O livro “Ho Chi Minh – Vida e Obra do Líder da Libertação Nacional do Vietnã”, organizado pelo jornalista brasileiro Pedro de Oliveira, venceu o Prêmio Nacional de Comunicação Externa, na categoria livro, concedido pelo Partido Comunista do Vietnã. A premiação acontece no dia 5 de novembro, na Casa da Ópera de Hanói. 

Lançado em 2020 pela editora Anita Garibaldi, quando foram completados 130 anos de nascimento do líder vietnamita, o livro foi viabilizado através da parceria entre a Embaixada da República Socialista do Vietnã no Brasil e a editora Anita Garibaldi, com apoio da Associação de Amizade Brasil/Vietnã (Abraviet). A segunda edição, lançada em 2021, também teve o apoio da embaixada e, em especial, da embaixadora Pham Thi Kim Hoa. 

“O livro começou a ser gestado durante a elaboração do Trabalho de Conclusão do Curso de Relações Internacionais no Centro Universitário de Brasília. O professor Frederico Seixas, que participou da mesa julgadora, sugeriu que transformasse o TCC em livro e deu certo. Mas a razão do porquê me interessei sobre o tema remonta aos anos rebeldes de 1968, na USP. Participei de um movimento naquela ocasião de luta contra a guerra do Vietnã e nesse ambiente exibimos um documentário, enviado do Vietnã e editado pela Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul mostrando os horrores da guerra”, conta o autor, Pedro de Oliveira. 

Ele lembra que na faculdade, estudou os textos clássicos de Relações Internacionais e ao mesmo tempo uma linha de pesquisa inaugurada por um professor inglês e outro indiano, B. Buzan e A. Acharya, no livro Non-Western Internacional Relations Theory.  “Escrevi o texto com o título ‘Avaliação das formulações teóricas de Relações Internacionais no Vietnã’, tendo como base o pensamento de Ho Chi Minh. Procurei a Editora Anita e a Embaixada do Vietnã bancou a primeira edição”, explicou.

Na avaliação de Oliveira, que já foi secretário de Comunicação do PCdoB, “a importância de Ho Chi Minh na história do Vietnã é crucial. Na verdade, o Vietnã já foi invadido pelo menos 20 vezes em sua história milenar. Foram dominados sucessivamente por reinados chineses e mongóis, depois por colonialistas franceses, pelos imperialistas japoneses e ainda pelos americanos. Ho Chi Minh soube aplicar as ideias de Lenin sobre o imperialismo e a dominação ocidental na Ásia e sua principal arma foi a construção do Partido Comunista na península indochinesa”. 

Neste sentido, salienta, “desenvolveu teoria própria ligada a essa história heróica de resistência aos invasores do povo vietnamita através de amplas frentes populares, que foram capazes de derrotar inimigos muito superiores em armamento bélico como o exército colonial francês e o exército dos Estados Unidos — o maior exército do mundo até nossos dias”. 

Trazendo o pensamento do líder vietnamita para os dias de hoje, Oliveira diz que seu maior ensinamento foi “a necessidade de construção de amplas frentes únicas para derrotar inimigos poderosos como o imperialismo e a direita fascista no mundo”. Outro ensinamento importante, diz, “é o conhecimento do terreno e de sua história. Respeitar o povo e suas crenças religiosas, como foi o caso dos budistas e dos católicos vietnamitas. Levar em consideração a situação internacional é outra lição fundamental dos vietnamitas liderados por Ho Chi Minh”. 

Oliveira conta que para adquirir esse conhecimento, Ho viajou pelo mundo e passou até pelo Brasil. “Ficou por três meses morando em Santa Tereza no Rio de Janeiro, onde aprendeu a experiência de luta dos marinheiros liderados pelo Almirante Negro em 1912. Também aprendeu com a luta antirracista dos Estados Unidos e com os operários na Inglaterra. Militou no movimento socialista francês e foi um dos fundadores do Partido Comunista da França (PCF). Por fim, mudou-se para a Rússia revolucionária, onde foi um dos dirigentes do movimento comunista internacional”. 

Por fim, recorda, “depois dessa escola de lutas, ele voltou ao seu Vietnã onde fundou, em 1945, a República Democrática do Vietnã e faleceu em 1969 sem ter visto a vitória sobre o império americano em 1975, em Saigon. Esta cidade em seguida foi renomeada Cidade de Ho Chi Minh em sua homenagem”. 

