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    China

    A ligação profunda do Partido Comunista da China com o povo

    O PC Chinês é uma força absolutamente viva, atuante junto ao povo em diversas esferas, com um gigantesco trabalho de base que lhe permite exercer uma hegemonia profunda na condução do socialismo

    POR: Altair Freitas

    9 min de leitura

    Cerimônia de hasteamento da bandeira na Praça Tian'anmen marca o 76º aniversário da fundação da República Popular da China. Foto: Ju Huanzong / Xinhua
    Cerimônia de hasteamento da bandeira na Praça Tian'anmen marca o 76º aniversário da fundação da República Popular da China. Foto: Ju Huanzong / Xinhua

    Da viagem realizada à China no início de novembro passado, conforme relatado aqui em artigo anterior, trouxe na memória e nas anotações um conjunto intenso de observações. Dentre elas, uma em especial me deixou, digamos, muito tocado e verdadeiramente impressionado: a ligação Partido-Povo.

    O PC Chinês é uma força absolutamente viva, atuante junto ao povo em diversas esferas, com um gigantesco trabalho de base que lhe permite exercer uma hegemonia profunda na condução do socialismo com características chinesas, liderando politicamente uma frente revolucionária com outros 8 partidos que atuam naquela grande nação.

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    No Ocidente, sob a égide ideológica das forças do capital, que se pelam de medo de perder o poder econômico, político e social, a política na China é martelada todos os dias como uma “ditadura de partido único”. Xi Ji Ping, líder inconteste do PCCh e do Estado Nacional Chinês, é sempre apresentado pela nossa mídia e forças políticas e ideológicas à serviço do capital financeiro monopolista, como um “ditador”, “tirano”.

    O que aliás, é o mote para qualquer país ou governo que não esteja afinado com o imperialismo reinante no Ocidente. É de uma pobreza intelectual profunda, mas, funciona, afinal de contas, já que, submetidos cotidianamente a essa brutal máquina de cooptação ideológica, é assim que muita gente, inclusive entre a massa proletária, enxerga a China e suas lideranças. Ao menos por enquanto, já que começa uma importante mudança na percepção popular sobre o papel da grande nação socialista para o mundo hoje. Voltemos ao tema.

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    Pude visitar sedes do PCCh em bairros. Tive contato com lideranças daquele partido em diversos comitês de empresas, especialmente nas empresas privadas e em comunidades rurais, que estão em processo de revitalização, após a grande expansão da industrialização e urbanização dos últimos 40 anos. Em cada um desses lugares, a ligação PCCh-Povo é realmente impressionante, e, porque não dizer, emocionante!

    Fachada da sede de um comitê distrital do PCCh na cidade de Hefei, capital da província de Anhuy. Foto: Altair Freitas

    Antes disso, vamos a alguns números. O PCCh tem cerca de 100 milhões de membros, pouco mais de 7% da população. Podia ser muito maior, já que existe uma grande demanda para filiação ao partido. Filiar-se a ele é difícil, pois existem critérios rígidos de observação dos pretendentes, que passam por várias etapas que podem durar anos. Entre a formalização do pedido de filiação, feito através de uma carta de intenções e a aceitação pelo partido, dependendo da situação, é quase uma “Longa Marcha”, passando por uma pré aceitação e um período probatório de um ano após a efetivação da filiação.

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    Considerando que se trata de um partido que comanda um processo revolucionário há pouco mais de 70 anos, que desenvolveu nesse tempo o controle sobre o aparato estatal, essa seletividade é digna de nota. O ponto de partida é uma visão filosófica exercida na prática: o papel do partido, dos (as) comunistas chineses é “Servir ao Povo”.

    “Servir Ao Povo” – lema inscrito por Mao Zedong nessa pedra, que se encontra na Escola Central do PCCh em Pequim. Mao foi o criador da Escola em 1933 e foi seu reitor por muitos anos. Foto: Altair Freitas

    O lema foi exposto pelo presidente Mao Zedong no célebre artigo homônimo escrito em 1944, no qual ele apresenta, entre muitas outras ideias, esta, monumental: “Servimos o povo e por isso não tememos que nos apontem e critiquem os defeitos que tenhamos. Seja quem for, pode apontar-nos. Se tiver razão, os corrigiremos. Se o que propõe beneficia o povo, atuaremos de acordo com ele”.

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    Militantes e dirigentes do Estado nos seus diversos níveis (nos cantões, distritos das cidades, províncias em âmbito nacional, nas empresas estatais e privadas), são, acima de tudo, trabalhadores (as) a serviço do progresso nacional, do desenvolvimento econômico, da construção do socialismo.

    São educadores (as) populares, não pelo discurso tão somente, pela emulação ideológica, que, claro, faz parte do processo, mas, acima de tudo, pelo exemplo, dedicação ao trabalho. O processo de promoção de militantes e quadros para funções mais elevadas, na estrutura do partido, dos governos locais e do Estado Nacional, se dá a partir de avaliações coletivas sobre o desempenho de cada camarada. Isso é profundamente educativo e o povo reconhece!

