O objetivo deste texto é apresentar alguns apontamentos sobre os três temas referidos no título — importantes hoje tanto no debate público como no acadêmico —, os quais, embora fortemente imbricados, tendo em vista a sua gênese comum, fruto que são da Terceira Revolução Industrial, devem ser compreendidos nas suas especificidades em relação aos aspectos tecnológico, econômico e sociológico envolvidos.
A partir de uma referência crítica à ideia de tecnofeudalismo, introduzo a discussão sobre a chamada economia de dados, que “intersecciona” as problemáticas das plataformas digitais e da inteligência artificial, enfatizando o seu aspecto de capital fictício. A inteligência artificial será retomada em seguida, apresentando, primeiro, alguns conceitos-chave discutidos em um artigo relevante a respeito, do campo da filosofia, para, em seguida, fornecer-se uma alternativa de análise marxista.
Trata-se de um texto curto, que só almeja indicar uma linha de raciocínio sobre os temas relacionados, os quais vêm sendo desenvolvidos em outros trabalhos decorrentes do projeto de pesquisa citado na nota biográfica adiante.
Palavras-chave: Comunicação. Economia política. Tecnologia.
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1. Introdução
As notas que seguem foram inspiradas em parte pela leitura de um recente artigo de divulgação de Luiz Gonzaga Belluzzo, no qual o professor realiza uma breve incursão no terreno, em disputa, da chamada economia das plataformas, partindo de uma boa síntese do argumento conhecido de Yanis Varoufakis, cujas “peripécias conceituais apontam a substituição do mercado por plataformas de negociação digital” (Belluzzo, 2024), uma ruptura com um dos fundamentos centrais do sistema capitalista, algo sem precedentes. Assim, segundo Varoufakis, o mundo estaria transitando para o que ele chama de tecnofeudalismo.
Na boa síntese das ideias do economista grego feita por Belluzzo (2024), “o lucro, motor do capitalismo, foi substituído por sua predecessora feudal, a renda”, uma forma de aluguel pelo acesso às plataformas, de modo que “o poder real hoje não reside nos proprietários do capital tradicional, como máquinas, edifícios, redes ferroviárias e telefônicas, robôs industriais”. Eles se tornaram vassalos da “nova classe de senhores feudais, os proprietários do capital da nuvem”, enquanto as “gentes do povaréu voltaram ao status feudal de servos, alimentando a riqueza e o poder da nova classe dominante”.
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Essas notas, por outro lado, somam-se a outras que publiquei na Revista Eptic (Bolaño, 2024), recuperando algumas contribuições recentes, no campo do marxismo, sobre a chamada inteligência artificial (IA), em especial a importante perspectiva do professor Guglielmo Carchedi, a que farei breve referência adiante. A relação entre a economia das plataformas digitais e a IA não é evidente, sendo aquela já muito estudada, enquanto esta última se refere a um objeto ainda pouco definido, no que se refere a suas especificidades técnicas, funções sociais e modelos de financiamento, e sobre o qual, não obstante, grandes expectativas foram suscitadas ao longo da primeira metade da década de 2020 pela indústria, as quais parecem estar sendo revisadas neste momento.
Mas há um aspecto em que as duas tendências se encontram, que é o que vem sendo chamado de economia de dados, da qual publiquei recentemente uma crítica, em parceria com Fabrício Zanghelini, à qual me referirei também adiante, na segunda seção deste artigo. Na terceira, apresentarei, de forma breve e crítica, uma interessante definição da problemática da inteligência artificial, elaborada por Mariah Brochado, autora ligada à tradição filosófica idealista de Henrique Lima Vaz, sinalizando uma alternativa marxista que será reafirmada na quarta parte, a qual situa a inteligência artificial na longa trajetória da automação e apresenta os dilemas que se contrapõem hoje à sua expansão. Trata-se de um texto curto, que só almeja indicar uma linha de raciocínio sobre os temas relacionados, que venho desenvolvendo em outros trabalhos decorrentes do projeto de pesquisa “Governança econômica das redes digitais”, do qual sou coordenador.
Serviço
Revista: Princípios (Qualis A3)
ISSN: 1415-7888 | E-ISSN: 2675-6609
Editora: Anita Garibaldi
Número: 173
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César Bolaño é professor doutor, nível titular, aposentado, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), voluntário do Programa de Pós-graduação em Economia daquela instituição (Propec-UFS), coordenador do projeto “Governança econômica das redes digitais”, que conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp — projeto nº 2021/06992-1).