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    Democracia

    Meados da década expõem retrocessos sociais, democráticos e geopolíticos

    Avanço do neomercantilismo e a fragilidade institucional mostram como a política global indica um futuro de incertezas e riscos crescentes

    POR: Luís Eduardo Duque Dutra

    4 min de leitura

    Donald Trump desembarca de aeronave militar e é recebido por oficiais em base aérea nos Estados Unidos. Foto: Molly Riley/Casa Branca
    Donald Trump desembarca de aeronave militar e é recebido por oficiais em base aérea nos Estados Unidos. Foto: Molly Riley/Casa Branca

    Meados da década: um cenário sem melhora – Em 2025, a segunda metade da década não se desenha muito melhor que a primeira, que não foi nada boa, com a pandemia a marcar seu início. Aliás, o novo milênio e o século XXI também não cumpriram suas promessas quanto ao combate à fome, à mitigação dos danos ambientais e do aquecimento planetário. Hoje, em especial, as relações internacionais estão no limiar do caos.

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    Seis meses depois da posse, a reeleição de Trump traduz o desafio de chegarmos ao final da década sem maiores conflitos militares e crises disruptivas. Nos próximos cinco anos, é enorme o perigo de retrocesso social e desmonte institucional. De fato, ele já está em curso na União Europeia, que viu a defecção do Reino Unido, e na América do Norte, com as tarifas impostas aos vizinhos pelo presidente dos EUA.

    Reforçada e radicalizada neste segundo mandato, a conotação é “neomercantilista”. O comércio é uma guerra, com alguns poucos vitoriosos e os demais perdedores. Além disso, os negócios são concedidos aos mais próximos, na forma de monopólios, para garantir lucros extraordinários e financiamento da despesa da corte. O protecionismo exacerbado e a busca pela autossuficiência completam o magro arcabouço econômico.

    A aliança entre os déspotas e o capital foi o que sustentou a centralização do poder de polícia, o fim dos senhores feudais e a submissão definitiva do poder local, a partir do século XVI. Apoiados em relações coloniais espoliativas e na superioridade militar europeia, os impérios mercantilistas levaram o capitalismo, como modo de produção, aos confins do mundo e ao século XVIII – um dos mais sangrento da História, depois do século XX.

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    A simplória visão das trocas, na qual o ganho de um explica a perda do outro, vem acompanhada de argumentos políticos essencialmente xenófobos, quando não racistas. No pêndulo da política, observa-se a ascensão do moralismo integralista dos tempos de Getúlio Vargas e Plínio Salgado, ou ainda o ressurgimento do ultraconservadorismo, nos moldes do macartismo e da igreja neopentecostal norte-americana. Isso tudo em pleno século XXI.

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    Mais grave, trata-se de uma articulação que ganha espaço e contamina a democracia liberal. A fragilidade institucional se revela, mesmo em países com tradição republicana ou parlamentarista, quando ela não é resultado da sistemática desconstrução das políticas públicas. O impacto imediato é o retrocesso da pauta progressista em defesa da diversidade de gênero, dos direitos humanos e do meio ambiente.

    Os ataques à academia, à justiça e à imigração sintetizam a ruptura pretendida e sua dicotomia. Por um lado, a proposta é radical, libertária e anti-Estado. Por outro, defende as armas, a polícia dos costumes e muros nas fronteiras. A crescente incerteza geopolítica e a multiplicação dos riscos mais diversos, somada às expectativas de aumento das tarifas, da inflação e dos juros, indica que o entrelaçamento da política e da economia não farão os próximos cinco anos melhores que os últimos.

    Luís Eduardo Duque Dutra é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Paris-Nord e professor-adjunto da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro.