Promovido pela Fundação Maurício Grabois, o Ciclo de Debates para o 16º Congresso do PCdoB mobilizou a militância comunista ao longo das últimas semanas presencialmente em cinco capitais brasileiras e também virtualmente por meio das transmissões ao vivo no YouTube. As mesas aprofundaram o debate sobre “Os desafios brasileiros num mundo em transição” a serem discutidos no Congresso do partido que acontece entre 16 e 19 de outubro em Brasília (DF).
“O Ciclo indicou que os temas em debate no Congresso do PCdoB estão na mais íntima sintonia com os desafios e dilemas do país para superar a condição dependente e periférica sob direção das forças populares”, aponta Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois (FMG) e vice-presidente do PCdoB. E destaca:
“É uma bela contribuição aos debates da esquerda brasileira, a fim não apenas de vencer as próximas eleições presidenciais, como também de disputar na sociedade a correlação de forças necessária para mudar estruturas que constrangem o desenvolvimento e autonomia estratégica do país.”
Foram cinco mesas de discussão realizadas entre os dias 28 de julho e 25 de agosto em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Porto Alegre (RS) e Recife (PE), com um público presencial de mais de mil pessoas.
As transmissões online espalharam os debates pelo Brasil. A playlist do Ciclo de Debates na TV Grabois. composta por 21 vídeos, já acumula mais de 13,3 mil visualizações e 2,8 mil horas de tempo de exibição.

Luciana Santos defende frente ampla no Ciclo de Debates para o 16º Congresso do PCdoB. Foto: Pedro Caldas / PCdoB PE
Mundo em transição
Na tentativa de recuperar sua hegemonia, os EUA intensificaram a ofensiva contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, antecipando os embates eleitorais de 2026 ao apoiar explicitamente as forças de extrema direita que atuam no país, lideradas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, alvo de uma ação penal por tentativa de golpe de Estado e outros nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF).
Esse fato político atravessou os debates sobre a Crise do capitalismo e da globalização neoliberal em São Paulo (SP). Anunciada logo após o encontro do Brics no Rio de Janeiro (RJ), a taxação extra de 40% aos produtos brasileiros foi a primeira sanção dirigida especificamente ao país por Donald Trump não teve caráter econômico, mas político, com objetivo exatamente de desestabilizar a economia do Brasil, destacou Davidson Magalhães, economista e professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).
“O que está em curso é uma guerra híbrida aberta no sentido de desestabilizar o Brasil”, sentenciou.

Davidson Magalhães (esq.) e Sérgio Cruz. (dir.) Foto: Jade Beatriz
Leia o texto com os principais pontos da mesa “Crise do capitalismo e da globalização neoliberal”
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Assista a íntegra da mesa de São Paulo
Soberania nacional
O tema da soberania nacional, que já havia surgido durante as discussões da mesa anterior, ganhou corpo e foi objeto de consenso entre os debatedores da mesa Mundo em Transição.

Questão nacional frente ao imperalismo foi o tema de destaque no Ciclo de Debates no Rio de Janeiroi (RJ). Foto: Bia Aragão / PCdoB RJ
Elias Jabbour, professor do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destacou:
“O aspecto principal da contradição principal no mundo hoje é a luta entre imperialismo e projetos nacionais autônomos. Eu tenho total acordo com isso.”
Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a cientista social Ana Penido afirmou:
“Estou 100% em acordo e mais, as pessoas lutaram guerras ao redor do mundo por nações, usavam bandeiras nacionais nesses conflitos, então eu entendo que a questão nacional é sim determinante desde que ela esteja casada com a dimensão popular.”

A pesquisadora Ana Penido na mesa de debate “Mundo em Transição” no Rio de Janeiro. Fonte: Bia Aragão / PCdoB RJ
Diretor do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luis Fernandes defendeu:
“A contradição principal, eu diria, é entre imperialismo e projetos nacionais anti-imperialistas, que não se apresenta com essa linguagem no mundo, mas na essência, no conteúdo, são. Essa é a contradição principal. A segunda contradição é uma contradição de reserva, que são as tensões sobre as potências, sobretudo.”

Elias Jabbour e Luis Fernandes durante a mesa de debate “Mundo em Transição” no Rio de Janeiro. Foto: Bia Aragão / PCdoB RJ
Leia o texto com os principais pontos da mesa “Mundo em Transição”
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Centralidade da classe trabalhadora
Com o tema Mudanças estruturais para o Brasil do século XXI, a terceira mesa realizada em Salvador (BA) trouxe para o centro da discussão a classe trabalhadora brasileira. José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras (2005-2012), colocou como um dos desafios centrais para promover mudanças estruturais no Brasil de hoje o estado de fragilização e fragmentação em que se encontra a classe trabalhadora a partir de um processo de alteração estrutural com a ausência de formulações de projetos nacionais.

