Camaradas:

É com imensa satisfação e justo orgulho revolucionário que ocupo a tribuna do IV Congresso do nosso Partido. É uma grande honra para um militante comunista participar do Congresso de seu Partido, mas é também um acréscimo das suas responsabilidades diante do movimento operário.

O IV Congresso do Partido é particularmente importante, pois deverá aprovar o Programa e os Estatutos do Partido, seguras provas do seu amadurecimento político, orgânico e ideológico. O nosso Partido, guia e força dirigente da revolução brasileira, é o fator básico para a vitória na luta contra a dominação imperialista americana, contra o governo de latifundiários e grandes capitalistas e por um governo democrático de libertação nacional. O seu fortalecimento constante é uma preocupação diária de todos os comunistas.

O Programa do Partido e os informes apresentados pelo Comitê Central ao IV Congresso traçam uma política justa para o movimento revolucionário brasileiro. Diante do nosso Partido está colocada a tarefa de elevar o nível do trabalho partidário à altura das tarefas do Programa. Apesar dos incontestáveis êxitos obtidos, devemos reconhecer, como nos demonstram os informes do Comitê Central, que se não avançamos como era necessário e possível na realização da tarefa de transformar o Programa do Partido em Programa de todo o povo, é porque o trabalho de organização não se colocou ainda a altura da nossa linha política.

Permitam-me, camaradas, que em minha intervenção me detenha em um dos aspectos do trabalho de organização: a seleção, distribuição e formação dos quadros.

Sabemos que para levar uma linha política justa à prática necessitamos quadros que compreendam a linha do Partido, estejam dispostos a levá-la à prática, saibam fazê-lo e se responsabilizem por ela. Cada vez mais precisamos de homens que se sintam responsáveis pelo destino do Programa, apaixonados e intransigentes defensores do Programa e lutadores infatigáveis pela sua aplicação.

Dirigir, quando a política é justa e já comprovada pela prática dos últimos acontecimentos, significa, antes de mais nada, bem organizar a escolha e a distribuição dos quadros, comprová-los na prática, descobrir os erros a tempo, enviar para os setores débeis os homens capazes de corrigir as falhas e aplicar as tarefas do Partido.

Nos últimos tempos, especialmente depois da publicação do Programa e dos Estatutos, muito avançamos na seleção, distribuição e formação de quadros. Os debates e o estudo do Programa e dos Estatutos, particularmente as sabatinas, foram e são importantes fatores na elevação do nível ideológico e da compreensão política dos nossos camaradas. O intenso trabalho de educação realizado ultimamente, muito ajudou a encontrarmos novos homens, abnegados e fiéis, que tudo fazem para levar à prática a linha política do Partido.

A nova estrutura do Partido, descentralizando o trabalho, exigiu a promoção audaciosa de centenas de quadros novos que integram as direções intermediárias do Partido. Aproximando mais a direção das bases, a nova estrutura possibilita uma ajuda mais direta do Comitê Central aos organismos intermediários e destes às bases, facilitando o mais rápido surgimento e formação de novos quadros.

Com os planos de recrutamento Stálin e Lênin que trouxeram resultados altamente positivos para a construção do nosso Partido, o número de militantes aumentou consideravelmente. Em algumas regiões os efetivos do Partido duplicaram, triplicaram e até quintuplicaram, principalmente nas grandes empresas, constituindo uma fonte inesgotável de novos quadros para o Partido, sobretudo quadros operários de grandes empresas. Muitos destes novos militantes tornam-se rapidamente bons dirigentes de organizações de base e de direções intermediárias, o que nos dá a perspectiva de termos em curto prazo um bom número de quadros capazes de suprir as necessidades sempre crescentes do nosso Partido.

Isto, camaradas, é o novo que surge em nosso Partido e que devemos valorizar ao máximo. Mas nós, comunistas, não vemos só os lados positivos do trabalho. Apesar de termos avançado, a deficiência de quadros é ainda grande e cada vez maior. É ainda insatisfatório o ritmo de surgimento e formação de novos quadros exigido pelo crescimento orgânico do Partido e pelo crescimento de sua influência entre as massas. Isto apesar de termos nas fileiras do Partido uma quantidade considerável de homens e mulheres combativos e de um devotamento sem limites que podem ser formados rapidamente como dirigentes do Partido, mas que não têm sido bem aproveitados e ajudados, devido a erros e falhas ainda existentes em nossa política de quadros.

