Tenho uma forte impressão — e não sou a única a dizê-lo — de que o dia 2 de abril de 2025 entrará para a história como um dos marcos do século XXI, assim como os ataques de 11 de setembro de 2001 ou o início de uma nova etapa do brutal genocídio na Palestina em 7 de outubro de 2023.
A decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor tarifas a todos os países — até mesmo a ilhas desabitadas — provoca um verdadeiro chacoalhão na ordem do comércio mundial. O tarifaço estadunidense impacta toda a lógica das relações internacionais baseada na troca de produtos e serviços entre países, estabelecida desde o pós-Segunda Guerra.
Os efeitos e as consequências da medida ainda estão sendo interpretadas, mas já há alertas sobre recessão global, inflação avassaladora e respostas coordenadas de blocos econômicos.
A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, considera que a decisão vai afetar o crescimento mundial. A União Europeia já se movimenta e demonstra preocupação com os impactos sobre o continente.
Na América Latina, o Brasil aprovou a Lei da Reciprocidade Comercial, que autoriza o governo brasileiro a adotar medidas comerciais contra países que imponham barreiras aos produtos brasileiros.
Pelo anúncio da última quarta-feira (2), o Brasil passa a ser taxado, a partir deste sábado, 5 de abril, em uma média de 10%. Mas é importante lembrar que já havíamos sido afetados por tarifas anteriores impostas por Trump — como as de 25% sobre aço, alumínio e peças de automóveis.
Assista ao episódio completo do programa Conexão Sul Global, em que Ana Prestes analisa o impacto do tarifaço de Trump no cenário internacional:
Foco na Ásia e guerra comercial
O foco do “tarifasso” é claramente a Ásia, atualmente o polo mais dinâmico da economia mundial, com crescimento, inovação, novas rotas de comércio e alternativas para os sistemas financeiro e de crédito — especialmente no âmbito dos BRICS como a busca por alternativas que dispensem o uso do dólar, no processo chamado de desdolarização.
A ofensiva é principalmente contra a China e também Índia, Japão, Coreia do Sul e Vietnã — todos dependentes das exportações de seus produtos para os EUA — e são os mais afetados. Algumas tarifas chegam a 54% para produtos chineses.
A situação é tão inédita que autoridades da China, Coreia do Sul e Japão, que raramente se reuniam, agora buscam alternativas conjuntas. Esse é um dos aspectos mais notórios do tarifasso até agora. Para além da vontade interna de Trump em dar uma resposta ao seu eleitorado, essa medida pode voltar para ele como um boomerang.
Efeitos colaterais para os próprios EUA
É como se o presidente Trump quisesse fazer a história andar para trás — retornar a uma fase do desenvolvimento do capitalismo em que a produção interna dos EUA era muito forte. Mas a globalização fragmentou esse modelo: hoje, a fabricação de um único produto pode envolver várias etapas realizadas em países diferentes. É muito difícil imaginar que Trump vá conseguir fazer com que 100% da produção volte a acontecer em solo norte-americano, com fábricas e indústrias exclusivamente nos EUA.
Essa tentativa de dar marcha ré na história pode ter efeitos perversos internamente, já que os EUA já enfrentam uma inflação um pouco acima do normal desde o final do governo Biden. Grandes indústrias multinacionais americanas — que produzem ou adquirem partes e peças em outros países — serão diretamente afetadas.
Aceleração de blocos regionais e a falência da OMC?
Outro efeito notório é a mobilização dos blocos e fóruns regionais de cooperação: Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), União Europeia, Mercosul, BRICS. Todos serão obrigados a estabelecer alternativas e criar estratégias de proteção diante dessa verdadeira guerra comercial.
Também será um momento de testar o papel da OMC (Organização Mundial do Comércio): ela continuará irrelevante ou poderá ser reativada como instrumento de resolução de controvérsias? Certamente, surgirão inúmeras disputas comerciais a partir deste tarifaço.
Particularidades e contradições
Vale destacar uma observação importante: não são exatamente 100% dos países, pois alguns já sancionados pelos EUA, como a Rússia, ficaram de fora da tarifação sob o argumento de que não há comércio com eles. Nesses casos, não haveria sentido em falar de reciprocidade. Portanto, o tarifaço abrange praticamente todos os países com os quais os EUA mantêm comércio — com algumas exceções e bizarrices, como regiões onde não há habitantes.
Outra questão interessante foi ver a Ucrânia tarifada, enquanto a Rússia, não. Também imaginei que Israel fosse poupado, mas não: recebeu uma tarifa de 17%. São muitas nuances e contradições neste tarifaço, mas no geral, trata-se de um grande abalo no comércio mundial.
Assim como a guerra na Ucrânia acelerou a busca por mecanismos alternativos de comércio, crédito e transações financeiras, esta medida de Trump pode impulsionar a criação de um novo sistema mundial, ou ao menos sistemas regionais mais fortes, como alternativas à ordem vigente até agora.
Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Todas as sextas-feiras, comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.
*Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois) em 4 de abril de 2025. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.