Terceira mesa do Ciclo de Debates, “Mudanças Estruturais para o Brasil do Século XXI” em Salvador (BA). Foto: Lorena Francine – PCdoB/BA
“O PCdoB tem razão em cobrar a ausência das reformas estruturais”, afirmou Gabrielli. “O projeto nacional desaparece, o projeto de transformação da sociedade desaparece e, portanto, nós temos que recompor isso nesse momento.”

José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás. Foto: Lorena Francine
“Falta dos partidos, da parte consciente da classe trabalhadora, fazer com que esse projeto nacional de desenvolvimento expresse e reflita, coloque em primeiro lugar os anseios dessa classe trabalhadora brasileira”, destacou o economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Diogo Santos.
Leia o texto com os principais pontos da mesa “Mudanças Estruturais Para o Brasil do Século XXI”
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Assista a íntegra da mesa da Bahia
Eleições 2026
Um tema que perpassou todas as discussões, o cenário eleitoral para 2026 ganhou centralidade nas últimas duas mesas do Ciclo de Debates. O enfrentamento com as forças de extrema direita no país, aliadas ao governo de Donald Trump, mobilizou a fala de Nádia Campeão (PCdoB) sobre a importância de resgatar o papel dos partidos políticos do campo popular e democrático, com ação destacada do PCdoB.
“Não temos como imaginar esse processo sem a atuação fundamental dos partidos políticos, presentes também através dos militantes em extensa rede de entidades e movimentos sociais. Não é possível pensar num processo de enfrentamento que deixe de lado ou minimize o papel dos partidos”, destacou.

Nádia Campeão (PCdoB). Foto: Tiago Morbach e Liz Filardi
O Projeto de Resolução Política do 16º Congresso do PCdoB traz um conjunto de exigências para que o partido possa “cumprir um papel destacado nessa jornada ao lado de outros partidos do campo popular, da esquerda e do campo progressista”, aponta Nádia Campeão.
Leia os principais pontos do debate Parido Comunista e a luta socialista no século XXI
Assista ao resumo da mesa:
Assista a íntegra da mesa do Rio Grande do Sul
O PCdoB propõe uma frente ampla, nucleada pela esquerda e impulsionada pela mobilização popular para derrotar a extrema-direita bolsonarista e vencer as eleições de 2026, com a candidatura de Lula. Essa proposta foi corroborada por lideranças da esquerda e expressão nacional na mesa que encerrou o Ciclo de Debates em Recife (PE) com o tema “Conjuntura desafiadora às forças progressistas e democráticas”.
Para a formação dessa frente ampla, a presidenta do PCdoB e ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos destaca a necessidade de grandes alianças para além do espaço político:
“Segmentos até mesmo da agropecuária industrial, milhões de micro, pequenos e médios empresários que não têm por que se afastar do nosso campo. Nós que somos os porta-vozes da prosperidade. Na concepção do nosso programa, a batalha por reformas de rupturas é parte constituinte do nosso projeto nacional de desenvolvimento para fortalecer a nação e lutar pelo socialismo.”
A composição da mesa sinalizou a ampliação do diálogo com outras forças de esquerda. Além da ministra da Ciência e Tecnologia, participaram a vereadora de Recife Cida Pedrosa (PCdoB), o deputado federal e líder do PSB na Câmara, Pedro Campos e o ex-ministro da Casa Civil e fundador do PT, José Dirceu, que datacou:
“Desde o início da luta pelas Diretas, depois pela Constituinte e a primeira campanha presidencial do presidente Lula já se consolidou entre o PT e o PCdoB uma aliança estratégica, que diz respeito ao Brasil. Diz respeito ao socialismo, não diz respeito só a disputas eleitorais, ainda que elas sejam importantes e decisivas como o tempo mostrou.”

José Dirceu (PT), ex-ministro da Casa Civil Foto: Pedro Caldas / PCdoB PE
Leia os principais pontos do debate “Conjuntura desafiadora às forças progressistas e democráticas”
Assista a íntegra da mesa de Pernambuco
As ideias e consensos que emergiram ao longo do Ciclo de Debates agora se projetam para o 16º Congresso do PCdoB, em outubro, quando a militância comunista se reunirá para definir caminhos e estratégias diante dos grandes desafios nacionais.