Na última semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a criação de um Conselho de Paz para supervisionar o governo de transição que irá controlar o território palestino.
Trump será presidente do conselho com mandato vitalício e o único com poder de veto e convidou diversos chefes de Estado para serem membros, entre eles o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que até o momento não aceitou o convite.
O documento que cria a organização foi assinado na manhã desta quinta (22) em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, com a confirmação de que 20 países aceitaram participar da iniciativa, entre eles estão Arábia Saudita, Catar, Egito, Emirados Árabes Unidos, Israel e Jordânia.
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Nesta coluna eu argumento porque o presidente Lula não deveria aceitar o convite do presidente Donald Trump para compor esse suposto Conselho de Paz. Considero algo absolutamente estranho e abjeto o convite de Trump para que o Brasil participe. É fora de qualquer propósito que uma figura como o atual presidente dos Estados Unidos se sugira como portador de um projeto de paz para o povo palestino. Na minha visão, trata-se de mais um capítulo do genocídio contra a Palestina, agora disfarçado de uma pretensa solução multilateral.
O presidente Lula não deve levar o Brasil para dentro desse conselho, pois ele faz parte de um projeto global de Trump que inclui o desmonte do sistema multilateral e da governança global. Trump passa por cima de todos os parâmetros do direito internacional e do sistema ONU para executar um projeto de colonização na Palestina, visando beneficiar empresas norte-americanas na construção de uma “Gaza dos sonhos”, que já teve até imagens projetadas por inteligência artificial incluindo estátuas de Trump.
Defendo que o presidente Lula decline o convite por diversos motivos fundamentais. Lula tem uma trajetória consolidada, muito consistente, de compromisso com a paz. Foi um dos primeiros chefes de Estado a denunciar o genocídio promovido pelo governo do primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de forma contínua contra a população palestina, agravado desde o 7 de outubro de 2023.
O presidente brasileiro já construiu uma autoridade internacional como líder e adepto do multilateralismo e da soberania dos povos, da solução negociada dos conflitos e, desde o seu primeiro mandato, afirma que a paz não nasce da força nem da imposição, mas do diálogo entre iguais. Neste terceiro mandato em especial, Lula tem um compromisso com a valorização dos instrumentos e mecanismos já existentes e com o comprometimento da maioria dos países do mundo, como o Conselho de Segurança da ONU.
Apesar de serem utilizados a bel prazer pelas grandes potências como os Estados Unidos, são os mecanismos que existem e precisam ser reformados. Se a ONU é enfraquecida ainda mais, isso abre espaço para indivíduos e atores erráticos, imprevisíveis, imponderáveis, como Trump, que consegue agir à margem da lei de uma forma cada vez mais impressionante.
Temos observado o governo dos EUA sinalizar ações como a possível tomada da Groenlândia, o afastamento da China no Panamá, o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a instalação de bases militares em países como Equador e Paraguai. Essas ações têm sido tomadas por parte do governo Trump e sabemos que o sistema ONU não tem capacidade, nem mecanismos para barrá-las – até porque isso tem a ver com a dinâmica do próprio capitalismo e do imperialismo e da sua força diante de outras nações.
Não vai ser implodindo que esse sistema e instalando novos instrumentos falaciosos como esse pretenso Conselho de Paz que vamos chegar a uma solução. Há uma grande hipocrisia do imperialismo, porque o que os EUA estão fazendo na América Latina, já foi feito no Iraque, na Síria, na Líbia, no Afeganistão e em tantos outros locais.
É uma enorme hipocrisia que eles falem de paz, sendo que pelo menos oito países foram atacados e bombardeados nesse primeiro ano de governo Trump, que se diz defensor da paz e merecedor do Prêmio Nobel. Além disso, existe uma dinâmica de protagonismo do Sul Global que vai subsumir nesse processo: se Lula aceitar, Trump vai ter ao lado dele um líder do Sul Global, uma contradição que ele quer explorar. Países do Brics – Brasil, Índia, Rússia, China e África do Sul – deveriam se contrapor a esse novo episódio de cercamento e aniquilação do povo palestino.
Aceitar esse convite significa normalizar a existência de fóruns absolutamente paralelos ao sistema ONU e legitimaria sanções como políticas de paz, enfraqueceria inclusive a autonomia diplomática brasileira, que estaria subordinada aos compromissos estabelecidos dentro desse conselho – a partir de coerção, sanções e imposições como forma de construir artificialmente um processo de paz.
Esse processo não se sustenta porque não dá espaço e voz para os principais envolvidos na questão que são a população e as forças políticas da Palestina. Seria absolutamente contraditório com a trajetória do presidente Lula, da política externa brasileira desse terceiro mandato que busca a construção de parâmetros para uma governança global realmente comprometida com a soberania dos povos, com a democracia de cada país e com processos sustentáveis de paz.
Deixo aqui esses elementos para o debate e reforço minha preocupação de que o Brasil não aceite ser coadjuvante deste novo capítulo de ataque ao povo palestino.
Assista na íntegra ao programa Conexão Sul Global com Ana Prestes
Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.
*Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 21/01/2025. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.