A noite de 7 de abril de 2010 foi trágica. O Brasil inteiro assistiu pela televisão ao desastre que tirou a vida de centenas de pessoas no Morro do Bumba, em Niterói, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro. A forte chuva culminou no deslizamento de terra que causou a morte de 267 pessoas. Todas essas vítimas possuíam algo em comum: a sua classe e a sua raça. Era uma população de baixa renda formada em sua maioria por pessoas negras. Aquela comunidade foi criada, com auxílio do próprio Poder Público, em cima de um antigo lixão desativado. Por óbvio, tratava-se uma localidade sem qualquer condição sanitária e estrutural para a habitação. Era só uma questão de tempo para que uma tragédia ocorresse. E ela ocorreu em 2010.

Nesse mesmo ano de 2010, os moradores do bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, também enfrentaram uma chuva problemática, mas de outro tipo: a chuva de prata. Naquele bairro, a companhia alemã ThyssenKrupp Steel construiu seu empreendimento industrial conhecido como a Companhia Siderúrgica do Atlântico, a CSA, em 2010. Mas logo que entrou em operação, a comunidade local percebeu literalmente algo estranho no ar. Uma fuligem tóxica, de cor prateada, passou a cair no entorno da fábrica. Essa fuligem ficou conhecida como a “chuva de prata”. Chamada para avaliar a situação, a Fiocruz, centro de excelência em saúde no mundo, comprovou a existência de uma “correlação entre a exposição ao material particulado expelido pela siderúrgica e impactos agudos na saúde dos moradores, em especial com problemas respiratórios, dermatológicos e oftalmológicos observados pouco tempo após o contato com a fuligem” (1). Assim como no Morro do Bumba, aquela comunidade atingida era de baixa renda e formada em sua maioria por pessoas negras.

Não muito distante dali, na cidade de Duque de Caxias, também no Rio de Janeiro, um outro tipo de impacto socioambiental já havia ocorrido alguns anos antes. Logo após o fim da Segunda Guerra, o governo federal transformou uma de suas propriedades públicas na Baixada Fluminense em um grande orfanato para centenas de crianças. Essa região de Duque de Caxias passou a ser conhecida como a “Cidade dos Meninos”. Alguns anos mais trade, o mesmo governo federal criou numa área da Cidade dos Meninos uma fábrica de inseticidas organoclorados que hoje são proibidos no Brasil e em vários países no mundo. Na década de 1960 a fábrica foi fechada, mas foram abandonados no local cerca de 400 toneladas de seus resíduos tóxicos. Não demorou muito para que esses resíduos se espalhassem por toda a Cidade dos Meninos, contaminando toda a comunidade local. Na década de 1990, a Fiocruz fez um teste com 1400 moradores da região e descobriu que o sangue de 95% apresentou resíduos alarmantes da substância cancerígena (2).

O Morro do Bumba, a Cidade dos Meninos e a Chuva de Prata são exemplos daquilo que a literatura convencionou chamar de racismo ambiental. Nos três casos os impactos socioambientais tiveram como vítimas um recorte bem específico da sociedade, qual seja, a população pobre e negra. Afinal de contas, é difícil imaginar que as três situações mencionadas pudessem acontecer na zona sul carioca, nos jardins de São Paulo ou em qualquer bairro rico e branco do país. O conceito de racismo ambiental teve sua origem na década de 1980 nos Estados Unidos. Uma pesquisa realizada em 1987 pela Comissão de Justiça Racial da United Church of Christ concluiu que “a composição racial de uma comunidade é a variável mais apta a explicar a existência ou inexistência de depósitos de rejeitos perigosos de origem comercial em uma área” (3). Foi a partir do resultado dessa pesquisa que o reverendo Benjamin Chavis cunhou a expressão ‘racismo ambiental’ para explicar o fenômeno.

Na primeira metade do século XIX, Friedrich Engels já havia percebido como os impactos socioambientais da lógica do modo de produção capitalista geram consequências para a saúde da classe proletária. Em A situação da classe trabalhadora da Inglaterra, livro que se tornou um clássico fundador da sociologia urbana, Engels nos mostra as condições precárias em que viviam as parcelas mais pobres do país naquele momento. “Por todas as partes, há montes de detritos e cinzas e as águas servidas, diante das portas, formam charcos nauseabundos”, descreve Engels (4). Em recortes de jornais da época, Engels encontrou ricos detalhes de como a questão ambiental afetava diretamente os trabalhadores mais pauperizados da zona industrial de Leeds. “Durante as inundações da primavera de 1839, os efeitos dessa obstrução dos esgotos foram tão deletérios que, de acordo com o relatório oficial do registro civil, naquele trimestre registraram-se nessa área três mortes para cada dois nascimentos, ao passo que, no mesmo período e em outros bairros, a proporção foi exatamente a inversa” (5). Assim como a “chuva de prata” afetava apenas os mais pobres no Rio de Janeiro, Engels notou que também em Manchester a fumaça das fábricas era levada pelo vento apenas para os bairros mais populares, onde não havia moradias da burguesia.

Mas Engels foi além. Ao investigar a situação da classe trabalhadora na Inglaterra, o revolucionário alemão percebeu que havia ainda uma outra identidade, para além da classe, que marcava esses que mais sofriam os impactos socioambientais do capitalismo no país. Eram, em sua maioria, os imigrantes irlandeses que formavam a parcela mais pauperizada dos trabalhadores na Inglaterra. Sinal de que o fundador do marxismo já sugeria lá atrás o papel relevante das identidades na compreensão da exploração.

Numa formação social e histórica como a brasileira, em que a imensa maioria da classe trabalhadora mais pauperizada é formada por negros e negras, um conceito como o de racismo ambiental é fundamental para a análise marxista da realidade concreta. Pois aqui, a opressão de classe e a opressão racial estão consubstancializadas em uma mesma opressão. Não parece haver dúvidas, portanto, de que a oportunidade de compreender, denunciar e superar esse duplo caráter de opressão dos impactos socioambientais é uma contribuição valiosa que o conceito de racismo ambiental traz para a análise marxista.

Notas:

1 FIOCRUZ. Relatório reafirma correlação entre material expelido pela TKCSA e impactos na saúde. Agência Fiocruz. 10 dez. 2014. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/relat%C3%B3rio-reafirma-correla%C3%A7%C3%A3o-entre-material-expelido-pela-tkcsa-e-impactos-na-sa%C3%BAde

2 GRIGORI, Pedro. Uma cidade envenenada: a história desconhecida de um dos maiores desastres ambientais do Brasil. Agência Pública/Repórter Brasil | 02 ago. 2021. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2021/08/uma-cidade-envenenada-a-historia-desconhecida-de-um-dos-maiores-desastres-ambientais-do-brasil/

3 ACSERALD, Henri, “Justiça ambiental e construção social do risco”, Revisa Desenvolvimento e Meio ambiente, n5, 2002, p.53.

4 ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008, p.71.

5 ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 82-83.

Foto: Valter Campanato, no Jornal da USP

*Theófilo Rodrigues é cientista político e editor do portal da Fundação Mauricio Grabois