“A ‘doutrina’ proclamada pelo presidente James Monroe em 1823… Durante muitas décadas não foi mais que um blefe ianque… Potências europeias fizeram múltiplas intervenções na América Latina, frequentemente em missões para receber dívidas, antes e depois da Guerra Civil americana” (Niall FERGUSON, 2011).[1]
Este artigo argumenta que a decadência do imperialismo norte-americano é irreversível, enquanto potência que se pretendeu, na década de 1990, imperar um mundo unipolar, pós-desintegração dos países do Leste europeu e da União Soviética (1989-1991). Parte de um enfoque filosófico para aclarar os signos do conceito de “Sistema”, conforme as interpretações dos grandes filósofos. Assinala a principalidade da categoria “Contradição” como categoria incontornável de análise das tendências gerais das lutas de classes e do desenvolvimento dos processos históricos. Examina a seguir aspectos relevantes da objetividade multifacética na regressão desse país. Afirma que a propalada estratégia de segurança dos EUA não se viabilizará – e que de suas más intenções o inferno já está superlotado; não há mais vagas.
Os Estados Unidos da América processam seu estágio terminal como hegemon. O que não quer dizer colapso iminente. Quer dizer que não haverá mais retorno a sua supremacia global, seja como “estabilizador hegemônico” (C. Kindleberger), seja como potência de um sistema internacional unipolar, gestado desde o fim da bipolaridade mundial. Encontra-se em andamento uma nova conformação geopolítica multipolar, simultaneamente a um sistema internacional plurimonetário.
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+ Nova Estratégia de Segurança dos EUA e a Doutrina “Donroe” para as Américas
Um dos pontos nevrálgicos da decadência dos impérios remete à chamada “extensão estratégica extensiva”: a sustentação do conjunto de recursos para a manutenção do dominium entra em esgotamento. E tudo passa a girar em torno do predomínio da supremacia militar, também contestada. Desaparece completamente uma das condições essenciais para a conquista da hegemonia: o “consenso” (Gramsci); ao isolamento resta-lhe a força bruta e o belicismo. Dessa maneira, o problema central que hoje rege a dinâmica do Sistema de Relações Internacionais é o notável declínio dos EUA, não outro.
Aparência e contradição
As razões principais para interpretação desse fenômeno são que as tendências histórico-estruturais desenvolvidas passaram à absolutização frente às contra-tendências (Marx), no quadro atual de intensificação concorrencial na ascensão de potências emergentes, e de ferrenha disputa geopolítica global. Aliás, um dos postulados centrais das teorias marxianas é esta antinomia, elevada, por ele e Engels, à categoria de contradição dialética. Em toda a (principal) obra desses geniais pensadores e cientistas sociais revolucionários, essa episteme vai construindo uma nova Lógica dialética. Por isso o conceito de “Sistema” em Marx e Engels é “aberto”, em oposição aos de Kant e Hegel: “fechados”. [2]
Sistema marxiano aberto, simultaneamente remetendo à distinção crucial entre fenômeno e essência: esta se manifesta no fenômeno (aparência). Esse duplo sentido projeta o fenômeno indicando à essência, mas escondendo-a no mesmo momento. Ou, como escreveu Marx a Engels (1867) “Se os homens apreendessem imediatamente as conexões, para que serviria ciência?” [3] Essa postulação marxista, em certo detalhe, diz respeito à capacidade e compreensão analíticas que mais se aproxima do concretum. Porque a dialética materialista, incidente e emanada no movimento da contradição exige compreender o fundamento da contradição, a estrutura que a orienta ou dirige, assim como a dinâmica que a alimenta. Do contrário, os sofismas jamais aportarão maneiras de equacioná-las ou removê-las. [4]
Assim, a superação marxiana do pensamento idealista implica em se pôr “de cabeça para cima” a “pseudoconcreticidade” da análise da aparência (K. KOSIK (Op. cit,17-20). Concluindo aqui que, do pensamento sistêmico “fechado” deriva a escatologia.