Ao assinar a contracapa do livro, o secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã (PCV) destacou que “através de sua riqueza de experiência prática, combinada com as teorias revolucionárias e científicas do marxismo-leninismo, Ho Chi Minh chegou a uma profunda conclusão: de que apenas o socialismo e o comunismo podem responder plenamente à questão da independência nacional e trazer liberdade, bem-estar e felicidade para todos e todas as nações”. 

Segundo Carlos Lopes, da Hora do Povo, o livro, tanto na apresentação que Pedro – e, com destaque, também Renato Rabelo – fazem do herói, dirigente, poeta e fundador do Vietnã moderno (isto é, do Vietnã independente), quanto na seleção de textos de Ho Chi Minh, são de uma sensibilidade fundamental. Sente-se, nestes trechos, a identificação de seus autores com o homem que liderou seu povo no levantamento de sua nação.

Lopes lembra-se de um pequeno poema de Ho, escrito em 1947:

Paisagem na noite avançada

Os arroios sussurram como cantos longínquos,

a lua se projeta sobre as grandes árvores

e a sombra faz ressaltar as flores.

A paisagem na noite avançada parece

desenhada por uma pessoa que ainda não dorme,

pensando no destino futuro de seu povo.

(Poesia Vietnamita, Editorial Arte Y Literatura, La Habana, 1984, p. 378)

“Este é Ho, em sua grandeza, por inteiro. O homem que lutou, praticamente desde criança pela libertação de seu povo – escravizado, humilhado, vilipendiado pelo colonialismo francês, e, depois, pelo imperialismo norte-americano, numa guerra feroz, cruel, desigual, mas, enfim, vitoriosa”, diz Lopes.

O homem que, em 1968, em plena Ofensiva do Tet, escreveu:

Há muito não faço nenhum verso.

Volto a tentá-lo hoje, e no tumulto

de todos os papéis nenhuma rima encontro –

de pronto irrompe a palavra triunfo.

(idem, p. 379, itálico no original esp.)

Lopes observa que Ho percorreu o mundo. Esteve, inclusive, no Brasil. Foi, dizem alguns, membro, em Paris, da equipe de Georges Auguste Escoffier, chef que codificou a culinária francesa da primeira metade do século XX.

E foi membro do Partido Socialista Francês (SFIO), do qual se afastou para ser um dos fundadores do Partido Comunista da França (PCF). Muitos anos depois, perguntaram a Ho porque ele se tornara comunista, ao invés de permanecer no Partido Socialista. Ele respondeu que a posição dos comunistas a favor da autodeterminação das nações, ao contrário dos sociais-democratas, que tergiversavam a questão, fora decisiva para a sua opção.

Dentro da III Internacional, ele lutou sempre pelo reconhecimento da revolução dos povos coloniais. Na década de 50, Frantz Fannon falaria da influência da luta dos vietnamitas – em especial, da vitória vietnamita contra os franceses em Dien Bien Phu – como fundamental para a Revolução Africana, ou seja, para a libertação dos países africanos sob jugo colonial.

O instrumento para a libertação do colonialismo francês foi a ampla frente denominada Việt Minh (contração de “Liga pela Independência do Vietnã” na língua local).

Ho Chi Minh via na questão nacional o caminho da revolução. O socialismo não é algo que, na sua concepção, se opõe à luta pela independência nacional. Pelo contrário, ele provou, na prática, que a vitória sobre o imperialismo era o terreno que se abria para uma nova era da humanidade.

Para gerações, a Guerra do Vietnã ficará como um exemplo de heroísmo, de tenacidade, em que um povo decide não se submeter. O próprio acontecimento histórico é o maior monumento possível à memória de Ho Chi Minh, na opinião do jornalista.

O livro de Pedro de Oliveira faz jus a esse legado – aliás, são os próprios vietnamitas que reconhecem-no, com o primeiro prêmio que concederam a ele.

Vaquinha

Para que o jornalista Pedro de Oliveira possa estar presente na cerimônia de entrega, está sendo organizada uma vaquinha, que pode ser acessada clicando aqui

O livro “Ho Chi Minh – Vida e Obra do Líder da Libertação Nacional do Vietnã” pode ser adquirido no site da editora Anita Garibaldi e clicando aqui

Publicado originalmente no Portal Vermelho, por Priscila Lobregatte e na Hora do Povo por Carlos Lopes.