    Visitei empresas privadas gigantescas, com participação na economia global e em todas elas funcionam os comitês do Partido, com funções muito bem estabelecidas: impulsionar a integração das empresas ao processo de desenvolvimento econômico voltado à construção socialista; defender os interesses dos trabalhadores nas relações com o capital privado a partir do respeito inequívoco à legislação trabalhista vigente; impulsionar o caráter de classe do partido, integrando uma enorme massa proletária a partir dos locais de trabalho, vivenciando cotidianamente as naturais contradições existentes entre capital privado e força-de-trabalho.

    Apenas a título de exemplo, uma dessas empresas, do ramo da comunicação digital, com presença global, tem cerca de 11 mil trabalhadores, dos quais mais de 3 mil são membros do PCCh. Nos distritos/bairros e nas comunidades rurais, se faz a ligação mais ampla com os (as) moradores (as), independente do seu extrato de classe. As sedes distritais do Partido são verdadeiros centros de serviços diversos ao povo local, da tirada de documentos essenciais, consorciando com espaços de lazer, cultura, esportes, cursos profissionalizantes básicos, bibliotecas, atendimento aos idosos e à juventude.

    A delegação brasileira com idosas que realizam atividades culturais na sede distrital do PCCh. Foto: Altair Freitas

    Nelas, por óbvio, reúnem-se os membros locais do partido, sua direção e militância, para debater as orientações nacionais e locais, realizar cursos de formação e estudos individuais. Os espaços exclusivos do partido e seus membros são dotados de avultada biblioteca com obras do marxismo-leninismo, incluindo os grandes pensadores e lideranças do próprio PCCh, estúdios de gravação para produção de programas etc.

    Na China, militantes e dirigentes estudam muito, um estudo dirigido para a formação teórica-ideológica e para os diversos aspectos da administração pública. Sempre tendo o lema “Servir ao Povo” como uma espécie de mantra, uma determinação coletiva e individual.

    O povo, acredito que na sua maior parte, corresponde. Um típico caso de amor muito bem correspondido. Ditadura? Tirania? Uma imensa bobagem propagandística do Ocidente capitalista em processo de degradação acentuada. Uma ligação muito profunda, forjada por 7 décadas de revolução, com suas idas e vindas, erros e acertos, mas que resultam, por enquanto, no maior processo de transformação social estrutural da história humana.

    Tornar um país basicamente agrário, devastado pelo imperialismo no século XIX e primeiras décadas do XX, aviltado pelas barbaridades japonesas nos anos 30/40, na maior potência industrial e comercial do mundo, retirando da pobreza mais de 700 milhões de pessoas, é algo que só poderia ter sido feito pelo Socialismo e em profunda ligação do povo com a força condutora desse processo, o Partido Comunista.

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    Finalmente, um raciocínio sobre “ditaduras”. Para o pensamento marxista clássico, todo e qualquer Estado é, em essência, uma ditadura, mesmo os aparentemente mais democráticos conforme os critérios liberais burgueses. Estados são aparatos, instrumentos político-administrativos e militares, utilizados pelas classes sociais que o dominam para moldar a sociedade conforme seus interesses fundamentais.

    Logo, um dos papéis do Estado é a preservação da ordem dominante, ou seja, da manutenção da classe dominante no poder, em cada período histórico. Nesse papel, as classes dominantes podem exercer esse poder de modo, digamos, mais “aberto”, sem a necessidade do uso da força bruta, da repressão generalizada, especialmente em momentos nos quais as contradições internas são menos intensas, mais administráveis através da política junto com a pregação ideológica.

    Em momentos de conflitos mais agudos, que podem resultar na perda de controle para outra (s) classe (s) e consequentemente também a perda do comando das forças produtivas, o uso da força bruta, da repressão armada, ou mesmo o “Terrorismo de Estado” é amplamente empregado. É esse aspecto que geralmente recebe a denominação de “ditadura”, como, por exemplo, o regime militar instalado em 1964 aqui no Brasil.

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    Tendo passado por todas as adversidades do século XX, conquistado o poder após uma cruenta luta contra o imperialismo europeu e japonês e brutal guerra civil, o cerco de morte das potências ocidentais por um período longo, é natural que nessa trajetória de 7 décadas, a China vivenciou diversas facetas políticas, que demandaram períodos duríssimos, especialmente nos anos imediatamente após a vitória da revolução em 1949.

    Nas últimas décadas, a construção socialista chinesa diminuiu intensamente as enormes contradições internas herdadas do período pré-revolucionário, estabelecendo um ordenamento legal coerente, condizente com os propósitos e interesses da maioria do seu povo, uma democracia de base extraordinária, totalmente longe da democracia formal e meramente representativa dos países capitalistas.

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    Logo, na essência do pensamento marxista, a China desenvolve a propagada e muito mal compreendida “Ditadura do Proletariado”, que precisa ser compreendida como Democracia para a imensa massa trabalhadora, de fato e de direito. E o Partido, com sua filosofia de Servir ao Povo, segue comandando esse processo extraordinário!

    Altair Freitas é historiador, diretor da Escola Nacional João Amazonas e membro do Comitê Central do PCdoB.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

     

     

     

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