Por Altair Freitas

Historiador, Membro do Comitê Central, diretor da Escola Nacional João Amazonas, secretário de organização do PCdoB da cidade de São Paulo

Dia dos (as)  professoras (as)  nós comemoramos, claro. Mas para além das comemorações reafirmamos a disposição de lutar e de compreender o que de fato ocorre na educação brasileira. Por que seguimos com tantas defasagens históricas? Por que uma categoria tão essencial como a dos profissionais da educação segue como uma das mais desvalorizadas do país? Aqui, como em praticamente tudo, se não compreendermos a adequada relação entre infra estrutura e superestrutura, dificilmente teremos uma adequada visão sobre os problemas, limitações, mas também as potencialidades da educação brasileira. 

O magistério é provavelmente é a única carreira efetivamente estruturante em qualquer sociedade desde o fim da Idade Média europeia, quando, a partir das lutas dos povos e o desenvolvimento da ciência e do capitalismo, inicialmente na Europa. De lá para cá, ao longo dos séculos, avançou pelo mundo a concepção de que é necessário educar o povo no sentido das letras e das ciências nas suas múltiplas variáveis. Em paralelo, surgiu uma questão nodal para a análise da estruturação dos sistemas de ensino: ensinar o que e para que? Aliás, essa é uma questão que permeia o processo educacional desde a Antiguidade Clássica, desde os gregos. 

Entendam: educação não é algo neutro, nunca foi e está estruturada em qualquer lugar do mundo para formar mentalidades e mão de obra conforme os interesses das respectivas classes dominantes. Só que esse processo é, por essência, contraditório, pois lida com conhecimento e ele propicia o questionamento da ordem dominante. Logo, educação e sistemas escolares são palcos intensos das lutas de classe. Escolas não são ilhas separadas da sociedade. Todas as contradições sociais explodem todos os dias dentro dos muros escolares afetando profundamente a relação ensino aprendizagem. Da pobreza e miséria à violência doméstica, do machismo ao racismo. Da opressão assalariada à busca por dela se livrar, seja como for. 

Educação é uma necessidade intrínseca de uma sociedade com múltiplos ramos econômicos, que requerem duas coisas conjugadas: mão de obra especializada e mão de obra com baixa qualidade de formação técnica, especialmente no capitalismo, o que é o caso do Brasil. Apenas a título de ilustração: no agronegócio, da forma como está hoje, com a incorporação elevada de tecnologia de ponta, o trabalho especializado torna-se essencial, ao lado de um trabalho mais extensivo, temporário, com remuneração mínima. Setores inteiros do “comércio e serviços” se bastam com legiões de trabalhadores que não necessitam nada mais do que saber ler e escrever para operações as mais básicas. Trabalhadores (as) de aplicativos precisam de que tipo de formação mesmo para fazer entregas ou transportar pessoas? Ao mesmo tempo, serviços, comércios e aplicativos, demandam mão de obra especializada para desenvolver as tecnologias utilizadas, direta ou indiretamente falando. 

Ora, a classe dominante brasileira conhece bem o potencial da educação para formar mão de obra ao mesmo tempo em que produz questionamentos a ela como classe dominante. E, adivinhem! Décadas atrás essa classe dominante fez uma vergonhosa opção estratégica: o Brasil não precisa ser um centro produtor de tecnologias de ponta, podendo seguir como mero fornecedor de matérias primas e produtos agrícolas, contando com alguns nichos de excelência técnico-cientifico para poucos. Coisas como “desenvolvimento nacional soberano”, “formação de um mercado interno potente”, “um povo com elevado padrão de conhecimento científico”, dentre outras questões essenciais, passa longe da preocupação da maior parte da classe dominante brasileira, ela própria extremamente beneficiada pelo tipo de capitalismo estruturado no Brasil, no campo e nas cidades. 

Educação no Brasil, para a massa proletária, está estruturada para formar mão de obra barata minimamente alfabetizada, adestrada para cumprir ordens e permanecer na base da pirâmide social. Mesmo nos tais centros de excelência de qualificação de mão de obra, formam-se ótimos técnicos mas com baixa competência para interpretar a complexa realidade brasileira.  E todas as vezes nas quais essa lógica (país exportador de coisas baratas e consumidor de coisas caras, importadas)  esteve sob ameaça, como na época do presidente João Goulart e na era Lula-Dilma, esses governos foram impiedosamente atacados, desmoralizados, derrubados. E a educação, o sistema de ensino, a possibilidade de o país avançar nesse campo também, foram levados de roldão. Porque as coisas não estão dissociadas. 

E durante o atual governo, para além de tudo isso, veio ainda uma tentativa infernal de desmoralizar educadores (as) exatamente para tentar calar, sufocar, esse senso crítico que brota dentro das escolas e universidades. A histeria do movimento “escola sem partido”, a constituição da aberração pedagógica conhecida como “escola cívico-militar”, o desmonte de serviços de educação, os brutais cortes nas verbas federais para universidades públicas e repasses aos estados e municípios, tudo faz parte da intensificação da perversa lógica de compreender que da educação, dos profissionais da educação em especial e dos setores mais organizados dos estudantes poderia ver, como veio, uma forte onda de críticas e ações contra a fascistização da cultura e da educação. Nada é à toa.

Esse é o eixo estruturante para entender o que acontece com a educação no Brasil e em qualquer país do mundo: sem uma economia avançada, ancorada em ciência e tecnologia de pontas, sem um amplo processo de desenvolvimento econômico sustentável, voltado para o fortalecimento da pátria e do bem estar do povo, sem uma integração soberana ao mundo,  em um profundo processo de interação e potencialização entre economia e formação, não teremos um sistema educacional eficiente e não teremos profissionais da educação bem formados, bem pagos, valorizados. E sem valorização, com salários aviltantes, com uma carreira sem atrativos nas suas múltiplas vertentes, daqui vinte anos o país viverá um apagão com ausência de profissionais, um déficit estimado em 235 mil professores (as). 

Portanto, quando nós, profissionais da educação nos posicionamos a favor de uma candidatura como a de Luis Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, que pode trazer de volta o desenvolvimento nacional, a geração de emprego e renda em larga escala, a retomada de uma economia industrial, que possa colocar o Estado Nacional como indutor essencial do crescimento econômico – mesmo nos marcos limitados do capitalismo – fazendo o oposto do que tem sido feito por aqui nos últimos quatro anos trágicos do bolsonarismo no comando do Executivo e Legislativo, sabemos o que dizemos e pelo o que lutamos. Lutar pela educação é lutar pelo Brasil. Lutar pelo Brasil é lutar pela educação!