Complexidade Econômica, salários e o nó da dívida: um comparativo internacional e o caso Brasileiro
A armadilha do endividamento em economias de baixa complexidade
A relação entre complexidade econômica e níveis salariais não opera em um vácuo teórico. Ela se desenrola em um contexto institucional específico, onde variáveis como endividamento familiar, custo do crédito e renda média atuam como aceleradores ou freios do processo.
O Brasil apresenta um quadro particularmente desafiador: baixíssima complexidade econômica (ocupando posições modestas no Economic Complexity Index), renda média estagnada, mas com famílias altamente endividadas (com cerca de 78% da renda comprometida com dívidas) em um ambiente de juros estruturais elevados. Este trilema (endividamento alto, juros altos, renda baixa) trava qualquer transição simples.
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Como escapar dessa armadilha? A análise comparativa com outras grandes economias emergentes – China, Índia e Rússia – que também partiram de baixa complexidade, mas seguiram caminhos distintos, é fundamental para iluminar possíveis rotas para o Brasil.
O ciclo vicioso brasileiro: endividamento como sustento da demanda, não como alavanca
No Brasil, na ausência de crescimento robusto de salários reais e com o Estado oferecendo uma rede de proteção social limitada, o crédito ao consumo (caro) cumpriu um papel paradoxal: foi o mecanismo que sustentou a demanda agregada nas últimas décadas, permitindo o acesso a bens duráveis e serviços essenciais (como educação privada e saúde). No entanto, este modelo gera um ciclo vicioso perverso:
- Salários baixos + Complexidade baixa → Baixa produtividade e margens de lucro frequentemente buscadas via preços altos.
- Demanda reprimida → Famílias recorrem ao crédito caro para manter consumo básico ou alcançar patamares mínimos de bem-estar.
- Alto endividamento → Comprometimento da renda futura com serviços da dívida, reduzindo a capacidade de poupança e o poder de compra futuro.
- Demanda futura comprometida → Desincentivo para empresas investirem em inovação e complexidade, pois o mercado interno está estrangulado financeiramente. Elas optam por estratégias de rentismo, preços altos e baixo investimento.
Resultado: O crédito, em vez de financiar investimentos produtivos que aumentem a complexidade, sustenta um consumo de sobrevivência que não gera pressão por sofisticação. A dívida vira um imposto sobre a renda futura, travando a transição.
Comparativo internacional: estratégias diferentes para relacionar complexidade e renda
China: o Estado como planejador e investidor, controlando o endividamento
Estratégia: A China não partiu do consumo. Partiu de um massivo investimento estatal e orientado em infraestrutura, capacitação industrial e P&D, financiado por alta poupança interna (inclusive corporativa) e controle total sobre o sistema financeiro. A complexidade (eletrônicos, máquinas, energia verde) foi construída de cima para baixo.
Papel dos salários/dívida: Por décadas, os salários urbanos foram mantidos relativamente baixos para garantir competitividade exportadora. O endividamento familiar era baixo. A demanda agregada era sustentada pelo investimento. Só após construir uma base industrial complexa e dominante globalmente, a China iniciou (a partir dos anos 2000) uma guinada para aumentar salários e o consumo interno, usando seu superávit comercial e poupança estatal para financiar esta transição sem gerar inflação ou crise de dívida familiar descontrolada.
Contraste com o Brasil: O Estado chinês foi um investidor direto e planejador. No Brasil, o Estado é, em grande parte, um financiador de consumo via crédito subsidiado (BNDES para grandes grupos) e programas sociais, com pouca direção efetiva para a complexidade. A China priorizou poupança e investimento; o Brasil, na prática, priorizou consumo via endividamento.
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Índia: serviços complexos com desindustrialização prematura e desigualdade extrema
Estratégia: A Índia saltou, em parte, diretamente para uma economia de serviços complexos (TI, software, serviços financeiros) sem passar por uma massiva industrialização clássica. Este setor gera salários altos para uma elite educada.
Papel dos salários/dívida: A renda média permanece muito baixa. O mercado interno de massa para bens industriais sofisticados é limitado pela extrema desigualdade. O endividamento familiar tem crescido, mas para financiar tanto consumo básico quanto educação/formação para acessar os setores de elite. Há uma dualidade: uma ilha de alta complexidade e altos salários desconectada de um oceano de baixa complexidade agrícola e informal, com baixos salários.
Contraste com o Brasil: Ambos são desiguais, mas a Índia conseguiu criar setores globais de alta complexidade em nichos específicos. O Brasil não. A falta de um setor industrial denso na Índia, porém, limita a criação de empregos de qualidade em massa. O Brasil, apesar de tudo, mantém uma base industrial mais ampla (embora pouco complexa).
