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    Cultura

    A Batalha da Maria Antônia, ontem e hoje (com um pouquinho de spoiler)

    Em cartaz nos cinemas, o filme dirigido por Vera Egito utiliza 21 planos-sequência para retratar o confronto entre estudantes da USP e do Mackenzie durante a ditadura militar

    POR: Vandré Fernandes

    4 min de leitura

    Todo mês de abril, lembramos do golpe militar ocorrido há 61 anos. Você já deve ter ouvido ou lido a frase “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”. Pois é, e o cinema brasileiro sempre nos presenteia com um filme que mostra aquele período, e recentemente chegou aos cinemas A Batalha da Rua Maria Antônia, de Vera Egito.

    A Batalha da Maria Antônia ocorreu em 1968 entre estudantes da Universidade de São Paulo (USP), contrários à ditadura militar, e os estudantes do Mackenzie, ligados ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Como as faculdades ficavam de frente uma para a outra, a rua Maria Antônia virou o palco daquele confronto. Estudantes se armavam com paus e pedras e, após dois dias de conflito, os alunos do Mackenzie incendiaram o prédio da USP com coquetéis molotov e dispararam um tiro que matou o estudante secundarista José Carlos Guimarães. Após o ocorrido, a polícia interveio e prendeu centenas de estudantes.

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    O filme de Egito mostra esse conflito de forma sublime, dividido em 21 planos-sequência, filmado em 16 milímetros e em preto e branco, criando uma atmosfera que remete ao período. Além disso, sua direção é segura e ousada.

     

    Quando digo ousada, é porque não é fácil contar uma história através de planos-sequência, e Egito mantém a tensão o tempo todo. Cada cena é muito bem ensaiada com os atores e figurantes, com a narrativa da câmera seguindo e ambientando o espaço. O filme nos apresenta o número de cada plano-sequência como uma forma de contar a história, com os números dos planos em ordem decrescente. Esse recurso prende o nosso interesse, aumentando a curiosidade para saber como será o desfecho.

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    As cenas de “pegação” podem causar um ruído, um certo estranhamento, porque, num conflito exacerbado, é difícil acreditar que alguma pessoa se isole para transar, mas isso não tira o mérito nem o brilho do filme. Aliás, nos tirar do lugar comum é o que faz parte de qualquer filme — ou pelo menos deveria.

    E mesmo com tanta tensão, temos um plano que, para mim, é sensacional. A câmera caminha por um andar inteiro do prédio, com estudantes parados, exaustos, ao som da música Roda Viva, de Chico Buarque, sendo tocada por sua neta, Clara Buarque, que chega a falhar em alguns acordes, para reafirmar que não havia, no país, qualquer sintonia.

    Cartaz de A Batalha da Rua Maria Antônia. Filme estreou em 27 de março de 2025 nos cinemas brasileiros. Foto: Globo Filmes/Divulgação

    Disputar a narrativa sobre o que foi o regime militar é muito importante, já que vivemos em um país dividido e no qual uma parte pede a volta da ditadura. A Batalha da Maria Antônia disputa essa narrativa: “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.”

    Filmes como o de Vera Egito são importantíssimos para resgatar a nossa memória e mostrar que a ditadura foi um retrocesso no Brasil. Até porque, hoje, parece que pode eclodir uma batalha em qualquer lugar deste país, e precisamos estar atentos e fortes! De modo que o filme está no passado, mas também nos situa no presente.

    P.S.: Para não dizer que não falei das flores: o cinema pode ajudar muito na disputa da narrativa em nossa sociedade. O que aconteceu com a vitória do Oscar com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, que trata de um tema também ambientado no período da ditadura, foi algo mágico. Blocos de carnaval da Bahia pararam, bares lotados, pessoas com as casas cheias, pessoas no rádio do carro, todo mundo esperando — e, quando o anúncio se fez, o carnaval explodiu de norte a sul como se o Brasil tivesse ganhado a Copa do Mundo! Sim, os tais “patriotas” jamais saberão o que é ser brasileiro de verdade. 

    Vandré Fernandes, cineasta. Dirigiu longas de documentários “Camponeses do Araguaia – A Guerrilha vista por dentro”; vencedor da Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul; Osvaldão; Histórias da Praia do Flamengo, 132; e do curta de ficção “O Bom Velhinho”.

    Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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