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    Economia

    Marx e a uberização: o salário por peça volta via aplicativos

    A partir de Marx, Engels e Lenin, o artigo analisa como plataformas digitais atualizam formas clássicas de exploração, transferem riscos aos trabalhadores e reorganizam o controle do trabalho no século XXI

    POR: Percival Henriques

    14 min de leitura

    Aplicativo da Uber para Motos. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
    Aplicativo da Uber para Motos. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

    O Salário por Peça Volta de Aplicativo: Marx e a Uberização do Século XXI

    Há uma operação ideológica em curso que precisa ser desmontada.

    Ela consiste em apresentar como novidade absoluta um fenômeno que Marx dissecou em 1867. Em fazer parecer disrupção tecnológica o que é, na verdade, regressão civilizatória. Em vender como liberdade o que os nossos clássicos já haviam identificado como a forma mais sofisticada de exploração.

    Falo da uberização.

    O termo soa moderno. Evoca startups, aplicativos, economia digital. Os ideólogos do capital celebram o “empreendedorismo” dos motoristas e entregadores. A mídia corporativa repete que eles são “donos do próprio tempo”. Os economistas liberais aplaudem a “flexibilidade” das novas relações de trabalho.

    Mas basta abrir o Livro I de O Capital para descobrir que não há nada de novo sob o sol algorítmico.

    No Capítulo XIX, Marx analisa uma forma específica de remuneração: o salário por peça. Não o salário por tempo, tanto por hora, por dia ou por mês, mas o pagamento por tarefa executada. Por unidade produzida. Por entrega realizada.

    Soa familiar?

    Marx observa que esta modalidade cria uma ilusão poderosa. O trabalhador passa a acreditar que recebe pelo produto do seu trabalho, não pela venda da sua força de trabalho. A aparência é de autonomia. A realidade é de subordinação intensificada.

    Escreveu Marx que o salário por peça “tende a desenvolver a individualidade e com ela o sentimento de liberdade, a autonomia e o autocontrole dos operários”. Mas, e aqui está o golpe dialético, simultaneamente desenvolve “a concorrência entre eles e de uns contra os outros”.

    Eis a uberização avant la lettre.

    O motorista da Uber acredita ser livre porque escolhe os seus horários. O entregador do iFood sente-se autônomo porque não tem chefe visível. Mas ambos competem ferozmente entre si por corridas e entregas. Ambos correm contra o relógio algorítmico. Ambos arcam sozinhos com todos os riscos.

    A plataforma, como o capitalista do século XIX, não corre risco algum.

    Marx foi cirúrgico ao descrever esta transferência. Nas fábricas da Inglaterra vitoriana, quando se pagava por peça, os patrões contratavam mais operários do que o necessário. A justificativa era cínica: “como se lhes paga às peças, diz-se que não se corre nenhum risco, porque todas as perdas de tempo recairão sobre os desocupados”.

    Leia novamente.

    As perdas de tempo recaem sobre os desocupados. O capitalista não paga pelo tempo de espera. Não remunera a ociosidade forçada. Não assume o custo dos períodos sem demanda.

    Isto é a Uber em 1867. É o iFood descrito cento e cinquenta anos antes de existir. É a 99 antecipada por um filósofo alemão que jamais viu um smartphone.

    Em meu livro Direito à Realidade: Por um Constitucionalismo Digital para o Brasil, proponho o conceito de “alienação algorítmica” para capturar o que está em jogo. A alienação clássica, que Marx descreveu, separava o trabalhador do produto do seu trabalho. O operário fabricava sapatos, mas os sapatos não lhe pertenciam.

    A alienação algorítmica vai além.

    Ela separa o trabalhador do próprio processo de trabalho. O entregador pedala, mas não compreende por que recebe certas entregas e não outras. O motorista dirige, mas ignora os critérios que determinam seu “score”. Ambos trabalham segundo regras que desconhecem, julgados por parâmetros que não conseguem decifrar, governados por uma lógica que lhes escapa inteiramente.

    É uma expropriação mais profunda. Não apenas do produto, mas da própria inteligibilidade do trabalho.

    O trabalhador uberizado não sabe por que ganha o que ganha. Não entende por que foi “desativado”. Não consegue explicar a si mesmo as razões do seu sucesso ou do seu fracasso na plataforma. Ele se tornou estrangeiro não apenas em relação ao que produz, mas em relação ao modo como produz.

    Marx não poderia antecipar o algoritmo. Mas antecipou a estrutura da dominação que o algoritmo viria a aperfeiçoar.

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    Exército de reserva na era dos aplicativos

    Se Marx desvendou a mecânica da exploração pelo salário por peça, Engels revelou as condições sociais que a tornam possível.

    Em 1845, o jovem Engels publicou A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Tinha apenas 24 anos, mas produziu uma obra que permanece assombrosamente atual.

    Engels descreveu um fenômeno que Marx depois sistematizaria teoricamente: o exército industrial de reserva. Uma massa permanente de trabalhadores desempregados ou subempregados cuja existência pressiona para baixo os salários e as condições de todos os demais.

    Nas palavras de Engels, a burguesia encontrava “uma massa de trabalhadores em situação de vulnerabilidade, que lutando pela sobrevivência, aceitava todo o tipo de trabalho”. Um exército de pessoas famintas inundava as cidades, oferecendo sua força de trabalho com insistência desesperada.

    O paralelo com o Brasil contemporâneo é imediato.

    O país tem hoje mais de 1,5 milhão de pessoas trabalhando como motoristas ou entregadores por aplicativo. A maioria chegou às plataformas empurrada pelo desemprego. Não escolheu a uberização. Foi escolhida por ela, na falta de qualquer alternativa.

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    Este exército de reserva digital cumpre a mesma função que cumpria na Manchester de 1845. Mantém os ganhos por corrida e por entrega permanentemente deprimidos. Impede qualquer organização coletiva efetiva. Garante que sempre haverá alguém disposto a aceitar condições ainda piores.

    A novidade não está no mecanismo. Está apenas na velocidade com que ele opera.

    O algoritmo consegue calibrar em tempo real a oferta e a demanda de trabalhadores. Pode aumentar ou diminuir as tarifas instantaneamente. Pode ativar ou desativar motoristas conforme a necessidade do momento. Engels precisou de meses de pesquisa para mapear o exército de reserva de Manchester. O aplicativo da Uber faz isso a cada segundo.

    É aqui que entra um conceito que desenvolvo no Direito à Realidade: a “habitualidade algoritmicamente coagida”.

    O direito do trabalho tradicional distingue o trabalhador eventual do trabalhador habitual. O eventual presta serviços esporádicos, sem continuidade. O habitual trabalha com regularidade, o que caracteriza vínculo empregatício.

    As plataformas exploram esta distinção. Alegam que seus “parceiros” são eventuais porque podem ligar e desligar o aplicativo quando quiserem. Ninguém os obriga a trabalhar todos os dias.

    Mas o algoritmo conta outra história.

    Sistemas que degradam o score do trabalhador após 72 horas de inatividade. Que o relegam ao final da fila de distribuição se fica uma semana ausente. Que zeram a reputação digital arduamente construída após um mês sem trabalhar.

    O sistema não ordena “trabalhe todos os dias”. Mas arquiteta uma realidade econômica em que a eventualidade se torna luxo impagável.

    É coerção por arquitetura, não por comando. Subordinação por design, não por contrato. O trabalhador existe em uma superposição paradoxal de estados: habitual pela necessidade que o algoritmo impõe, eventual pela ficção jurídica que a plataforma sustenta.

    Engels reconheceria imediatamente este mecanismo. É a mesma lógica da fábrica manchesteriana, apenas traduzida para linguagem computacional.

    Plataformas digitais e o parasitismo do capital financeiro

    Lenin, por sua vez, ilumina outra dimensão do fenômeno.

