Agronegócio. Modelo de produção responsável por contaminar o meio ambiente e colocar o Brasil no topo dos países que mais consomem veneno no mundo. Só no ano passado, o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) liberou ao mercado mais de 500 produtos maléficos à saúde.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) faz o contraponto ao investir na agroecologia e colocar o país na posição de um dos maiores produtores de arroz orgânico.

O cultivo ocorre há mais de 20 anos, quando um grupo de assentados da reforma agrária se propôs a realizar uma nova forma de produzir. A experiência resumiu-se em trabalhar com o alimento na base agroecológica.

Nesta safra (2022), as famílias camponesas esperam colher 15,5 mil toneladas de arroz orgânico, cerca de 310 mil sacas de 50 kg do produto, em aproximadamente 3.196.23 hectares, segundo Martielo Webery, do setor de comercialização da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região Porto Alegre (Cootap)

Os assentamentos da região metropolitana de Porto Alegre foram os primeiros a plantar arroz orgânico. Mais tarde, outras áreas da reforma agrária no estado também começaram a se organizar por meio da cooperação para produzirem o alimento. Isso tornou o MST o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, segundo o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

Inicialmente, os assentados receberam auxílio da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap), da Cooperativa de Produção Agropecuária dos Assentados de Tapes (Coopat) e da Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), todas do MST.

As cooperativas conseguiram máquinas agrícolas e assistência técnica para os antigos sem terra, viabilizando o cultivo. O modelo produtivo passou a gerar distribuição de renda e integração social e econômica entre as famílias, que hoje também se organizam através do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico.

Famílias envolvidas

De acordo com Celso Alves, coordenador do Setor de Grãos da Cootap, na safra 2019/2020 os camponeses estimam colher 312 mil sacas de arroz orgânico em 3.215 hectares. A produção é de 364 famílias, de 14 assentamentos, situadas em 11 municípios gaúchos, distribuídos pelas regiões Sul, Centro-Sul, Metropolitana e Fronteira Oeste.

Sem contar Cootap, Coopat e Coopan, mais cinco empresas sociais de assentados participam hoje da produção. São as cooperativas de Charqueadas (Copac) e Viamão (Coperav), mais as cooperativas Sete de Julho (Coopal), Terra Livre e a Coceargs, que é a central dos assentamentos do estado.

Juntas cultivam principalmente o arroz orgânico nas variedades agulhinha e cateto. Após a colheita, no beneficiamento industrial, os grãos passam por um processo e se transformam em mais opções para o consumidor. O agulhinha vira arroz branco polido, parboilizado e integral. Já o cateto se divide em branco e integral.

Agroecologia é um modo de vida

Mobilizar, organizar, formar e motivar os assentados é o que guia as ações do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico, conforme Emerson Giacomelli, presidente da Cootap. Por meio dele, os camponeses se reúnem e são incentivados a compartilharem experiências. Isso ocorre desde a sua constituição, em 2002. Esse processo resultou, e ainda resulta, em avanços na cadeia produtiva de arroz orgânico do MST.

Giacomelli defende a organização coletiva para consolidar alternativas ao agronegócio. Ele explica que trabalhar com a agroecologia é estabelecer relações de respeito e integração entre os seres humanos e os recursos naturais.

“Nossa produção é feita com técnicas que estimulam a fertilidade e o cultivo de alimentos saudáveis, o que gera mais qualidade de vida aos produtores e consumidores e renda às famílias”, complementa.

O presidente acrescenta que o modelo agroecológico é uma opção de vida para as famílias assentadas. Trabalhar dessa forma, além de dar autonomia ao camponês, é também fazer relação com a sociedade, conquistar políticas públicas e fortalecer o Movimento.

Quem consome 


Agroecologia estabelece relações de respeito e integração entre seres humanos e recursos naturais / Foto: Alexandre Garcia

Nelson Krupinski, coordenador comercial da Cootap, salienta que o arroz da reforma agrária vai para várias partes do Brasil e do mundo. Os Sem Terra participam de programas que incluem a produção dos assentamentos, o que abrange o Distrito Federal e vários estados, como RS, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Pernambuco e Alagoas.

Os produtos certificados do MST chegam a escolas públicas através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Já pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que é comercializado junto à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o arroz orgânico está incluído na cesta básica que já foi entregue a milhares de famílias em situação de vulnerabilidade. A obtenção do alimento também é feita por hospitais, universidades, institutos federais, Forças Armadas e o Exército Brasileiro.

Diálogo com a sociedade

Nos primeiros anos de cultivo, os assentados se reuniam anualmente para compartilhar seus conhecimentos sobre o arroz orgânico, por meio de um seminário. “Reuníamos alguns agricultores para fazermos umas avaliações. Realizávamos debates sobre um determinado tema e finalizávamos com um almoço”, lembra Giacomelli.

Essa atividade logo cresceu e os agricultores entenderam a importância de organizar um evento que dialogasse também com a sociedade. No ano de 2002 ocorreu a 1ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico, com o objetivo de celebrar a produção e ao, mesmo tempo, fazer o contraponto ao modelo convencional.

“A festa do arroz orgânico foi um processo de amadurecimento e de aprendizagem. Se tornou um momento para celebrarmos com os companheiros e as companheiras e trocarmos experiências”, pontua.

Programada para o dia 20 de março, quando receberia os ex-presidentes Lula e Dilma, a Festa da Colheita 2020 foi cancelada como medida de prudência diante da ameaça do coronavírus.

Etapas da produção

1ª etapa – Drenagem da área e incorporação da palha da colheita anterior, para acelerar a decomposição e renovação do material orgânico;

2ª etapa – Preparo do solo, com incorporação do material orgânico, aeração do solo, eliminação de insetos e doenças, controle das plantas indesejadas, correção dos desníveis da área e formação do lodo para receber a semente;

3ª etapa – Pré-germinação e plantio das sementes;

4ª etapa – Estabelecimento das lavouras, o que exige do agricultor conhecimento sobre a área plantada, eficiente sistema de irrigação e drenagem e decisão sobre uso da água;

5ª etapa – Colheita.