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    Ciência e Tecnologia

    A câmara escura digital: Marx, Lênin e a consciência algoritmicamente modulada

    O algoritmo é a câmara escura do século XXI. Com uma diferença fundamental: não inverte a realidade para todos da mesma maneira

    POR: Percival Henriques de Souza

    9 min de leitura

    Uma pesquisa Datafolha divulgada em dezembro de 2025 revelou um dado que, à primeira vista, parece absurdo: 34% dos brasileiros que se declaram petistas afirmam ser de direita ou centro-direita. Na direção oposta, 14% dos bolsonaristas se identificam como de esquerda ou centro-esquerda.

    Os cientistas políticos consultados pela imprensa ofereceram explicações razoáveis: confusão conceitual, carisma pessoal das lideranças, polarização afetiva. Explicações corretas, porém insuficientes. Há algo mais profundo operando aqui. Algo que Marx intuiu em 1845 e que hoje se materializa em servidores de dados espalhados pelo planeta.

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    A inversão que não se percebe

    Na Ideologia Alemã, Marx e Engels propuseram uma metáfora que permanece assombrosamente atual: a câmara escura. Assim como o dispositivo óptico inverte a imagem do mundo real, a ideologia inverte a consciência sem que o sujeito perceba a inversão. O homem vê o mundo de cabeça para baixo e jura que está vendo direito.

    O algoritmo é a câmara escura do século XXI. Com uma diferença fundamental: não inverte a realidade para todos da mesma maneira. Cada usuário recebe sua inversão personalizada, sua realidade sob medida, seu mundo particular apresentado como se fosse o mundo. O esquerdista conservador de Campina Grande e a bolsonarista progressista de Porto Alegre habitam planetas informacionais distintos. Dois cidadãos, uma plataforma, duas pátrias incomunicáveis.

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    Dirão alguns que isso sempre existiu, que os jornais sempre tiveram viés, que as bolhas não são invenção do Vale do Silício. É verdade, mas apenas parcialmente. A diferença está na escala, na velocidade e, sobretudo, na invisibilidade do mecanismo. A Folha de S. Paulo ou O Globo eram vieses identificáveis. O algoritmo do Facebook é um viés que se apresenta como neutralidade técnica. Quem acusa um jornal de parcialidade reconhece que existe um filtro entre si e a realidade. Quem navega pelo feed acredita estar vendo a própria realidade.

    O fetichismo de segundo grau

    Marx demonstrou no primeiro volume de O Capital como a mercadoria opera um truque de ilusionismo social: relações entre pessoas aparecem como propriedades naturais de coisas. O trabalhador não vê exploração, vê preço justo. Não percebe relação social, percebe atributo objetivo. É o fetichismo da mercadoria.

    O algoritmo produz um fetichismo mais sofisticado. Não apenas relações sociais aparecem como propriedades de coisas, mas como propriedades naturais da informação. O usuário não vê mediação, vê verdade. Não percebe curadoria, percebe realidade. O feed se apresenta como janela transparente para o mundo quando é, na verdade, um espelho construído para refletir de volta aquilo que o usuário já deseja ver.

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    A neutralidade do algoritmo é o fetichismo contemporâneo por excelência. Por trás da interface limpa e da experiência fluida, opera uma máquina de produzir consenso. Consenso não imposto, mas sugerido. Não ordenado, mas modulado. Gramsci chamaria isso de hegemonia. Talvez devêssemos chamar de hegemonia automatizada.

    Lênin e a consciência que nunca chega

    Em Que Fazer?, Lênin distinguiu entre consciência espontânea e consciência de classe. A primeira é imediata, emocional, reativa. A segunda é estrutural, analítica, programática. O problema, observou Lênin, é que a classe trabalhadora não transita naturalmente de uma para outra. A consciência de classe precisa ser construída, organizada, trabalhada.

    O algoritmo é uma máquina de produzir consciência espontânea perpétua. Cada estímulo do feed apela à reação imediata. Cada notificação interrompe a reflexão. Cada scroll infinito impede a pausa necessária para que o espontâneo se transforme em consciente. O usuário permanece eternamente no registro da indignação, da emoção, do afeto. Nunca ascende ao registro da análise.

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    Isso explica, ao menos em parte, o paradoxo revelado pelo Datafolha. O esquerdista conservador não é um caso de confusão conceitual. É um caso de consciência algoritmicamente fragmentada. Ele mantém o afeto pelo PT, pela memória de Lula, pela identidade construída ao longo de décadas. Mas suas posições concretas sobre costumes, segurança, economia, foram moduladas por um ecossistema informacional que lhe apresentou, dia após dia, ano após ano, uma certa visão de mundo como se fosse a única visão possível.