A seleção e distribuição de quadros, em alguns organismos partidários, nem sempre é feita à base das qualidades políticas e praticas dos militantes. Em um Comitê Regional do nosso Partido foi desligado da produção um companheiro que não tinha nenhuma condição política e prática, pois atém de indisciplinado era doente mental. Além disto, só 6 meses depois o Comitê Regional tomou medidas para sanar esta falha grave, mas ainda procurou justificá-la, alegando que não havia outro camarada que pudesse ser desligado da produção.

Na verdade, os quadros só podem se desenvolver plenamente como revolucionários profissionais. Mas, devemos desligar da produção somente aqueles militantes que têm reais condições de se desenvolverem como quadros do Partido, e não os que se prontificam a desligar-se. Um bom militante, dirigente intermediário, foi transferido de um Comitê de Zona para um Comitê Regional, onde logo começou a sentir dificuldades. Não preparado ainda para assumir tarefas de tamanhas responsabilidades, assoberbado pelo trabalho complexo da Região e sem a necessária ajuda dos quadros mais experimentados, o companheiro procurava todos os pretextos para voltar para o lugar onde estava a sua família. Neste caso, superestimamos o nível de compreensão do companheiro e não o ajudamos. De volta ao seu município, ligou-se a uma grande fábrica onde não tínhamos Partido, criando rapidamente condições para a estruturação de uma organização de base do Partido graças ao seu trabalho com a massa.

Uma séria debilidade na política de quadros, ainda persistente em alguns organismos do nosso Partido, é a falta de audácia na promoção de quadros. É comum ouvirmos em vários organismos, quando se fala na criação de novas organizações ou em cobrir certas frentes de trabalho de massas, a justificativa de que faltam quadros e que o Comitê Central precisa enviar quadros, etc. Isso ocorreu, por exemplo, no Estado do Rio. Mas mando o Comitê Central começou a esmiuçar, a ver as coisas no local, apareceram muitos e bons quadros, que hoje estão à frente de Comitês Regionais e de Comitês de Zona.

A seleção de quadros, particularmente os que devem participar nos cursos das Escolas do Partido, nem sempre é feita de forma justa e responsável num grande número de organismos. Muitas vezes, selecionam-se os homens não pela sua fidelidade, abnegação, espírito de sacrifício e devotamento ao Partido, mas pelo seu nível cultural ou por simpatia pessoal. O camarada Prestes nos diz que, nas condições do Brasil,

«seria um erro pretender selecionar os quadros exclusivamente na base da maior ou menor capacidade dos militantes em redigir informes ou do melhor aproveitamento nas escolas do Partido»,
o que não quer dizer que a elevação do nível cultural não deve ser uma preocupação constante de todos os comunistas, em particular dos dirigentes do Partido. Comumente verifica-se outra falha na seleção dos alunos: devido à falta de planificação dos camaradas que devem ir aos cursos das Escolas do Partido, muitos organismos designam camaradas que têm mais facilidade em perder alguns dias de trabalho e raramente aqueles que precisamos ajudar para se desenvolverem como quadros. Devido a estas falhas é que ainda é pequeno o número de quadros operários e camponeses que passam pelas Escolas do Partido, o que se reflete em toda a atividade do nosso Partido.

Em alguns organismos partidários, a promoção de quadros nem sempre é feita à base da análise cuidadosa e rigorosa da vida do militante, da comprovação de sua fidelidade e dedicação ao Partido. Apesar das sucessivas recomendações do Comitê Central, ainda existem organismos do Partido que fazem promoções de quadros exclusivamente à base da confiança e do conhecimento pessoais. Este critério pequeno-burguês e liberal levou a que fossem propostos para membros de Comitês Regionais elementos que não eram de comprovada fidelidade ao Partido, mas da confiança pessoal deste ou daquele dirigente regional. Não são poucos os prejuízos que isto representa. Assim é que num ou noutro destes casos de propostas de promoção de Comitês Regionais à base de confiança pessoal, o Comitê Central comprovou que se tratava de elementos sem condições mínimas para serem dirigentes, chegando a haver casos de elementos suspeitos.

A falta de estudo cuidadoso e responsável da vida dos militantes, o não conhecimento dos homens, das suas qualidades e de seus defeitos, trás, portanto, graves prejuízos ao Partido.