    Em O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, escrito em 1916, Lenin analisou a emergência de uma oligarquia financeira que extrai riqueza sem participar diretamente da produção. Uma camada de proprietários sem vínculos com o trabalho concreto, que vive dos lucros do capital financeiro e das “maquinações” operadas por gestores profissionais.

    As plataformas digitais são a expressão mais pura desta tendência.

    A Uber não possui um único carro. O iFood não emprega um único cozinheiro. O Airbnb não é dono de um único imóvel. São intermediários financeiros puros, que extraem valor de cada transação sem produzir absolutamente nada.

    O trabalhador entra com o veículo, o combustível, a manutenção, o seguro, o celular e a própria vida. A plataforma entra com o algoritmo. E fica com 25% de cada corrida.

    Lenin chamaria isso de parasitismo elevado à condição de modelo de negócios.

    Mais ainda: as plataformas operam em escala global, extraindo mais-valia de trabalhadores em dezenas de países simultaneamente. São a realização plena do capital financeiro mundializado que Lenin descreveu. A diferença é que agora o “entrelaçamento” entre bancos, fundos e empresas acontece através de aplicativos instalados nos celulares de milhões de trabalhadores precarizados.

    A objeção previsível é que os tempos mudaram. Que não se pode aplicar categorias do século XIX ao século XXI. Que a tecnologia transformou tudo.

    Esta objeção revela mais sobre quem a faz do que sobre a realidade.

    A tecnologia transformou a forma, não o conteúdo. Acelerou os processos, não alterou a sua natureza. Sofisticou os mecanismos de controle, não eliminou a exploração.

    + Plataformas Digitais: trabalho, negócios e alternativas para uma economia digital justa

    O entregador que pedala doze horas por dia sob o sol de João Pessoa para ganhar quarenta reais não é um “empreendedor digital”. É um trabalhador superexplorado. A mãe solteira que dirige pela madrugada em São Paulo para pagar o aluguel não é uma “parceira” da plataforma. É uma proletária do século XXI.

    O que Marx, Engels e Lenin nos ensinam é precisamente a ver através da névoa ideológica.

    Eles nos ensinam que a “liberdade” de escolher os próprios horários significa, na prática, a liberdade de trabalhar dezesseis horas por dia para sobreviver. Que a “flexibilidade” das novas relações significa a transferência integral dos riscos para o trabalhador. Que o “empreendedorismo” celebrado pela mídia é apenas o velho assalariamento despido de qualquer proteção.

    Algoritmo como novo patrão

    Há, contudo, uma dimensão que os clássicos não poderiam antecipar: a opacidade algorítmica como instrumento de dominação.

    O capitalista do século XIX pelo menos era visível. O trabalhador sabia quem o explorava, conhecia o rosto do patrão, podia identificar o inimigo de classe. A luta era desigual, mas os contendores estavam à vista.

    O algoritmo é um patrão invisível.

    Ele determina quais corridas cada motorista recebe. Define o preço de cada entrega. Decide quem será “desativado” e quem permanecerá ativo. Pune e recompensa segundo critérios que ninguém conhece. Opera como um deus caprichoso cujos desígnios são insondáveis.

    Por isso, no Direito à Realidade, defendo que a luta por “transparência qualificada” é condição necessária para qualquer resistência efetiva. Não basta que as empresas publiquem documentos técnicos incompreensíveis. É preciso que o trabalhador comum possa entender, em linguagem acessível, por que o algoritmo tomou determinada decisão sobre a sua vida.

    E mais: é preciso que possa contestá-la.

    O artigo 20 da Lei Geral de Proteção de Dados brasileira garante o direito à explicação de decisões automatizadas. Mas de que serve conhecer os critérios se não se pode questioná-los efetivamente? O direito formal, desacompanhado de poder material, é letra morta.

    A transparência algorítmica é campo de batalha. Abrir a caixa preta é condição para que a luta de classes possa se desenvolver em terreno minimamente equilibrado.

