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    Comunicação

    Sentinela Nordestina na Guarita do Extremo-Norte

    Sentinela Nordestina na Guarita do Extremo-Norte Esta gente me prestem um pouco de sua atenção: já que se vai completar 400 anos de invenção da Amazônia quero fazer o elogio dos combatentes da República federativa brasileira levantar a mina de panfletos da saga “Sentinela da Liberdade” de sul a norte semeada ao vento pelo pensamento […]

    POR: Redação

    12 min de leitura

    Sentinela Nordestina na Guarita do Extremo-Norte

    Esta gente
    me prestem um pouco de sua atenção:
    já que se vai completar 400 anos de invenção da Amazônia
    quero fazer o elogio dos combatentes da República federativa brasileira
    levantar a mina de panfletos da saga “Sentinela da Liberdade”
    de sul a norte semeada ao vento pelo pensamento libertário
    brotada ali e acolá por onde houvesse tipógrafo atrevido
    gráfica improvisada ou simples folheto manuscrito sem medo
    dos senhores donos do Poder e de seus esbirros sanhudos
    por principal Sentinela a lavra do pedreiro-livre vermelho Cipriano Barata
    decano da imprensa carbonária na fátria imortal de Tiradentes.

    Velhos camaradas mortos, porém ressuscitados na memória da “res publica”
    continuados por blogueiros e ativistas do arromba
    na voz das ruas, a Mídia e a maioria de votos do povo nas urnas
    a esteira de redes sociais de conexão planetária
    graças à revolução democrática da C&T enquanto dantes
    eram “papelinhos incendiários”
    manuscritos no grito fazendo despertar a consciência social
    dando margem agora – às vezes sem saber – ao povo
    da Ágora eletrônica pra fazer sítio da Utopia no ciberespaço
    povoado de neurocorações e mentes-sementes
    ansiosas por habitar o templo do “Santo espírito” e refundar a República.

    No continente norte-nordestino do Brasil
    louvo sobretudo a lavra brava do cearense Vicente Ferreira Lavor Papagaio
    redator da histórica “Sentinela Maranhense na Guarita do Pará”
    arauto da Cabanagem em nome do padre paraense Batista Campos
    Lavor foi conterrâneo do presidente cabano Eduardo Angelim
    este último migrante da família Nogueira de Aracati-CE
    morador de Belém, na Campina, velha aldeia indígena e bairro de pretos libertos
    por acaso zona de meretrício da cidade e memória da batalha de Riachuelo.

    Ai de mim assim!
    Tal qual índio sutil desterrado na confusão cartográfica do Mapa das Cortes, desnorteado agora eu quero saber quem inventou o mundo e aonde foram parar as conexões secretas da república da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão, Pará, Amapá, Amazonas até os confins do Acre na construção do grande norte do Brasil-República
    em árdua luta contra taras das capitanias hereditárias do Brasil-Colônia.
    Promover comemoração justa e perfeita de quatro séculos de invenção
    da nossa Amazônia verde e amarela, seu coração cabano encarnado no povão
    que nem vulcão invisível pulsando no fundo da terra dos Tapuias.

    Mostrar pegadas do Gigante a despertar no caminho do Maranhão
    florão da América libertada
    revolução Pernambucana, Confederação do Equador
    províncias unidas pela dor e esperança da república popular brasílica
    gloriosa Cabanagem infinda:

    trinta mil heróis finados sob império caramuru
    levantados do chão encharcado de sangue, suor e lágrimas
    já multiplicados por 100 e por 1000 cabocos pan-amazônicos
    confraternizados por milites de Bolívar e seu general pernambucano Abreu e Lima
    a fim de erradicar afinal a indecente escravatura paga a matadores dementes
    mediante soldo por orelha decepada a cadáveres cabanos
    rosário de crimes contra a humanidade desde a chegada de Colombo
    que nem na Ditadura a louca e imoral repressão à guerrilha do Araguaia
    brava gente irmanadas pelo sangue e o fogo
    no rio do tempo e espaço na resistência à Tirania colonial
    desde o levante tupinambá de 7 de janeiro de 1619
    o cacique guerrilheiro Cabelo de Velha no Pará e Pacamão em Cumã, Maranhão
    contra propaganda do mercador Simão Estácio da Silveira,
    engano desumano dos casais dos Açores.
    Ai que dores! O parto da história na conquista do rio das Almazonas.

