos, também, todos os nossos compatriotas aqui presentes.

Nossos cumprimentos, aos colegas desta mesa de abertura. Primeiramente, nosso anfitrião, o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Aloísio Teixeira. Valter Pomar, secretário-executivo do Foro de São Paulo, do Foro emanou a ideia e o mandato para a realização deste Seminário. Nilmário Miranda, presidente da Fundação Perseu Abramo, instituição co-realizadora deste evento. Luiz Pinguelli Rosa, presidente da COPPE, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia, apoiadora do evento. Nossos agradecimentos à Fundação Friederich Ebert, pelo apoio. Um agradecimento especial ao prefeito da UFRJ, Hélio Mattos, pelo atenção dada a este evento.

Nossa homenagem ao reitor Aloísio Teixeira, que hoje conclui seu mandato. O seu reitorado renovador deixa o legado de uma UFRJ mais forte, democrática, realizadora, uma universidade vinculada ao desenvolvimento do Brasil com aporte de produção científica, tecnológica , cultural, com a formação de recursos humanos capacitados e talentosos. Receba de todos, reitor Aloísio, nosso reconhecimento e aplauso.


Mesa de abertura

O Foro de São Paulo, de quem os organizadores deste Seminário receberam a incumbência de realizá-lo, nasceu no início dos anos 1990 em um cenário adverso. O mundo de então vivia sob a égide de uma avalanche reacionária que emergiu do fim da União Soviética e da queda dos governos do Leste europeu. Recorrendo a um verso de Pablo Neruda, escrito sob outra circunstância, mas apropriado para tipificar aquela década, “foram anos ruins, anos de ratos”. Aproveitando aquela derrota estratégica dos trabalhadores, o imperialismo desencadeou uma ofensiva contra os povos, usando a guerra ideológica e a guerra propriamente dita, e impôs o neoliberalismo que aumentou o saque e a exploração sobre os países.

Desse modo, na década de 1990 os que historicamente sempre sugaram a seiva alheia se lançaram com uma ganância ainda maior sobre as veias abertas da nossa América Latina. Mas como sempre, desde o seu nascimento, os povos da região se levantaram e organizaram a resistência. Desde a Terra do Fogo, próximo à Antártica, até Tijuana, às margens do rio Bravo; da atlântica costa brasileira aos Andes, bordejando o Pacífico. Uma nova epopeia foi escrita. O movimento de resistência ao neoliberalismo, no qual os partidos do Foro de São Paulo tiveram grande destaque, se constituiu de várias frentes de luta.

O povo e os trabalhadores nas ruas, com suas passeatas e greves e até levantes e verdadeiras insurreições, na defesa do salário, do emprego e dos direitos mais elementares que os governantes neoliberais mitigavam ou simplesmente rasgavam. Na esfera das ideias, a luta teórica e política para desmascarar o verdadeiro significado do receituário do denominado Consenso de Washington. E o combate também na tribuna dos parlamentos dominados por esmagadoras maiorias conservadoras.

Os povos da América Latina passaram por um fértil aprendizado político, mesmo que lhes tenha sido penoso, decorrente de uma dura experiência que lhes custou muito na carne e na alma. O fracasso do neoliberalismo, com seu rastro de destruição, e a tomada de consciência dos nossos povos proporcionaram força crescente ao movimento de resistência. A partir do final dos anos 1990, fruto desse itinerário heroico, surgiram as primeiras vitórias do povo. Da combinação de luta social, de ideias e política formaram-se frentes partidárias e de movimentos sociais que passaram a disputar os governos das Repúblicas e foram formando, depois de ensaios, erros e derrotas, um colar de vitórias – Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador, Nicarágua, El Salvador e, agora, o Peru.

O ascenso de forças democráticas, patrióticas, populares e progressistas ao centro dos governos, por uma atuação sincronizada em diversas frentes de luta, mas desembocando na disputa eleitoral, terreno este dominado pelas classes dominantes, nos faz lembrar um conhecido verso de Goethe: Estimado amigo, cinzenta é toda a teoria, verde é a frondosa árvore da vida. Pensamos que o papel do nosso Seminário é exatamente este: sistematizar as realizações, os desafios, as perspectivas dos governos de esquerda e progressistas da América Latina, filhos das lutas de nossos povos, ou, parafresando o poeta alemão, os frutos dessa árvore frondosa que brotou no chão latino-americano.