Permitam-me reproduzir as palavras do camarada Prestes em seu Informe a este Congresso, sobre a seleção dos quadros:

«Os elementos importantes da seleção dos quadros são: o devotamento à causa da classe operária e a fidelidade ao Partido, provados na prática da própria vida; a estreita ligação com as massas; o espírito de iniciativa e o sentimento de responsabilidade; o espírito de disciplina e a intransigência na luta pela aplicação da linha do Partido e contra os desvios do marxismo-leninismo»
Tais ensinamentos do camarada Prestes devem ser para nós um roteiro seguro para superarmos as nossas debilidades na seleção de quadros e para formarmos rapidamente os quadros capazes de conduzirem bem alto, sem vacilações. com intrepidez, a bandeira do Programa do Partido e leva-ia à vitória.

Camaradas:

Apesar do grande avanço obtido na formação de quadros, serias falhas e debilidades ainda se verificam neste terreno, falhas e debilidades que precisam ser rapidamente eliminadas. Em alguns organismos ao Partido, ainda há a compreensão de que os quadros se formam somente nas escolas, por isso, algumas direções não tomam a si a tarefa de ajudar e formar os quadros, deixando-a apenas para as escolas. O trabalho político e ideológico com os quadros, a ajuda diária, é subestimada. Depois de passar pelos cursos das escolas do Partido, as direções destacam os quadros para as tarefas e não controlam sistematicamente suas atividades, não lhes dão ajuda política e prática para enfrentar com êxito as dificuldades. Sem ajuda e sem controle, a experiência nos mostra que até bons quadros caem na placidez, no comodismo, chegando uns até mesmo a degenerar. Em um Comitê Regional, encontramos um companheiro, antigo 1º secretário de um Comitê de Zona, que, assoberbado pelas dificuldades e por falta de ajuda, não mobilizava o Partido para as tarefas. E isto simplesmente porque não sabia como fazê-lo. Como este, muitos companheiros existem. Têm condições de se formarem como quadros, mas, por falta de ajuda e de controle, caem no comodismo, perdem a perspectiva e se perdem.

O camarada Prestes nos ensina que as escolas ajudam muito na formação dos quadros, «mas a promoção dos militantes que já se revelaram na prática facilitará o mais rápido desenvolvimento de tais militantes como quadros dirigentes capazes do Partido». É na prática que mais se ajudam os militantes, aconselhando-os política e praticamente a superar as dificuldades e enfrentar vitoriosamente as tarefas.

A luta contra a burocratizarão dos quadros é de grande importância para a sua formação revolucionária. Infelizmente, nem em todos os organismos do nosso Partido é travada uma séria batalha contra o burocratismo. Alguns informes às Conferências Regionais, por exemplo, ao invés de aplicar de forma criadora o Programa à realidade concreta da região, limitaram-se à transcrição de trechos do Programa e de aulas recebidas nas Escolas do Partido, o que demonstra que algumas direções regionais ainda não assimilaram o Programa do Partido. Quando se apresentou de forma aguda e concreta a necessidade de aplicar a tática do Partido durante os acontecimentos de 24 e 25 de agosto e das lutas do massas contra o golpe e o imperialismo norte-americano, inúmeras direções não souberam avaliar com justeza a situação. Muitas tomaram uma posição falsa. Organismos do Partido houve, como em Magé, Goiânia, Cabo Frio, etc., que se recusaram a participar dos protestos de massas. Outros ficaram na expectativa. No momento, na luta contra o burocratismo cabe-nos substituir, sem vacilação os que se mostraram oportunistas e pusilânimes, pelos que demonstraram espírito revolucionário, tomaram a frente das massas em luta e as dirigiram mesmo que sejam menos experientes. Ajudados, estes camaradas se colocarão rapidamente à altura de suas responsabilidades e imprimirão em seus organismos impulso revolucionário e espírito prático. Estas importantes qualidades são sumamente valiosas em nossa luta pela vitória do Programa do Partido.

Nem sempre, porém, sabemos ajudar solicitamente os quadros, de forma fraternal, compreensiva e paciente, tratando-os como o fundo de ouro do Partido. Isto se refere hoje, principalmente, aos quadros femininos, bastante insuficientes diante das necessidades da luta e das condições existentes. Apesar do movimento feminino de massas ter avançado, particularmente com a realização vitoriosa da Conferência Latino-Americana de Mulheres, em muitos organismos de nosso Partido persiste a subestimação pelo trabalho feminino e mesmo certo tratamento antipartidário, injusto, para com as companheiras. Se há êxitos, devemo-los à ajuda do Partido no lugar; se há fracassos, é culpa das companheiras — tal atitude de certos camaradas. Não há o estimulo e a ajuda indispensável na formação dos quadros femininos. Com tal tratamento. não surgem nem se desenvolvem quadros femininos de acordo com as exigências e as necessidades do nosso Partido. Neste próprio Congresso, pelo reduzido número de companheiras presentes, podemos avaliar o quanto é subestimado o trabalho feminino de massas, o quanto é pequeno o número de mulheres nas fileiras do nosso Partido. Se não levarmos em conta as características das mulheres, sua compreensão política e seu nível cultural, presas ao trabalho de casa e aos filhos, etc., reflexo da situação das mulheres na atual sociedade brasileira, não será fácil formarmos milhares de quadros capazes de dirigir o movimento feminino de massas, de conquistar os milhões de mulheres brasileiras para as posições do Programa do Partido.

