O lançamento dos livros e a sessão de autógrafos ocorreram na noite desta quarta-feira (17), no complexo Fnac do Flamboyant Shopping Center, com a presença de professores, militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ex-guerrilheiros e parentes de desaparecidos, além de estudantes e jornalistas.

A solenidade foi marcada por uma exposição dos autores, mediada pelo Secretário de Cultura de Goiás, Giovane Felipe, que apoiou o evento.

A autora gaúcha, Liniane Haag Brum, foi a primeira a falar e explicou que sua obra foi contemplada com a Bolsa Funarte de Criação Literária em 2010. Segundo a autora, a ideia de escrever o livro partiu do princípio de documentar o histórico de seu tio e padrinho, Cilon Cunha Brum, desaparecido na Guerrilha.

Liniane contou que cresceu ouvindo uma mesma história que sempre a intrigou, pois era mediada por mistério e silêncio. “Isso se tornou um mito na minha família, que ficou anos sem notícias e não podia procurá-lo por conta da ditadura. A situação gerou em mim uma inquietude, foi aí que pensei em pesquisar e documentar isso. Pensei primeiramente em fazer esses registros através de um documentário, um filme, mas depois de tantas pesquisas, procurei retratar tudo isso em livro”, descreveu.

O livro, em prosa, conta a história do militante comunista a partir de 1971, quando ele foi para a floresta combater a Ditadura Militar e nunca mais voltou. Liniane pesquisou sobre a vida do padrinho, que a autora nunca conheceu, e cujo destino era um enigma.

Durante quase vinte anos, a escritora revirou antigos arquivos, como documentos, cartas, recortes de jornal e fotos, e entrevistou pessoas que conheceram o seu tio, de sua família e também moradores em viagens ao Araguaia e protagonistas da Guerrilha.

Guerrilha do Araguaia – a esquerda em armas

No lançamento, o professor Romualdo Pessoa agradeceu a presença de seus familiares e amigos. Sobre a obra, comentou que o conteúdo da primeira edição (publicada com 220 páginas pela Editora da UFG, em 1997) era sua dissertação de mestrado, fruto de pesquisas iniciadas em 1992 em torno do movimento guerrilheiro na região do Bico do Papagaio. “Este livro está em sua segunda edição, porque foi revisada e atualizada com novas pesquisas, já que a primeira edição foi esgotada”, explicou.

Em sua obra, o autor expõe que a guerrilha começou a ser planejada em 1968, quando chegaram os primeiros combatentes no Norte Goiano, hoje Tocantins. O primeiro confronto da guerrilha ocorreu em abril de 1972, e o movimento armado durou até 1974.

Segundo Romualdo, a nova edição da obra ganhou mais documentos e relatos a que ele teve acesso depois que foi convidado, em 2009, para integrar um grupo de trabalho do Ministério da Defesa (formado para investigar a história de guerrilheiros e realizar expedições aos locais do conflito onde possam estar enterrados os corpos de desaparecidos).

Segundo o professor, a Guerrilha do Araguaia foi encarada por anos como uma pequena revolta de terroristas e que demorou muito até que as execuções dos guerrilheiros pelas Forças Armadas fossem admitidas publicamente. “Este tema era proibido, era negado. Até por procuradores da Justiça”. E até hoje, salientou Romualdo, há perseguição aos moradores da região.

Para o professor, montar uma obra narrativa que fale sobre um período muito complexo, de circunstâncias incomuns foi muito complicado. Bem descontraído, o escritor descreveu ainda episódios sobre o difícil acesso à região.

Em seu livro, revelou Romualdo, “falo sobre um personagem importante que é o major Curió, acusado de ser um dos principais perseguidores e torturadores dos guerrilheiros. Ele é bastante conhecido pelos moradores e comanda a região até hoje”. O historiador lembrou que o mesmo já foi prefeito, deputado federal, interventor em Serra Pelada e até deu nome a uma cidade: Curionópolis.

No evento, o Secretário de Cultura, Giovane Felipe disse que estes livros são documentos-chave, que expõem a visão de diferentes protagonistas e documentos, formando a história, antes oculta, a respeito do tema. Para ele, as obras têm sua importância histórica para a democracia brasileira.

Foram registradas ainda as presenças do Reitor da Universidade Federal de Goiás, Edward Madureira Brasil; o vice-reitor, Eriberto Francisco Bevilaqua Marin; o guerrilheiro sobrevivente, retratado no livro, Micheias Gomes (conhecido como Zezinho do Araguaia), a irmã do desaparecido político Divino Ferreira de Souza, Terezinha Amorim; o presidente da Associação dos Anistiados de Goiás, Elio Cabral; o escritor Pinheiro Salles, o jornalista e também escritor, Renato Dias.

Serviço

Guerrilha do Araguaia – A Esquerda em Armas, de Romualdo Pessoa Campos Filho (340 páginas, Fundação Maurício Grabois & Anita Garibaldi, 40 reais) e Antes do Passado – O Silêncio Que Vem do Araguaia, de Liniane Haag Brum (272 páginas, Arquipélago Editorial, 39 reais).