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    América Latina

    Projeto nacional ou barbárie: sequestro de Maduro acende alerta sobre soberania no Brasil

    Elias Jabbour explica porque o ataque contra a Venezuela é um ataque indireto ao Brasil, a partir do interesse no controle de recursos naturais: petróleo e terras raras

    POR: Elias Jabbour

    8 min de leitura

    Ato na Cinelândia contra a invasão dos Estados Unidos na Venezuela.  Rio de Janeiro (RJ), 05/01/2026 - Foto: Gilberto Costa/Agência Brasil
    Ato na Cinelândia contra a invasão dos Estados Unidos na Venezuela. Rio de Janeiro (RJ), 05/01/2026 - Foto: Gilberto Costa/Agência Brasil

    O recente ataque dos Estados Unidos contra instalações militares em Caracas e a subsequente invasão do território venezuelano representam uma grave quebra da soberania não apenas da Venezuela, mas de toda a América Latina. O sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua transferência para um país estrangeiro sob pretextos de narcotráfico configuram o que pode ser chamado de “governança da barbárie” sobre a região. Diante desse cenário, é fundamental prestar solidariedade incondicional ao governo revolucionário venezuelano, compreendendo que a defesa da Venezuela hoje é a defesa do Brasil amanhã.

    A Venezuela é um país soberano, que desde 1998 busca um caminho próprio de socialismo, o que tem provocado uma ira gigantesca contra o seu governo que se manifesta, desde 2014, através de sanções, bloqueios econômicos e a exclusão do sistema internacional de pagamentos (Swift).

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    O ataque contra a Venezuela é um ataque indireto ao Brasil. O interesse central nessas intervenções é o controle de recursos naturais: o petróleo na Venezuela e as terras raras e minerais críticos no Brasil. O antigo secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger (1923-2023) falava sobre a necessidade de impedir o surgimento de um novo Japão no hemisfério Sul e, evidentemente, esse país é o Brasil.

    Manifestante Ali Alvarez, de 31 anos, há oito anos no Brasil, mostra constituição da Venezuela durante ato na Cinelândia contra a invasão dos Estados Unidos na Venezuela. Rio de Janeiro (RJ), 05/01/2026 – Foto: Gilberto Costa/Agência Brasil

    O ataque contra a Venezuela é um ataque contra contra a vontade de qualquer país se organizar sobre um projeto nacional de desenvolvimento que coloque em questão sua dependência econômica em relação ao Norte Global.

    Nós devemos pensar estrategicamente nesse momento, sobre como vamos enfrentar esse tipo de ameaça hoje e amanhã, porque muita coisa está em jogo e se faz necessário elevar o nível da discussão política a outro patamar no Brasil. O nosso grande problema é o rebaixamento da discussão política, que não alcança a centralidade da questão nacional. Esse ataque à Venezuela deve servir para aumentar e reavivar o nosso sentimento de solidariedade internacional e para que nós tenhamos oportunidade de elevar o nível de discussão política no país.

    América Latina sob barbárie

    A coletiva de imprensa em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que passará a administrar a Venezuela após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, revela o início de um processo de governança da barbárie sobre a América Latina. Na última edição do programa Meia Noite em Pequim, no final do ano passado, eu alertei que a nossa militância deveria se pautar pelo lançamento da nova doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, que retoma os princípios da Doutrina Monroe, onde a América Latina é considerada parte do território norte-americano, sua área de influência.

    Asssita a análise de Elias Jabbour no programa Meia Noite em Pequim:

    A partir da invasão da Venezuela e do sequestro de Nicolás Maduro, as opções para o Brasil vão ficando cada vez menores. A realidade mudou completamente em relação à semana anterior, o mundo é completamente diferente com o salvo-conduto dos americanos para invadirem qualquer país da América Latina e sobram poucas opções para o Brasil, menos do que havia há uma semana atrás.