O mesmo ocorre com os quadros jovens. A UJC é uma reserva do Partido, uma fonte de quadros jovens, com o sentido do novo e com impulso revolucionário, como vimos nos acontecimentos de 24 de agosto, quando inúmeros jovens tomaram a frente das massas e as dirigiram em seus protestos contra o golpe do imperialismo norte-americano. Apesar disto e apesar do seu grande crescimento, a UJC tem fornecido poucos quadros ao Partido. Isto se deve a que a maioria dos organismos do Partido subestimam a ajuda a UJC, não têm ajudado a formar os seus quadros como é possível e necessário. Muitos organismos do nosso Partido ainda não compreendem que a formação dos quadros da UJC é, em primeiro lugar, uma importante tarefa do Partido. Se cumprirmos com responsabilidade esta tarefa, se ajudarmos aos camaradas da UJC, esta poderá nos dar, em curto prazo, centenas de companheiros capazes, possibilitando assim ao Partido a suprir mais facilmente as exigências que nos são impostas pela luta pela aplicação vitoriosa do Programa.

Camaradas:

Para forjarmos um Partido à altura das tarefas do Programa, o nosso Congresso deverá aprovar os novos Estatutos do Partido. O estudo, a assimilação e a aplicação dos Estatutos, particularmente na parte em que trata dos deveres e dos direitos dos membros do Partido, são importantes fatores para a formação dos quadros. A preocupação pela elevação do nível político e ideológico é dever estatutário, obrigatório para todos os militantes. Esta tarefa é, entretanto, subestimada pela maioria dos nossos camaradas. Basta citar o fato de que temos centenas de companheiros que tiveram a felicidade de estudar nas Escolas do Partido, mas que, após os cursos, muitos nem mais olharam para as suas anotações, não completaram o estudo iniciado nas Escolas com o estudo individual. Em seu informe, o camarada Arruda assinala que, para avançar, temos necessidade de fazer a crítica teórica de nossos erros e para isso assimilar o marxismo-leninismo A subestimação da teoria, como acentua o camarada Prestes, é o obstáculo principal à mais rápida formação dos quadros, conduz ao espontaneísmo, base ideológica do oportunismo, o que facilita a penetração da ideologia da pequena burguesia em nossas fileiras, o que causa não poucos prejuízos ao Partido. Para a formação dos quadros de Partido é preciso travar a luta sistemática contra todas as manifestações das ideologias estranhas à ideologia socialista, o que se torna possível à medida que os quadros do Partido assimilam a teoria marxista-leninista.

Camaradas:

Os quadros do nosso Partido estão muito aquém das necessidades impostas pelo crescimento do Partido e de sua influência sobre as massas. Aproximam-se duras e decisivas batalhas pela libertação do Brasil do jugo do imperialismo americano e dos latifundiários e grandes capitalistas e pela conquista de um regime democrático popular. As formidáveis demonstrações antiimperialistas de 24 e 25 de agosto e a unidade de ação nelas conseguida são o prenúncio da ampla frente única antiimperialista e antifeudal que varrerá o regime caduco que nos oprime e construirá sobre suas ruínas o regime novo, democrático popular, abrindo o caminho para um futuro radioso e feliz para o nosso povo.

Os quadros, os homens, são a força que porá em prática a nossa política, para transformar o Programa do Partido em Programa de todo o povo. Os êxitos já obtidos nos dão a certeza de que em nosso Partido existem as forças capazes de eliminar as falhas e os erros e de formar homens de verdade, que conduzam à vitória a bandeira do Programa.

A partir de agora a luta será mais fácil, a perspectiva mais clara.

Guiados pelo Programa do Partido, sob a direção do nosso provado Comitê Central, avante camaradas, para a luta e para a vitória.