Estamos no final de janeiro e a quantidade de eventos é tamanha que já poderíamos realizar uma retrospectiva de 2026. Este processo, que se intensifica este ano, envolve a questão da Venezuela — incluindo o bloqueio naval e aéreo e o sequestro do presidente Nicolás Maduro — e as ameaças à Groenlândia, que pode levar ao fim da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Diante do comportamento da China, da Rússia e da forma como o Brasil se posiciona nessa conjuntura, analiso nesta coluna de forma abrangente a relação entre os Estados Unidos e o Brasil a partir dos movimentos do presidente republicano Donald Trump.
Não acredito na tese de que a nova doutrina de segurança nacional, que busca reeditar a Doutrina Monroe – o chamado Corolário Trump – tenta consagrar o mundo regido a partir de áreas de influência o que seria, em tese, um recuo dos Estados Unidos em relação ao papel que desempenharam nos anos 1990 e 2000.
É preciso saber ler nas entrelinhas dos documentos oficiais. No pós-Guerra Fria, ao mesmo tempo em que estabeleceram compromissos mundiais, os americanos mantiveram intervenções em países como Iraque e Afeganistão: invadiram mais países após a Guerra Fria do que entre 1945 e o fim desse conflito. A gravidade da situação reside no fato de que eles perderam a capacidade de pensar em si mesmos.
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O Corolário Trump estabelece que o lugar dos Estados Unidos no mundo dependerá do cumprimento de tarefas domésticas, sendo a principal delas a reindustrialização do país. A vitória de Trump consagra uma repactuação das forças políticas surgidas ao final da Guerra de Secessão norte-americana (1861-1865) em que os estados confederados do Sul do país se separaram da União para manter a escravidão de afro-americanos após a eleição do presidente Abraham Lincoln (1809-1865) e do crescimento do movimento abolicionista no Norte do país. Naquele arranjo dos EUA permitiu que senhores de escravos mantivessem seus privilégios mesmo após a abolição, resultando em um regime de apartheid que durou até os anos 1960.
Trump é a expressão moderna da repactuação desse arranjo de poder após a guerra civil dos EUA, com uma política de imigração que representa um fascismo aberto contra quem não se enquadra no perfil branco, anglo-saxão e protestante (WASP). Essa analogia nos revela como Trump é a consolidação da nova vaga fascista vinda do outro lado do Atlântico, como previu em 1933 Geórgi Dimitrov, então secretário-geral da Internacional Comunista entre 1934 e 1943, que se tornou dirigente da Bulgária e (1948- 1949).
Trata-se de um fascismo voltado tanto para o plano interno quanto para o externo. Discordo da explicação simplista de “áreas de influência”; o que vejo é a tentativa de impor uma ditadura militar global em um novo patamar. O aumento de 600 bilhões de dólares nos gastos de defesa, aprovado pelo Parlamento estadunidense, é algo inédito desde a Guerra da Coreia (1950-1953).
Esse poder é projetado para o mundo inteiro. Estamos diante de um fascismo 4.0 que busca a consolidação dessa ditadura militar global, ligada à necessidade dos Estados Unidos de terem acesso ilimitado a recursos naturais de outros países para sua reindustrialização. Isso explica o interesse na Venezuela, no Brasil e na Groenlândia. Na América Latina, temos tudo o que eles precisam: petróleo, ouro, terras raras e alimentos.
Trump quer impedir que países como o Brasil consolidem projetos nacionais autônomos, pois não admite o surgimento de um novo Japão no hemisfério Sul, que ele considera como sendo seu próprio quintal. Ele representa a grande finança americana, enquanto o Partido Democrata representa as Big Techs. Essas duas forças rivalizam; tanto que Trump, no desespero de reindustrializar o país, cogita até tabelar taxas de juros, o que soa como um recado direto a Wall Street para combater a financeirização de forma torta. Não podemos ter a ilusão de que o Brasil passará ileso sem uma interferência externa maciça este ano.
É absurdo que Trump tente montar um “Conselho da Paz” para Gaza, algo comparável a se Hitler montasse um conselho para os territórios que ocupou, como a Polônia ou a França. Gaza foi destruída e pilhada, e ele quer a última palavra sobre a região, moldando o Oriente Médio à imagem de Israel e buscando a desestabilização do Irã. Além disso, os Estados Unidos voltaram a atacar o Iêmen, a Nigéria e a Síria. Em relação a Taiwan, embora desautorize certas missões para não provocar a China, Trump vendeu 12 bilhões de dólares em armas para a ilha, militarizando o Mar do Sul da China.
Sobre a Groenlândia, o interesse reside nas terras raras e na segurança nacional, visto que China e Rússia aprofundaram a exploração do Ártico nos últimos anos. Sou contra essa ocupação, assim como sou contra a invasão da Ucrânia. A Europa, contudo, comporta-se de forma submissa a Trump, assemelhando-se à postura da opositora venezuelana Maria Corina Machado. No entanto, surgem vozes, como a da primeira-ministra da Itália, defendendo a retomada do diálogo com a Rússia. Uma agressão à Groenlândia poderia implodir a OTAN, obrigando a Europa ao rearmamento e à reaproximação com Rússia e China por necessidade existencial e econômica.
Guerra na Ucrânia
A guerra na Ucrânia é uma proxy war dos Estados Unidos contra a Rússia e contra a indústria alemã, ao cortar o acesso ao gás barato para quebrar a competitividade de Berlim. A Alemanha, industrialmente fantástica, está sendo empurrada de volta ao uso de carvão e vendo suas indústrias migrarem para os EUA. A decadência americana é real; suas demonstrações de força são atos de desespero. Eles rasgaram as regras do comércio internacional e caminham para a abolição da democracia burguesa em favor de um fascismo escancarado.
Enquanto isso, a China e a Rússia protegem seus próprios interesses. A China sabe que o tempo joga a seu favor e foca no seu fortalecimento interno e no seu 15º Plano Quinquenal. Na América Latina, Trump pressiona pelo rompimento com China e Rússia, mas é impossível substituir o mercado chinês, que é o principal comprador de commodities e grande investidor em infraestrutura. Os Estados Unidos não têm capital produtivo ou planejamento estatal para ocupar esse espaço.
No Brasil, enfrentamos tentativas de intervenção. Em 2026, nosso candidato será Luiz Inácio Lula da Silva, reeditando a Frente Ampla. No entanto, não basta reelegê-lo; a extrema-direita brasileira é essencialmente entreguista e quer abrir nossos recursos estratégicos aos interesses americanos. Nós, da esquerda, devemos combater esse projeto neocolonial. Além das pautas civilizatórias fundamentais — como questões raciais, de gênero e LGBTQ+ —, precisamos de uma esquerda patriótica que tenha a questão nacional como centralidade.
A esquerda deve assumir o papel de guardiã dos interesses nacionais, por meio de um novo projeto nacional de desenvolvimento. É uma pauta patriótica e revolucionária, pois buscamos o socialismo para o Brasil, mas com foco absoluto na defesa da nossa soberania.
Assista a íntegra do programa Meia Noite em Pequim:
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 27/01/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.