    Temos que rever nossa política de segurança, não apenas diante do problema interno da desindustrialização, mas da necessidade premente diante da ameaça externa. Temos que ganhar corações e mentes com a prática de um projeto nacional de desenvolvimento e a formação de outra maioria política, porque a pauta da soberania nacional será fundamental nas próximas eleições, diante de uma extrema-direita que comemora a invasão da Venezuela.

    Ato em frente ao Consulado dos Estados Unidos contra a invasão na Venezuela. São Paulo (SP), 05/01/2026 – Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

    Todos os governadores da extrema direita, Ronaldo Caiado (União Brasil – GO), Ratinho Júnior (PSD-PR), Zema, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), demonstraram apreço pelo que aconteceu na aconteceu na Venezuela. Estão falando não somente contra a Carta da ONU, mas contra a Constituição Brasileira.

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    O deputado federal Nicolas Ferreira (PL-MG) chegou a sugerir em vídeo que acontecesse o mesmo com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Em outro momento, ele apoiou abertamente uma intervenção estrangeira no Brasil. Isso é fundamental para as próximas eleições, que vai colocar uma risca de giz no chão para demonstrar quem é quem nessa conversa.

    O que sobra para nós nesse momento são duas escolhas muito claras: a volta da extrema-direita ao poder como fantoche para entregar as riquezas naturais do Brasil para os Estados Unidos e, por outro lado, o nosso campo político que deve ser organizar em torno de um projeto nacional de desenvolvimento.

    Se a extrema direita ganhar as eleições, eles vão absorver completamente o corolário Trump para o Brasil. Eles vão entregar o que os Estados Unidos quiserem, a troco de proteção ante uma possível volta da esquerda ao governo do Brasil. E o Brasil tem tudo que os americanos precisam: petróleo, água e terras raras, os chamados minerais minerais críticos.

    Nota Técnica: Terras raras e minerais críticos na estratégia de desenvolvimento do Brasil

    Para a esquerda e o campo democrático, está colocada a necessidade de pensarmos urgentemente em termos de uma política de segurança nacional que capacite o Brasil a se defender dessa barbárie que acomete a América Latina, junto a um processo de reindustrialização baseado em um grande projeto nacional.

    Existe uma única contradição principal que nos acomete hoje: projeto nacional ou barbárie. É isso que nos espera, caso não tenhamos capacidade de apreender o fluxo dos acontecimentos. Esse ano de 2026 deve ser marcado pela insígnia, projeto nacional ou barbárie, porque eles querem colocar o Brasil na rota da barbárie, que os EUA estão tentando fazer com a Venezuela e ainda não estão conseguindo.

    A questão fundamental do momento é que o ciclo básico do regime change ainda não logrou sucesso na Venezuela. O ciclo de desestabilização, guerra híbrida, criação de condições para as pessoas irem para a rua e derrubar o governo, colocar o partido governante na ilegalidade e prender todo todo o primeiro segundo escalão do governo, não aconteceu na Venezuela ainda.

    O PSUV continua no poder, a oposição não tem força acumulada para colocar povo na rua suficiente para derrubar o governo e uma invasão por terra é improvável. O mundo é muito diferente de uma semana atrás, mas também é muito diferente de 50 anos atrás, quando os EUA exerciam uma unipolaridade. Eles não têm mais a mesma força de antes para poder chegar em um país e fazer o que bem entendem, principalmente países com os sistemas políticos em consolidação e com certo apoio popular, como o caso da Venezuela.

    Desde 2014 a Venezuela passa por sanções, bloqueios, mas nem isso é capaz de derrubar a tentativa de construção do socialismo no país. A população venezuelana tem passado por imensas privações com o empobrecinento do país nos últimos 10 anos, mas nada disso foi capaz de derrubar a revolução bolivariana. A Venezuela foi expulsa do sistema internacional, não tem acesso aos seus dólares colocados em fundo soberano, seu ouro na Inglaterra foi literalmente roubado recursos que o país utilizava para importar remédios e alimentos. O país foi colocado em uma imensa crise cambial e nem por isso o governo caiu. O fato é que o ciclo do regime change não foi completo e ainda vai ter muita luta política dentro da Venezuela.

    Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG