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    América Latina

    Ataque dos EUA contra Venezuela exige resposta organizada por soberania da América Latina

    As relações diplomáticas tradicionais foram rompidas, exigindo a construção de uma nova resistência contra o imperialismo na região

    POR: Ana Prestes

    6 min de leitura

    Manifestantes exibem bandeira da Venezuela em frente ao Palácio do Planalto durante cerimônia para celebrar vitória da democracia após tentativa de golpe do 8 de janeiro. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
    Manifestantes exibem bandeira da Venezuela em frente ao Palácio do Planalto durante cerimônia para celebrar vitória da democracia após tentativa de golpe do 8 de janeiro. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

    Iniciamos 2026 com uma semana difícil que começou na madrugada de 3 de janeiro em Caracas, na Venezuela, com o bombardeio e o sequestro do casal presidencial, Nicolás Maduro e a deputada Cilia Flores, pelos Estados Unidos. Este foi um ato de guerra inédito e absolutamente chocante: uma operação militar agressiva contra o presidente eleito da Venezuela e sua esposa, que tomaria posse na Assembleia Nacional no dia 5 de janeiro.

    Com o sequestro, a vice-presidente Delcy Rodríguez prestou juramento no dia 5 de janeiro como presidenta encarregada, embora já estivesse exercendo o cargo de fato desde o dia 3. De certa forma, quem acompanha essa coluna já esperava alguma ação bélica por parte da dupla Trump e Marco Rubio — que assumiu a Secretaria do Departamento de Estado no ano passado —, mas o grau de ineditismo e rapidez da operação foi surpreendente.

    Embora inicialmente parecesse algo cirúrgico, surgiram evidências de infraestruturas e residências civis destruídas, com mais de 100 mortos entre venezuelanos e cubanos. A operação envolveu um ataque cibernético que silenciou radares e causou cortes de energia, deixando Caracas às escuras. Mais de 150 aeronaves foram mobilizadas pelas Forças Armadas dos EUA. O casal presidencial foi arrancado da cama no Forte Tiuna e levado para os Estados Unidos via embarcação e, posteriormente, por via aérea a partir de Guantânamo, chegando a um tribunal em Nova York.

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    Donald Trump publicou em sua rede social uma imagem que afirma mostrar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, detido a bordo do navio de guerra norte-americano USS Iwo Jima. Se confirmada, a cena representa um grave episódio de sequestro de um chefe de Estado soberano, configurando uma escalada sem precedentes do intervencionismo e da violação do direito internacional por parte dos Estados Unidos. Crédito: imagem divulgada por Donald Trump em rede social.

    Donald Trump publicou em sua rede social Truth Social uma imagem em que afirma mostrar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, detido a bordo do navio de guerra norte-americano USS Iwo Jima. Na foto, o homem aparece com óculos escuros, protetores auriculares e vestimenta semelhante à de contenção, em um ambiente fechado, o que reforça a narrativa de sequestro e prisão divulgada pelo ex-presidente dos EUA.
    Crédito: imagem divulgada por Donald Trumpna rede Truth Social

    Maduro e Cilia foram apresentados a um juiz de 92 anos para ouvir acusações sob uma situação de prisão absolutamente ilegal, que viola o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. O presidente Maduro manteve uma postura altiva, reafirmando ser o presidente constitucional da Venezuela e prisioneiro de guerra dos Estados Unidos.

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    Este evento coroa um ano de 2025 marcado pelo cercamento da Venezuela e da América do Sul, com ataques a adversários políticos de Trump, como Gustavo Petro (Colômbia), Lula (Brasil) e Cláudia Sheinbaum (México), enquanto se estabeleciam parcerias com governos alinhados, como os de Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai), Daniel Noboa (Equador) e Nabil Bukele (El Salvador).

    Essa tem sido ação ao longo de todo o ano 2025, o cercamento nclusive militar  da América do Sul e também do Mar do Caribe com ataques e embarcações, tudo isso foi coroado com este sequestro do casal presidencial venezuelano.

    Iinstala-se um aprofundamento de uma ordem que já vinha se desenhando com o anúncio da nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos em dezembro do ano de 2025. Mas obviamente as condições agora estão mais contundentes no sentido da chantagem que  a dupla Trump e Marco Rubio passam a fazer aos países da América Latina, com ameaça de prisão do Petro e ameaça de sequestro e prisão de outros dirigentes do governo venezuelano.

    Tudo que a gente compreendia em termos de relações diplomáticas estabelecidas na América Latina de uma forma geral com os Estados Unidos, cai por terra e vai ser necessário construir um novo entendimento e uma resistência a essa fase avançada da ação imperialista na nossa região em um momento em que as forças progressistas e de esquerda estão fragilizadas.

    Vai ser necessário coordenar de uma forma muito diferente a relação que vai se estabelecer com os Estados Unidos a partir de agora, no que tem sido chamado de doutrina Donroe, uma mistura de Donald Trump com a Doutrina Monroe.

    Tudo aquilo que a gente tem falado do imperialismo ao longo do tempo, agora se materializa de uma forma brutal aos nossos olhos, exigindo uma resposta organizada muito maior dos movimentos sociais, dos partidos, dos intelectuais orgânicos, de todos aqueles que defendem a soberania e a integração da América Latina.

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    O ano de 2026 será desafiador, com eleições na Colômbia em março e no Brasil em outubro, que sofrerão alto grau de ingerência externa. Enfrentamos uma potência imperialista que, embora em relativa decadência, torna-se mais agressiva e arrogante sob o comando de Trump e Marco Rubio.

    O que vem pela frente é um período muito desafiador para se compreender e também para se combater todo o mal que vem dessa dupla que representa o que há de pior no comando dos EUA, com a arrogância de se achar dona das Américas. Não serão tempos fáceis e nós vamos estar aqui para tentar entender, para analisar e trazer informações a partir de fontes e perspectivas que você não vai encontrar por aí na imprensa comercial, corporativa e burguesa.

    Assista a íntegra do Conexão Sul Global sobre o ataque à Venezuela

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 08/01/2025. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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