Os processos e ritmos dos governos, cujas realizações e balanços serão apresentados neste Seminário, são distintos e diversos. Mas nessa diversidade, há pontos, melhor dizendo, há um tronco convergente: a luta pelo desenvolvimento soberano, sustentável, com base na democracia e com a finalidade de elevar o bem-estar do povo. Desenvolvimento que no presente e ao longo da história o imperialismo sempre procurou bloquear aos nossos países. Transcorrido pouco mais de uma década de florescimento desse ciclo virtuoso na América Latina, podemos dizer com alegria que os governos e a luta do povo auferiram importantes conquistas. Primeira: a soberania de grande parte dos nossos países progressivamente se eleva e se fortalece. Segunda: a integração regional solidária passou a se constituir parte indispensável de cada projeto nacional de desenvolvimento. Vale dizer vigora a concepção de que nenhum país em desenvolvimento pode vencer sozinho.
O Mercosul, a Unasul, a Alba são demonstrações concretas disso. Integração solidária que ficará mais evidente ainda, com a fundação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), fato histórico marcado para acontecer em breve. Terceira: em vez das ditaduras sanguinárias que infestaram nossos países nos anos 1960 e 1970, em vez do autoritarismo neoliberal que marcou os anos 1990, agora a democracia se fortalece. Quarta: crescimento econômico e distribuição de renda, produção de riqueza e valorização do trabalho ascendentemente se tornam um binômio. Mesmo sob os efeitos destrutivos da crise capitalista que desde 2007 assola o mundo, nossa região resistiu e tem adotado condutas para sair dela. Tem-se lutado contra a lógica do imperialismo de tentar lançar uma vez mais sobre os ombros dos trabalhadores e dos povos a conta de uma crise pela qual ele é o único responsável. Quanto à distribuição de renda, os trabalhadores empreendem suas lutas e melhoram suas condições de trabalho e salário. Famílias do povo, até então condenadas uma geração após outra à pobreza extrema, são beneficiadas por políticas públicas para retirá-las da situação de degradação humana.

Claro, muitos são os problemas e os desafios que persistem. Uma década é muito pouco para fazer frente à herança de mais de cinco séculos na qual há a pujança advinda das riquezas e das capacidades realizadoras e produtivas de nossos povos e, também, as feridas ainda abertas pelo saque e a exploração do imperialismo. Assim, nosso Seminário também pretende ser um espaço de intercâmbio de experiências, de troca de opiniões sobre caminhos e rumos que possam contribuir para o enfrentamento das debilidades e lacunas que cada país, cada governo, cada um de nossos povos é desafiado a vencer. O combate à pobreza e às desigualdades sociais e regionais, o desenvolvimento das forças produtivas. No âmbito da integração: o combate às assimetrias, a integração física, a integração de cadeias produtivas, efetivos acordos de cooperação, e dar concretude aos projetos como o Banco Del Sur, Conselho Sul-Americano de Defesa, entre outros.

Além dos desafios, pairam também ameaças sobre este jovem ciclo progressista latino-americano. O golpe de Estado perpetrado contra Chávez na Venezuela em 2002 e, mais recentemente, em 2009, em Honduras, contra Zelaya, o incessante bombardeio dos monopólios midiáticos, a reativação da Quarta Frota e das bases militares estadunidenses são apenas alguns exemplos de que o imperialismo e as forças conservadoras locais não estão de braços cruzados e tentaram reaver a hegemonia na região. Entretanto, segue a vigorar como tendência dominante a capacidade de ação das forças progressistas de nossa região para conquistar novas vitórias, como demonstra o recente resultado da acirrada disputa presidencial no Peru.

Em meio a essa diversidade, como assinalamos, de metas e propósitos de nossos governos, emergiu uma boa nova com a qual nós da Fundação Maurício Grabois nos identificamos, e partilhamos. Governos patrióticos e democráticos proclamaram sua decisão de construir o socialismo. O socialismo do Século XXI (como se autodenomina a experiência da Venezuela), o socialismo do Bem Viver (como se proclama o do Equador), socialismo Cristão e Solidário (como se apresenta a Nicarágua) e, ainda, o socialismo comunitário, da Bolívia. Embora com essa variedade de denominações, o que se ressalta é o compromisso destes governos em construir caminhos que desbravem alternativas ao capitalismo. Essa boa novidade se agrega a Cuba, ilha rebelde que apesar de toda pressão do imperialismo sua revolução jamais abdicou da luta para construir o ideal de homens livres. Em abril último Cuba deflagrou um processo de atualização de sua organização econômica e social visando a revigorar a construção do socialismo.


Comemoração da vitória de Dilma Rousseff, 2010

Aqui no Brasil, nosso povo com as forças de esquerda e progressista à frente alcançaram sua terceira vitória consecutiva com a eleição da presidenta Dilma Rousseff. Com base nas conquistas dos dois governos do presidente de Lula, nossa presidenta governa sob o compromisso de realizar conquistas mais avançadas. Entre elas, a política de integração regional sobre a qual o Brasil tem grandes responsabilidades.

Da nossa parte, temos a convicção de que a participação das forças revolucionárias em governos progressistas no capitalismo é um meio de acumular forças para superar esse mesmo sistema e construir a sociedade socialista. Essa é a missão histórica das forças revolucionárias.

Governar sob o capitalismo, no chão da América Latina, é para as legendas avançadas esse sulco inusitado resultante da longa luta de resistência ao neoliberalismo que marcou a última década do século XX. Ao contrário, portanto, de abdicar de sua missão histórica, o que buscam as forças políticas avançadas é dar a ela concretude nas circunstâncias contemporâneas.
Vamos, pois, dar início a este Seminário no qual não há estrangeiros, pois que nós latino-americanos somos povos irmãos.