    Transparência algorítmica no campo de batalha

    No Direito à Realidade, proponho sete princípios para um constitucionalismo digital brasileiro. Um deles é a “dignidade algorítmica”: sistemas automatizados devem tratar seres humanos como fins, nunca como meios.

    A formulação é kantiana, mas o conteúdo é profundamente marxista.

    Tratar o trabalhador como fim significa reconhecer que ele não é recurso a ser otimizado, variável a ser calibrada, input a ser processado. Significa que decisões sobre admissão, progressão e dispensa não podem ser tomadas por sistemas incompreensíveis. Significa que a eficiência algorítmica encontra limite intransponível na dignidade da pessoa humana.

    O capitalismo de plataforma viola este princípio a cada segundo.

    Cada trabalhador “desativado” sem explicação. Cada score rebaixado por critérios opacos. Cada punição automática sem direito de defesa. São violações sistemáticas da dignidade, perpetradas em escala industrial, legitimadas pela retórica da inovação.

    Marx diria que é a velha exploração com nova roupagem. Engels reconheceria a mesma miséria que documentou em Manchester. Lenin identificaria o mesmo parasitismo financeiro que denunciou em 1916.

    Os clássicos tinham razão. Continuam tendo.

    Luta de classes no trabalho por aplicativo

    Rio de Janeiro (RJ), 28/11/2025 – Entregadores fazem manifestação contra novas modalidades de entrega do aplicativo Ifood, na Cinelândia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

    Entregadores fazem manifestação contra novas modalidades de entrega do aplicativo Ifood, na Cinelândia, Rio de Janeiro (RJ), em 28/11/2025. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

    Os trabalhadores de plataforma estão começando a se organizar. No Brasil, os “breques dos apps” de 2020 mostraram que a resistência é possível. Entregadores pararam em várias capitais, exigindo melhores condições. O algoritmo, pela primeira vez, enfrentou um obstáculo que não conseguia calcular.

    A consciência de classe está se formando, ainda que lentamente.

    Engels observou que as condições materiais de exploração geram, dialeticamente, as condições de resistência. A concentração de trabalhadores nas fábricas criou as possibilidades de organização sindical. A miséria compartilhada forjou solidariedade.

    O mesmo processo está em curso entre os trabalhadores uberizados. Os grupos de WhatsApp substituem as assembleias de fábrica. As redes sociais permitem coordenação em tempo real. A própria tecnologia que serve à exploração pode ser apropriada para a luta.

    + Brasil atual e a formação de novas consciências populares

    Não há determinismo tecnológico. Há luta de classes em novo terreno.

    Marx, Engels e Lenin não escreveram para serem adorados como ícones. Escreveram para serem usados como armas.

    Suas categorias permanecem afiadas porque a realidade que descreveram permanece essencialmente a mesma. O capitalismo mudou de roupa, não de natureza. Trocou a chaminé da fábrica pelo servidor na nuvem, mas continua extraindo mais-valia do trabalho humano.

    A uberização é a prova viva de que os clássicos tinham razão.

    E de que a luta continua.

    Mas a luta do século XXI exige também novas ferramentas. Por isso escrevi o Direito à Realidade. Não para substituir Marx, Engels ou Lenin, mas para traduzir suas categorias para o tempo presente. Para mostrar que a crítica ao capitalismo e a construção de alternativas constitucionais não são projetos antagônicos, mas complementares.

    Domesticar o poder algorítmico é tarefa urgente. E ela começa por reconhecer que, por trás de cada aplicativo reluzente, opera a mesma lógica de exploração que nossos clássicos desvendaram há mais de um século.

    O salário por peça voltou. Agora se chama “corrida” ou “entrega”.

    A luta também precisa voltar.

    Percival Henriques de Souza Neto é físico, jurista, conselheiro do CGI.br há 14 anos, presidente da ANID e membro do Comitê Nacional de Cibersegurança. Autor de Direito à Realidade: Por um Constitucionalismo Digital para o Brasil (Editora Publius, 2025).

    *Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.