Parte II
Impérios em declínio
“Nessas circunstâncias, não há perspectivas para um retorno ao mundo imperial do passado e muito menos para uma hegemonia imperial global, que não tem precedentes na história, por parte de um único país, os Estados Unidos, por maior que seja sua força militar. A era dos impérios está morta” (HOBSBAWM, 2007[2004]).[5]
Em “Sobre o fim dos impérios”, citado na epígrafe, podemos resumir brevemente a argumentação lógica e histórica de HOBSBAWM no seguinte:
(i) O mundo hoje é excessivamente complexo para que um único Estado consiga dominá-lo sozinho. (ii) Ainda que os Estados Unidos possuam superioridade militar (armamento de alta tecnologia), isso não é absolutamente decisivo para um cenário de domínio global, como se provou a trágica e de “pouca eficiência” guerra no Oriente Médio. (iii) Historicamente, os EUA tornaram-se um grande país imperialista simultaneamente a ser também o maior devedor; o império britânico, por exemplo, controlador das principais rotas comerciais, tornou-se insolvente somente ao final da 1ª Guerra Mundial. Essa forte debilidade tática e estratégica passou a obstaculizar o pleno exercício de sua hegemonia. (iv) Para Hobsbawm, deve-se considerar que a era dos impérios formais (colonialismo), finda após a Segunda Guerra Mundial, e com a subsequente descolonização, alterou, no fundamental, a dinâmica do poder global. (v) A mudança nos terrenos econômicos e políticos no século 21 vem demonstrando ser uma “ilusão imperial” a tentativa de afirmação da supremacia militar global pela força, o que está fadado ao fracasso – afirma ele.
Com efeito, as determinações que enquadram a decadência hodierna do império americano remetem, antes do mais, a uma sociedade internamente dilacerada por regressões sociais, políticas e econômicas inusitadas, conquanto antagônica dos “Anos dourados” do pós-Segunda Guerra, como definiram estudiosos anglo-saxões, e franceses (“Os trinta gloriosos”).
Cresce a pobreza americana
Muito recentemente, um estudo liderado pelo sociólogo Mark Rank demonstrou que quase 60% dos norte-americanos adultos viverão pelo menos um ano abaixo da linha da pobreza e 75% vivenciarão pobreza ou uma situação parecida. “É um problema estrutural, que se deve principalmente a dois fatores: sua rede de previdência social muito fraca, que não consegue impedir que as pessoas caiam na pobreza, e a criação de empregos com baixa remuneração e sem subsídios”. Rank corrobora que esta combinação transformou os Estados Unidos em um dos países com os mais altos índices de pobreza, entre as nações industrializadas (Cf. A ‘pobreza’ repentina que faz com que milhões de pessoas nos EUA dependam de ajuda para não passar fome, BBC, 25/12/2025).
Noutra pesquisa, do centro de estudos Pew Research Center, publicada em maio de 2025, 27% dos americanos declararam ter enfrentado problemas para pagar pela assistência médica, própria ou de sua família, no último ano. E pelo menos 20% das pessoas precisaram recorrer a um banco de alimentos no mesmo período. As pesquisadoras Kim Parker e Luona Lin afirmam que 68% dos adultos afro-americanos e 67% dos adultos hispano-americanos admitem não dispor de fundo de reserva para emergências, da mesma forma que 44% dos adultos brancos. Outra pesquisa, realizada pelo Conselho Nacional para o Envelhecimento (NCOA, na sigla em inglês) e pelo centro de estudos LeadingAge LTSS, da Universidade de Massachusetts em Boston, nos Estados Unidos, revelou que os idosos com menos recursos econômicos morrem, em média, nove anos antes dos que contam com maior patrimônio. “É alarmante e inaceitável que, nos Estados Unidos, em 2025, a pobreza roube quase uma década de vida dos idosos”, declarou o presidente e diretor-executivo do NCOA, Ramsey Alwin (BBC Brasil, 25/12/2025).
Desigualdade crescente
O gráfico de dispersão abaixo é preciso em demonstrar o enorme fosso da desigualdade nos EUA frente a países considerados “desenvolvidos”. Conforme o Banco Mundial, ainda em 2018 a situação da desigualdade dos EUA era similar a da Turquia e a do Peru, e menos desigual que o México, o Brasil (o mais desigual analisado), Costa Rica e Colômbia.

