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    América Latina

    O confisco do petróleo venezuelano e o exercício do mercantilismo trumpista

    Acesso às maiores reservas do mundo altera por completo a geopolítica energética e reposiciona o país no mercado internacional do petróleo

    POR: Luís Eduardo Duque Dutra

    3 min de leitura

    A captura do Presidente Maduro no dia 3 de janeiro pelas forças dos Estados Unidos e as declarações posteriores sobre o petróleo venezuelano não deixam dúvida quanto à natureza do mercantilismo trumpista. Além de autorizar o sequestro, sem nenhuma cerimônia, o Presidente estadunidense falou em até cinquenta milhões de barris de petróleo como valor do butin.

    Brevemente, ao preço do petróleo do tipo “Brent” em torno de US$ 60 por barril e considerando um desconto de US$ 10 por barril (em razão do menor grau API – escala do American Petroleum Institute utilizada para expressar a densidade relativa de óleos crus e seus derivados: quanto menor o valor do grau API, maior é a densidade do produto – em comparação com a água e elevado teor de enxofre e de gases de efeito estufa), tem-se que a venda de 50 milhões de barris venezuelanos podem gerar US$ 2,5 bilhões (US$ 50 x 50 milhões de barris).

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    Em um ano, isso significa a produção em torno de 137 mil barris por dia, ou um quarto da produção atual do país aproximadamente. Algo assim é mais que um confisco, seria uma espoliação pura e simples. A despeito do absoluto desprezo ao direito internacional que demonstra, o pretendido por Trump terá de passar por condições contratuais mais razoáveis em termos de tempo e acesso a esses barris.

    Evidentemente, o quanto mais rápido melhor. Se o volume de petróleo anterior for vendido ao longo dos próximos dez anos, considerando os preços atuais, descontando juros, inflação e risco (somados) à altura de 10% ao ano, o valor atualizado cai para US$ 1,5 bilhão, menos um bilhão de dólares do que anteriormente.

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    Além disso, um incremento adicional de pouco mais de cem mil barris por dia, em razão do presente sucateamento dos ativos locais, demandará perto de dez bilhões de dólares e, pelo menos, cinco anos de desenvolvimento.
    A proximidade das reservas, a disponibilidade de um parque de refino adequado ao processamento daquele petróleo e empresas em busca de oportunidades na América do Sul se somam e justificam a cobiça. Ao maior consumidor, o acesso às maiores reservas do mundo altera por completo a geopolítica energética e reposiciona o país no mercado internacional do petróleo.

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    De imediato, a volatilidade dos preços aumentará e tende a se acentuar nos próximos dias, caso a Arábia Saudita e aliados não atuem para estabilizá-los. A médio termo, os maiores riscos geopolíticos apontam para a crescente incerteza e, portanto, maior imprevisibilidade desses preços; o que dificulta ainda mais a transição energética em curso.

    Por fim, as importações da Venezuela respondem por menos de 5% das despesas externas da China com gás natural e petróleo, embora seja seu principal comprador. Portanto, a nova situação afeta imensamente a Venezuela e muito pouco a China. Mas tem sua carga simbólica dentro do mercantilismo trumpista: afasta os comunistas do país.

    Luís Eduardo Duque Dutra é professor da Escola de Química da UFRJ, Doutor em Economia, Mestre em Planejamento Energético e autor de Capital Petróleo: A saga da indústria entre guerras, crises e ciclo (Garamond, 2019).

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