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    Viagem no rio Araguaia

    Viagem no rio Araguaia José Godoy Garcia   1 Meu corpo fala e ama um rio. Nada sei de suas origens, como ignoro as origens do amor. Gostaria de ser um animal selvagem para viver anos nos sítios solitários onde suas águas banham. E, depois, eu me equilibro em suas formas; em meus ouvidos escuto […]

    POR: Redação

    2 min de leitura

    Viagem no rio Araguaia


    José Godoy Garcia

     

    1
    Meu corpo fala
    e ama um rio.
    Nada sei de suas origens,
    como ignoro as origens do amor.
    Gostaria de ser um animal selvagem
    para viver anos nos sítios solitários
    onde suas águas banham.
    E, depois, eu me equilibro
    em suas formas;
    em meus ouvidos escuto as águas,
    meus olhos deslizando em sua superfície .
    E viajaria no seu corpo,
    mansa ternura verde.
    E viajaria no seu corpo,
    cópula, amêndoa encarnada
    de crepúsculo e pássaros.
    O grande Araguaia
    me fez ligado á vida, como um animal.


    2
    Se você acompanhasse um rio,
    ah se você acompanhasse um rio
    desde as nascentes puras até longe…
    Se fosse o rio Turvo quando chegasse em Edéia
    veria peixes, peixes e mais peixes
    e a solidão do velho Teófilo
    cuja filha encantou um padre corado.
    No Nerópolis
    sujos porcos
    e em barcos
    viajarias
    Até pelo embrenhado
    do Corumbá.
    O rio Verde e o rio Corrente escondem muitas mortes.
    Velho Zé Garcia de Santana dizia:
    “Tomou veio d’água…”
    Em Formoso tem o rio Escuta,
    que muita maldade e coisa ruim escutou.
    Em Cavalcante tem o rio Silêncio,
    que rosário de sonhos silenciou.
    E o rio das Garças, se não tem garças,
    tem diamantes e vidas que
    a vida amaldiçoou.
    O rio do sono podia ter sido bom.
    Tanto como a seu próprio filho e tanto
    como a seu próprio corpo,
    você amaria um rio ,
    se um dia
    o acompanhasse das nascentes
    puras, até longe, até longe.
    Se você acompanhasse um rio
    você se tomaria de encantos pela vida,
    como a estrela é encantada com o seu curso,
    uma flor é encantada com a aurora,
    uma pedra é encantada com a aridez
    e a solidão da hora com os galos da madrugada.

     

    3
    Um rio é solene como a morte.
    Mas é vida, é a vida saudável da terra.
    Um rio é feito do que é efêmero.
    Mas tem o fragor de eternidade da terra.
    Um rio é música e é carne de fêmea mansa.
    Mas é dignidade, é amor silencioso. Tem semelhança com o sangue.
    Um rio é noite e caminho irremediável.
    Mas é sol. Sempre sol. E é aurora. Sempre Aurora.

     

    Revista civilização brasileira nº4
    Setembro de 1965
    Lançamento da Editora Civilização Brasileira S.A.

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