Desigualdade de renda medida pelo índice de Gini em relação ao PIB per capita. Dados de 2018. Crédito:
Gráfico de The Conversation (licença CC BY-ND), com dados do World Bank.
Neste janeiro de 2026, pesquisas indicam que a desigualdade nos EUA atingiu o patamar mais alto desde a Segunda Guerra Mundial:
a) o 1% mais rico agora controla 31,7% de toda a riqueza do país (cerca de US$ 55 trilhões), montante quase equivalente ao patrimônio dos 90% da base combinados;
b) a desigualdade voltou a subir após um breve período de nivelamento no final da década de 2010. O fator principal foi o ganho acumulado no mercado de ações entre 2023 e 2025, reconcentrador de mais riqueza aos mais ricos;
c) enquanto os 10% mais ricos detêm cerca de 63% dos ativos e são pouco afetados pela inflação, os 50% da base da pirâmide detêm apenas 5% dos ativos e enfrentam dificuldades crescentes com o custo de vida, e para pagar e refinanciar suas dívidas. De acordo com economista da agência Moodys, os americanos de baixa renda enfrentam dívidas cada vez maiores. “O que cresceu nesse grupo foi só a raiva” (ver: Economia dos EUA amplia dependência dos gastos dos mais ricos amplia (o que é um problema); ver também: Rich Americans Had a Good 2025. Everyone Else Fell Behind)
Observe-se ainda e nesse sentido, o incontestável gráfico exibido pelo conhecido economista americano e prêmio Nobel de economia P. KRUGMAN, acerca do principal indicador internacional que mensura a desigualdade de renda e riqueza.

Evolução do índice de Gini da renda das famílias nos Estados Unidos mostra tendência de aumento da desigualdade desde os anos 1980, atingindo nos anos recentes os níveis mais elevados da série histórica. Fonte: Dados do U.S. Census Bureau, compilados pelo Federal Reserve Economic Data (FRED). Crédito: Imagem reproduzida de artigo do NECAT/Universidade Federal de Santa Catarina.
Nesse mesmo ano (agosto de 2020), a BBC publicou uma impressionante pesquisa sobre a realidade da pobreza americana, denominada: Por que os EUA têm os piores índices de pobreza do mundo desenvolvido.
Na realidade, o Coeficiente de Gini nos EUA (entre 2025-2026) persiste com a pior distribuição de renda entre as nações do G7. Estima-se também que cerca de 12,7% da população (37 milhões de pessoas) vive abaixo da linha da pobreza. Reitera-se que a desigualdade também persiste em recortes demográficos: em 2024, a disparidade salarial de gênero voltou a aumentar após 20 anos de relativa estabilidade.
De outra parte, 40% da população dos EUA — incluindo quase 50% das crianças —, em 2025, é considerada pobre ou de baixa renda, segundo a Oxfam. De fato, há poucos dias, o relatório da Oxfam divulgado no Fórum Econômico Mundial em Davos (janeiro de 2026) aponta que o mundo atingiu um cenário de extrema desigualdade, com governos protegendo a riqueza dos bilionários em detrimento da maioria da população. Nos Estados Unidos (2025-2026), a organização descreve uma “aceleração sem precedentes na concentração de riqueza”, descrita, sob este governo Trump, como “o ano do presente para os super-ricos” – um escândalo sem precedentes!

Série histórica apresenta a evolução da riqueza agregada dos bilionários entre 1987 e novembro de 2025, em dólares constantes. Créditos: Dados da revista Forbes. Imagem reproduzida de artigo do World Socialist Web Site.
O texto acima corresponde ao trecho inicial do artigo de A. Sergio Barroso. Leia a versão integral em PDF:
Marx e o cadáver insepulto de J. Monroe
A. Sergio Barroso é médico, doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Campinas (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB e coordenador do Grupo de Pesquisa Problemas e desafios contemporâneos da teoria marxista da Fundação Maurício Grabois (FMG).
*Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.