    Não houve doutrinação. Não houve propaganda explícita. Houve modulação ambiental. O algoritmo não ordena comportamentos. Cria contextos que tornam determinados comportamentos mais prováveis. Não proíbe escolhas. Estrutura menus de opções. É um poder que não aparece como poder. E justamente por isso é tão eficaz.

    A dialética invertida

    Há uma ironia amarga no fenômeno que estamos descrevendo. O materialismo dialético ensinou que a consciência é determinada pelas condições materiais de existência. A infraestrutura econômica molda a superestrutura ideológica. Pois bem: o algoritmo é infraestrutura. Código é capital fixo. Servidores são meios de produção.

    Mas a dialética está invertida. Em vez de a posição de classe determinar a consciência, é a consciência fragmentada que impede a percepção da posição de classe. O trabalhador precarizado que apoia políticas contra seus próprios interesses não está “votando errado”. Está operando com uma representação de mundo que foi algoritmicamente construída para impedir que ele perceba a conexão entre sua situação concreta e as escolhas políticas disponíveis.

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    Marx perguntaria: quem controla os meios de produção da consciência? A resposta, hoje, envolve um punhado de corporações sediadas na Califórnia. Elas não determinam o que você pensa. Determinam sobre o que você pode pensar. Não escolhem suas conclusões. Escolhem suas premissas. É um poder constituinte que opera sem constituição, um soberano que reina sem coroa.

    O que fazer?

    A pergunta de Lênin permanece atual, embora as condições de sua resposta tenham se transformado radicalmente.
    A esquerda brasileira precisa compreender que o território da disputa política foi alterado em sua estrutura mais fundamental. Não basta ter razão programática. Não basta ter análise correta. Não basta ter o melhor candidato. Se o ecossistema informacional modula a percepção de realidade antes mesmo que o argumento político chegue ao eleitor, a batalha está perdida antes de começar.

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    Isso não significa abandonar a disputa eleitoral ou a organização tradicional. Significa reconhecer que existe uma camada anterior, uma condição de possibilidade que precisa ser enfrentada. Antes de disputar o conteúdo da consciência política, é preciso disputar as condições de formação dessa consciência.

    Concretamente, isso passa por três frentes. A primeira é regulatória: o poder algorítmico precisa ser submetido ao escrutínio democrático. Transparência qualificada, auditorias independentes, direito de explicação, soberania sobre os próprios dados. O Brasil tem tradição de inovação nesse campo. O Marco Civil da Internet foi pioneiro. A Lei Geral da Proteção de Dados (LGPD) avançou, ainda que timidamente. É preciso ir além.

    A segunda frente é educacional. Alfabetização algorítmica deveria ser tão fundamental quanto alfabetização linguística. Não se trata de ensinar programação, mas de desenvolver a capacidade de reconhecer quando se está sendo modulado. Metacognição digital. Consciência da própria câmara escura.

    A terceira frente é propriamente política. A esquerda precisa desenvolver infraestrutura informacional própria. Não para criar bolhas progressistas simétricas às bolhas conservadoras, mas para construir espaços onde o debate público possa ocorrer fora da lógica do engajamento monetizado. Plataformas cooperativas, mídias comunitárias, redes descentralizadas. Não é utopia tecnológica. É condição material da democracia possível.

    Epílogo com Marx

    Volto a Marx, como sempre se deve voltar quando o chão parece fugir debaixo dos pés. Na décima primeira tese sobre Feuerbach, ele escreveu que os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo. Pois bem: o algoritmo também interpreta o mundo. Mas não se contenta em interpretar. Transforma. Modula. Constitui.

    A questão, portanto, não é mais apenas interpretar corretamente a realidade. É disputar as condições de produção da realidade que será interpretada. O poder algorítmico produz o que podemos chamar de “sujeitos da predição”, pessoas cujos desejos, comportamentos e escolhas futuras são antecipados por sistemas que conhecem seus padrões melhor do que elas mesmas.

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    A emancipação, nesse contexto, passa por reconquistar a capacidade de ser imprevisível. De escapar à predição. De constituir-se como sujeito que não pode ser antecipado porque se constitui no ato mesmo de recusar a antecipação.
    O petista conservador e o bolsonarista progressista são, cada qual a seu modo, sintomas de uma época em que a consciência foi sequestrada por máquinas que ninguém elegeu. Libertá-la é a tarefa da nossa geração. E, como toda tarefa verdadeiramente histórica, ela começa pelo reconhecimento de sua necessidade.
    O Datafolha, sem querer, fez o diagnóstico. Cabe a nós fazermos a terapia.

    Percival Henriques de Souza é jurista, conselheiro do CGI.br, presidente da ANID, membro do Comitê Nacional de Cibersegurança e autor de “Direito à Realidade: Por um Constitucionalismo Digital para o Brasil” (2025).

    * Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Portal Grabois

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