Militante da União de Negros e Negras pela Igualdade (UNEGRO), o escritor Edson Santana resgata Lima Barreto e fala da importância da literatura negra para a periferia brasileira.

Ensaio publicado originalmente na revista Radar Saúde Favela, da Fiocruz em 04.01.23.

Completamos em 2022, os 100 anos da Semana de Arte Moderna e os 100 anos da morte de Lima Barreto, um dos maiores escritores brasileiros. Foram muitos os eventos em torno do movimento artístico que contribuiu para a formação da identidade brasileira como nação. Poucos trataram de assumir um tom crítico à Semana de 22. Outros, ainda em
menor escala, tiveram a ousadia de questionar a não inclusão da produção artística negra no rol deste movimento que objetivava retratar o cotidiano do povo brasileiro, em detrimento da arte até então produzida para simbolizar a vida das elites.

O poeta Solano Trindade foi um desses artistas. O Poeta do Povo, como era chamado, foi também pintor, teatrólogo e cineasta. Eu, por exemplo, não o estudei na escola. Pouco o estudei na Universidade. Sua contribuição se encaixa perfeitamente na segunda fase do modernismo. Uma poesia viva, crítica e refl exiva a respeito dos problemas contemporâneos do Brasil. Mas foi invisibilizado.

Outro escritor colocado à parte, como se não tivesse sido um dos precursores da literatura que trata da vida do Brasil Real, foi Lima Barreto. Negro e suburbano, este escritor carioca possui uma vasta obra cuja complexidade, a meu ver, estava muito à frente do pessoal de São Paulo. Para mim, especificamente, Barreto é um dos maiores do século
XX, um dos maiores deste país. O primeiro contato que tive com seus escritos, foi por volta de 2006.

Nesse tempo eu me perguntava sobre os motivos pelos quais este homem não estava devidamente inserido no cânone e na historiografia do modernismo brasileiro. A crítica ao racismo presente em sua primeira obra, “Recordações do escrivão Isaías Caminha’’, somada a ferocidade com a qual julgava a imprensa não me deixavam dúvidas sobre o caráter crítico desse escritor.

Durante 15 anos busquei, inconscientemente, as respostas para a pergunta que trata da invisibilidade desse homem genial. Passei a ler seus Diários e artigos publicados na imprensa. Nos Diários percebi que Lima Barreto era um homem de vida sofrida, inconstante, devido às intempéries próprias de uma pessoa negra no Brasil da escravidão recém abolida. Nos artigos de jornais percebi que Barreto era um homem crítico ao Brasil que a imprensa fazia questão de pintar como democrático e participativo. Não consigo esquecer da opinião sarcástica de Lima Barreto em artigo publicado na revista Careta, em 03 de junho de 1922: “O Brasil não tem povo, tem público. Povo luta por direitos, público só assiste de camarote.” E evitando o esquecimento, talvez me sobre coragem para seguir seu ideal de povo. No entanto, essa coragem tem um preço: o anonimato, apesar do talento. Lima Barreto morreu pobre e só foi ter algum reconhecimento quase um século após sua morte.

Mesmo em 2022, foram parcos os seminários a celebrar a sua obra. Foi também em 2022 que eu, munido pela resposta sobre os motivos do anonimato de Lima Barreto e Solano Trindade, tive a oportunidade de criar uma relação mais estreita com o universo da literatura, em especial a produzida e reproduzida nas periferias. Fui escolhido para fazer parte da equipe que facilitaria a construção de uma rede nacional de grupos e coletivos literários das periferias do País: A Periferia Brasileira de Letras. Antes de falar sobre essa experiência, me permito o exercício de imaginar o Brasil atual caso esses dois (e tantos outros) artistas negros tivessem sido incluídos no seleto grupo das três fases do Modernismo.

Sei que é um pouco viagem, mas eu me permito: Seria esse mesmo Brasil de 2022? Brasil da perseguição às religiões de matrizes africanas, do ódio, da invisibilização de tudo que se constitui como periférico; O Brasil que despreza a ciência? Nossa trajetória enquanto PBL iniciou-se numa tarde, na sala da Cooperação Social da FIOCRUZ. Uma pequena imersão para pensarmos a comunicação do projeto e nossos desafios. Seria necessário chegar a 9 regiões metropolitanas do país. Adentrar essas periferias de modo virtual, buscar coletivos literários interessados em fazer parte da rede e disputar um lugar no curso de formação em políticas públicas saudáveis.

Até então, eu pouco sabia sobre esse tema, mas minha experiência com a literatura nas periferias do Rio de Janeiro já me fazia compreender a importância da leitura e da escrita na vida das pessoas periféricas envolvidas com tudo que gira em torno do Livro. Eu vi, na Cidade de Deus, a literatura salvar uma senhora que se tornou cadeirante e desenvolveu depressão.

Ao longo dos 10 meses de projeto, a PBL me proporcionou um mergulho de cabeça na realidade de periferias que eu nem imaginava que existiam. Para além da realidade desses territórios, a experiência dos coletivos e grupos selecionados foi o que mais me interessou e exemplos de como o fazer literário pode mudar a vida das pessoas não faltaram.

Todas as iniciativas que conheci através da PBL me surpreenderam. No entanto, meu interesse pelo protagonismo de pessoas negras me fez nutrir uma admiração especial por três empreendimentos: O Grupo de Arte Popular A Pombagem, a Editora Kitembo e a Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares. Da Fazenda Grande do Retiro, periferia de Salvador, o grupo de poetas surgido em 2009 entende a poesia como aparição espetacular, que não está presa aos livros e se reverbera no corpo e na voz. O Grupo “A Pombagem” surgiu realizando saraus em Salvador e atualmente tem um espaço próprio chamado Casa Museu Popular da Bahia. A partir da liderança de Fabrício Brito, o Grupo Popular vai de encontro à tradição grega quando propõe um rompimento com a ideia de inspiração através das musas gregas. Foram buscar na poesia de Luiz Gama a inspiração
para criar sua própria musa: A de Guiné. Uma evocação da ancestralidade através da poesia.

Em entrevista realizada pela PBL com membros da Editora Afrofuturista Kitembo, sediada em SP, foi dito o seguinte: “A gente foi numa escola e trouxemos um autor aí do Rio, o Hedjan, que publicou um livro chamado Crianças na sombra, que é a história de um prédio ocupado, mas que é tido como um prédio mal-assombrado numa comunidade (…). Quando terminamos de apresentar o livro, a professora perguntou se tínhamos um livro que trata de racismo.” Destaco esta parte a fim de trazer à luz a importância desta iniciativa que além de inovadora, se propõe a dialogar com a juventude, em especial a negra, através da literatura.

A memória destacada anteriormente, me faz pensar a respeito dos estereótipos projetados na produção literária de pessoas negras e na potência das iniciativas que reforçam a identidade de um povo colocado à parte do processo de desenvolvimento do Brasil. A Literatura Fantástica, a meu ver, possibilita que leitores e leitoras tenham a possibilidade de
sonhar e entendam a literatura como uma possibilidade de lazer. É através das Bibliotecas Comunitárias que as populações das periferias têm acesso às produções literárias e também se organizam em torno das pautas sociais que impactam os territórios periféricos. Na região metropolitana do Recife, Reginaldo Pereira é responsável pela Biblioteca
Comunitária Caranguejo Tabaiares.

Além de criar um espaço de leitura para a comunidade, a Biblioteca CCT também é responsável pela alimentação das crianças que frequentam a biblioteca na Ilha do Retiro. Garantir o direito das pessoas acessarem Livros é a missão da Caranguejo Tabaiares, mas, segundo Reginaldo em entrevista à PBL, é preciso que haja políticas públicas que possibilitem a profissionalização das pessoas envolvidas na manutenção das bibliotecas comunitárias, entre outras…

É a partir dessas três experiências e da reflexão em torno das comemorações dos 100 anos da Semana de 22 e do centenário de morte de Lima Barreto, que um fio de esperança se abre em meu peito. São muitas as iniciativas como as relatadas neste texto. Empreendimentos cuja importância nos faz crer na possibilidade de um Brasil mais diverso, um país de pessoas leitoras, escritoras e envolvidas na cadeia de produção do livro.

Espero que no ano de 2122 a realidade da periferia, dos escritores e escritoras de pele escura seja outra, bem diferente de 1922 e 2022.
Viva a Periferia Brasileira de Letras!