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Rússia: commodities cComplexas e o Estado rentista
Estratégia: A Rússia é um caso especial de complexidade concentrada em setores intensivos em capital e conhecimento (energia, defesa, aeroespacial), herdada da era soviética e mantida por um Estado rentista financiado por petróleo e gás.
Papel dos salários/dívida: A renda média é sustentada pelos altos salários nestes setores estratégicos e por transferências sociais financiadas pela renda das commodities. O setor de serviços e bens de consumo permanece atrofiado e pouco complexo. O endividamento familiar é relativamente baixo, pois a renda do petróleo permite subsídios e estabilidade econômica, mas com dinamismo ainda insuficiente.
Contraste com o Brasil: Assim como o Brasil, a Rússia é dependente de commodities. A diferença é que as commodities russas (petróleo, gás, armamentos) são produtos de alta complexidade na sua extração e processamento, gerando cadeias especializadas e salários altos para engenheiros e técnicos. O Brasil exporta commodities com menor processamento (minério de ferro, soja em grão) e não investiu o suficiente para agregar complexidade a elas.
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Quebrando o nó brasileiro
O comparativo mostra que não há uma única rota, mas que a bem-sucedida (China) combinou:
- Controle estatal sobre a direção do crédito e do investimento.
- Priorização absoluta ao aumento da capacidade produtiva complexa antes da massificação do consumo via endividamento.
- Uso da poupança interna e não do endividamento externo ou familiar, para financiar a transição.
Para o Brasil, uma estratégia factível de romper o ciclo dívida-baixa complexidade-baixos salários teria que operar em duas frentes simultâneas, uma de curto e outra de longo prazo:
Frente 1 – Alívio imediato e reconstrução do poder de compra (desarmar a bomba da dívida)
- Queda estrutural dos juros básicos: Combater as causas dos juros altos (prêmio de risco fiscal, ineficiência do sistema judicial, spreads bancários elevados). Juros baixos reduzem o custo do crédito produtivo e o serviço da dívida existente.
- Aumento significativo e crescente do salário mínimo e política de renda básica com fortalecimento de programas sociais: Garantir um piso de consumo que não dependa de endividamento, criando uma demanda previsível e de baixa elasticidade para setores essenciais.
- Reestruturação massiva de dívidas: Programas oficiais de renegociação com redução de juros e prazos alongados para dívidas de consumo, focando nas famílias de baixa e média renda. É uma condição sine qua non para liberar renda futura.
Frente 2 – Estratégia de longo prazo: investimento direcionado e demanda induzida
- Crédito direcionado e barato para investimento produtivo: O BNDES e bancos públicos devem financiar prioritariamente projetos que comprovem ganhos de produtividade, inovação, integração em cadeias complexas e compromisso com a capacitação da mão de obra. Desvincular o crédito público do consumo.
- Política de compras governamentais com critérios de complexidade: O Estado, maior comprador do país, deve usar seu poder de demanda para exigir conteúdo tecnológico local, engenharia nacional e formação de fornecedores. Criar um mercado cativo inicial para produtos complexos.
- Parcerias público-privadas em setores-eixo: Identificar 3-4 cadeias onde o Brasil tem potencial geopolítico e tecnológico (ex.: energia verde e hidrogênio; agrotecnologia e bioinsumos; saúde e biotecnologia; defesa e aeroespacial) e criar consórcios de risco compartilhado entre empresas nacionais, EMBRAPII, universidades e o Estado.
- Vínculo entre aumentos salariais e investimento em treinamento: Políticas de valorização salarial (via mínimo ou acordo setorial) devem ser acopladas a programas nacionais de requalificação financiados pelo FAT/Sistema S, preparando a força de trabalho para os empregos mais complexos que se deseja criar.
A complexidade não é um dom, é uma escolha coletiva financiável
A experiência comparada demonstra que a transição para uma economia complexa requer renúncia e direção. A China renunciou ao consumo imediato para investir maciçamente. O Brasil, por décadas, “renunciou” ao investimento em complexidade para financiar consumo via dívida.
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A relação correta entre complexidade e salários não é sequencial (“primeiro A, depois B”), mas sincrônica e mediada por instituições fortes. É um processo de coevolução onde um Estado estrategista usa instrumentos financeiros, de compras e de planejamento para:
- Reduzir o custo da dívida herdada que trava a demanda.
- Canalizar poupança (pública e privada) para investimentos em setores complexos.
- Garantir que os frutos da produtividade futura sejam compartilhados via salários, reforçando o mercado interno.
O desafio brasileiro é, portanto, político e institucional. Será possível construir um pacto social que priorize o investimento na complexidade e na reconstrução do poder de compra, em detrimento do rentismo financeiro de curto prazo e do consumo via endividamento?
A resposta a essa pergunta definirá se seguiremos o caminho da estagnação ou se conseguiremos desatar o nó que nos impede de desenvolver e distribuir riqueza de forma sustentável.
Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.