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    Comunicação

    Cansado de Certos Momentos

    Cansado de Certos Momentos   Foi-se tudo como areia fina esgueirando-se pelos dedos. Mãe! aqui me tens, metade de mim, sem saber que metade me pertence. Aqui me tens, de gestos saqueados, onde resta a saudade de ti e do teu mundo de medos. Meus braços, vê-os, estão gastos de pedir luz e de roubar […]

    POR: Redação

    2 min de leitura

    Cansado de Certos Momentos

     

    Foi-se tudo
    como areia fina esgueirando-se pelos dedos.
    Mãe! aqui me tens,
    metade de mim,
    sem saber que metade me pertence.
    Aqui me tens,
    de gestos saqueados,
    onde resta a saudade de ti
    e do teu mundo de medos.
    Meus braços, vê-os, estão gastos
    de pedir luz
    e de roubar distâncias.
    Meus braços
    cruzados
    em cruz de calvário dos meus degredos.
    Ai que isto de correr pela vida,
    desbaratando a riqueza que me deste,
    de levar em cada beijo
    a pureza que pariste e embalaste,
    ai, mãe, só um louco ou um Messias
    estendendo a face de justo

     

    para os homens cuspirem o fel das suas veias,
    só um louco, ou um poeta ou um Cristo
    poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
    e, embora rasgado, beber o perfume
    e continuar cantando.
    Mãe! tu nunca previste
    as geadas e os bichos
    roendo os campos adubados
    e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
    pela erva menina dos meus prados.
    E assim, geraste-me despido
    como as ervas,
    e não olhaste os poços nem as cobras,
    verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
    De mão nua, entregaste-me ao destino.
    Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
    E sem uma crosta que me tornasse rijo,

    nem lutei nem vivi:

    fiquei quieto, absorto, em lágrimas
    — e lá ao fundo esperavam-me valados
    e chacais rancorosos.

     

     

    Fernando Namora – As Frias Madrugadas

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