    Ato inaugural da peleja popular do Maranhão e Grão-Pará
    luta renhida da República federativa em gestação no útero da História
    corpo e alma adversa à lenda do Grito do Ipiranga
    dado o golpe neocolonial pra abortar a Independência republicana
    (arquitetada pacientemente na Maçonaria vermelha do Rio de Janeiro)
    visceralmente oposta ao tacão monarquista urdido em Londres
    tendo Portugal sempre por laranja
    ressurreição sebastianista do luso Tiradentes na contramão à fina força
    da inventiva sertaneja sob proteção do Padre Cícero e de São Benedito
    dos homens pretos
    resultado vivo na catolicidade afro-amazônica
    fruto do amasio da índia tupinambá com o cristão-novo metido a caraíba.
    Ceará impossível!
    O primeiro passo em Jaguaribe na conquista do rio das Amazonas
    Refazenda da diáspora judia, massagada árabe, sincretismo afro-brasileiro
    Criaturada grande a bordo do espaço norte-nordestino
    fado, sina e forró virando carimbó para todos na mestiçagem tropical.

    Dar vivas ainda que tardias à liberdade, igualdade e fraternidade
    elogiar o atiçador de revoltas de retirantes da seca no rio das Almazonas
    camarada arigó de índios ajuricabas e nheengaíbas rebeldes
    pretos de mocambo e cabocos ribeirinhos cabanos mato adentro
    vingadores de pobres açorianos enganados
    contágio republicano de Caiena ocupada pela invasão militar luso-saxônica
    “papelinhos incendiários” de contrabando, notícias abolicionistas
    da revolução dos escravos do Haiti a bordo de navios de carreira
    até aqui a invenção d’Amazônia prestes a completar 400 anos.

    Com ardor Lavor contradiz a fama de coronéis do sertão
    desmonta a indústria da seca, fecha o almoxarifado do Grão-Pará
    rufa tambores de guerra na hora da sesta da baronia da Borracha.
    A coisa pública vai ou racha!
    Ainda hoje a Sentinela Maranhense arruína a mina de exportação do El-Dorado
    bate sem dó no agronegócio do ócio de donos dos incentivos fiscais
    etecetera e tal.
    Alui a sustentação da exploração do trabalho escravo e devastação da natureza
    com certeza, comprados por 30 dinheiros a gatos filhos da porca mãe Miséria.
    O panfletário de Icó manda ao inferno o despacho de gado humano ao Pará
    aqueles uns que tiram sertanejo da peia só quando não há chuva no sertão
    e mandam pobres “negros da terra” pra devastar a Floresta Amazônica
    que nem José do Egito vendido por seus irmãos ao Faraó
    sempre com o velho ditado do espaço vazio:
    “homens sem terra para terra sem homens”.

    Claro, primeiro despovoaram de tapuias a multidão do Rio Babel
    depois de feito o vazio com genocídio do dito rio há que repovoá-lo
    desta feita como outrora o Maranhão deserto de casais açorianos:
    portanto é sorte, seca no Nordeste e mato com águas frescas no Norte…

    Não, senhores! Chega de tonta dormideira…
    Na pena carbonária do Papagaio de Icó misturada a este engenho caboco
    a história é outra:
    aqui arigós fogem da seca e da sanha de exploradores do suor alheio
    refugiam-se nos rios os mais distantes e sangram a seringueira
    feiticeira dos matos do extremo norte.
    Um seringueiro brabo quando amansa a terra agreste domestica-se tembém
    Se faz o homem igual à seringueira leiteira,
    mas quando ele toma rumo não deixa o caso por menos que Chico Mendes…
    Claro! A Cabanagem antecedeu a “belle époque”
    mas a “Sentinela Maranhense” foi premonitória também
    do Corpo de Trabalhadores e “voluntários” da Pátria
    capturados para a Guerra do Paraguai como a “anistia” de 1840
    no rescaldo da grande combustão amazônica…

    Muitos cabanos eram nordestinos tais quais os cearenses Lavor Papagaio
    e Eduardo Angelim
    arigós brabos que se tornaram amazônidas com a gente e o chão nativo:
    a educação pelo barro não é menos difícil que pela pedra dura no sertão.
    Não poucos sertanejos mataram índios e morreram a flechadas
    na selva virgem por amor aos seringais
    enquanto navios mercantes iam e vinham com aviamentos e passageiros
    barões assinalados da Borracha se divertiam na Europa.
    No fim da história tem muito sangue nordestino derramado neste chão
    misturado a sangue de índio e negro africano transformado em mercadoria
    a custo de suor e lágrimas nas águas amazônicas conquistadas.
    Invento histórico de Olinda, Nova Lusitânia; marcha acelerada
    para fundação de Feliz Lusitânia do Pará na ambição do El-Dorado:
    prosseguimento geopolítico da saga do Bom Selvagem
    em busca da Terra sem mal, utopia mor do Brasil tropical para o mundo.

    Só pra refrescar a memória pátria: a utopia selvagem põe fé no rio e na rua
    que nem o Círio de Nazaré em outubro em Belém do Pará
    achamento duma terra da promissão no antigo país dos Tapuias
    lugar mítico que vale por manifesto político
    onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e Morte…
    Baita patrimônio imaterial da humanidade
    que um dia não muito longe da história do futuro
    será tombado pela ONU a pedido talvez de laureados do Prêmio Nobel
    derradeira queda do muro que separa “bárbaros” e “civilizados”…

    Agora que sou homem feito não estou preparado senão pra morrer
    mas sei que o espírito das cabanas é o fim do mundo desigual
    com prova nas barracas dos indignados de Wall Street e doutras praças
    tudo é cabanagem: idéia da sustentabilidade econômica pela mão de obra
    desde o dia que o primeiro homem disse não
    à invasão de seu território pelo outro
    que, por loucura, queria se adonar do mundo…
    Começou assim a odisséia da “res publica” no vasto mundo
    sobre ruínas de impérios mortos e aldeias assassinadas
    moídas nas engrenagens da máquina-vapor
    e atropeladas pelo deus-Progresso a beira de caminhos de ferro
    o impávido colosso industrial do Mercado.
    Pode ser que até o fim dos tempos
    a humanidade filha da animalidade venha a domesticar
    o homem lobo do homem
    reencontrar equilíbrio entre Natureza e Cultura…
    Até lá, haverá luta de classes, guerras frias ou quentes
    buscas da Terra sem males ou a Salvação no outro mundo
    com ópio para todos.

    A inata condição humana da cabanagem geral
    persistirá até o fim de casas grandes e senzalas
    contra o ‘apartheid’ entre 1% de gente rica comendo
    quarenta por cento do PIB planetário e 99% da humanidade
    condenada a se bater pelo resto deixado da parte dos leões
    deste modo os mais fracos acabarão devorados pela Fome
    em meio à maldição de Midas.

    Ah, que a quixotada me levou com a canoa doida
    por mares nunca dantes…
    Quando eu só queria fazer elogio a um certo panfletário
    da “Sentinela Maranhense na Guarita do Pará”, cearense de Icó,
    chamado Vicente Ferreira Lavor Papagaio explosivo que nem o raio.

       José Varella, Belém-PA (1937), autor dos ensaios "Novíssima Viagem Filosófica", "Amazônia Latina e a terra sem mal" e "Breve história da amazônia marajoara".

    autor dos ensaios "Novíssima Viagem Filosófica" e "Amazônia latina e a terra sem mal", blog http://gentemarajoara.blogspot.com

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