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    Cultura

    O Agente Secreto não é um filme sobre o passado, mas sobre o presente

    Ambientado na ditadura militar, filme de Kleber Mendonça Filho, revela que o autoritarismo brasileiro não pertence apenas ao passado, mas continua vivo nas estruturas sociais do presente

    POR: Theófilo Rodrigues

    6 min de leitura

    Wagner Moura interpreta Marcelo em cena do filme O Agente Secreto, dentro de uma repartição pública com retrato do presidente da ditadura Ernesto Geisel na parede. Crédito: Divulgação.
    Wagner Moura interpreta Marcelo em cena do filme O Agente Secreto, dentro de uma repartição pública com retrato do presidente da ditadura Ernesto Geisel na parede. Crédito: Divulgação.

    Italo Calvino disse certa vez que o que torna uma obra um clássico é a sua capacidade de falar ao presente. Na perspectiva sociológica de Jeffrey C. Alexander, certas obras podem ser consideradas clássicas por oferecerem uma contribuição singular e duradoura à ciência da sociedade. Se tudo isso é verdade, então O Agente Secreto, do diretor Kleber Mendonça Filho, é um filme que já pode ser considerado um clássico.

    No próximo domingo, 15 de março, ocorre a 98ª edição do Oscar, principal premiação do cinema no mundo. Motivo de orgulho para os brasileiros, O Agente Secreto concorre em quatro categorias: melhor filme, melhor filme internacional, melhor direção de elenco e melhor ator (Wagner Moura). Mas não é esse o ponto que o torna um clássico, e sim a sua sociologia radical.

    Muito se disse sobre o fato de o filme retratar a ditadura civil-militar brasileira. De fato, ele se passa em 1977, momento em que o país era governado pelo ditador Ernesto Geisel cuja fotografia aparece nas paredes das repartições públicas. Mas o filme não é apenas sobre o autoritarismo institucional da ditadura embora ele esteja presente , e sim sobre o autoritarismo social que estrutura a sociedade brasileira. Ao longo de todo o filme somos apresentados a cenas que, infelizmente, ainda fazem parte do nosso cotidiano.

    Dona Sebastiana representada pela carismática Tânia Maria dá um primeiro sinal nessa direção quando diz que o menino Clóvis saiu de casa por não ser “homem” como o pai e o tio queriam. “Clóvis é homem, mas não do jeito que eles querem”, diz Sebastiana. É a homofobia em ação, como nos dias atuais.

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    Quando a sobrinha de Dona Sebastiana, a jovem Geisa, é assassinada pelo noivo, que fica com raiva ao saber que ela conseguiu uma bolsa de estudos na Alemanha, são a misoginia e o feminicídio que aparecem violências que infelizmente continuam presentes no Brasil contemporâneo.

    Quando a filha de uma empregada doméstica morre em um acidente terrível por omissão da patroa, é impossível não lembrar do caso recente do menino Miguel, que morreu em circunstâncias semelhantes em um prédio de luxo no centro do Recife, em 2020. Trata-se do classismo, do desprezo das elites pelos subalternos.

    Quando a polícia para o carro do personagem principal em busca de algum suborno a “caixinha de Carnaval”, nem que seja um maço de cigarros , não é muito diferente do que ainda assistimos nos dias de hoje. O mesmo vale para a cena em que se sugere que o delegado Euclides e sua equipe iriam “desaparecer” com alguns criminosos.

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    O preconceito racial e regional também aparece nas falas do vilão do filme, o empresário Henrique Ghirotti. Mais do que expressar esses preconceitos, porém, o personagem revela as relações íntimas entre o capital e a ditadura. Para quem assiste ao filme e conhece a história brasileira, é inevitável lembrar de Henning Albert Boilesen, presidente do Grupo Ultra e membro da diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que não apenas financiava a repressão do regime, como também gostava de assistir às sessões de tortura de militantes presos. A propósito, o documentário Cidadão Boilesen é imperdível.

    Veja o trailer oficial do filme O Agente Secreto:

    Já em 2015, quando poucos falavam sobre Kleber Mendonça Filho, Leonardo Puglia havia percebido, em sua dissertação de mestrado orientada por Luiz Werneck Vianna, que o cinema de Pernambuco vinha se aproximando de uma posição de confronto em relação ao centro hegemônico. Com forte viés gramsciano e grande fineza sociológica, o trabalho de Puglia revelou bem o longo processo que levou um estado periférico à atual posição de destaque, mesmo diante das pressões exercidas pelas diversas forças desfavoráveis que historicamente caracterizam o campo cinematográfico nacional, marcado até hoje por profundas desigualdades regionais.

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    Mais recentemente tive a oportunidade de me debruçar sobre a tese de doutorado de Marília Tunes, publicada em 2021 na Unicamp. A autora argumenta que o Brasil estaria passando, nas últimas décadas, por um processo de regressão econômica, social, política e cultural. Talvez possamos dizer que, nesse ambiente de regressão, O Agente Secreto constitui uma forma de resistência cultural como também foi Ainda Estou Aqui.

    No fim das contas, o que O Agente Secreto nos lembra é que a história não fica guardada em um museu. Ela continua viva nas estruturas sociais, nos preconceitos e nas violências que atravessam o tempo e reaparecem sob novas formas. É justamente essa capacidade de iluminar o presente por meio da memória que faz do filme mais do que uma obra sobre o passado: faz dele uma obra profundamente enraizada no presente.

    Serviço | O Agente Secreto

    Título: O Agente Secreto
    Título internacional: The Secret Agent
    Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho
    Produção: Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho
    Países: Brasil, França, Alemanha e Países Baixos
    Ano: 2025
    Gênero: Drama político / suspense
    Duração: 161 minutos
    Idioma: Português
    Distribuição no Brasil: Vitrine Filmes
    Elenco principal: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Carlos Francisco, Tânia Maria, Thomás Aquino, Udo Kier
    Sinopse: Ambientado em 1977, durante a ditadura civil-militar brasileira, o filme acompanha Marcelo, um especialista em tecnologia que retorna ao Recife tentando escapar de um passado perigoso e reconstruir sua vida. Ao chegar à cidade em pleno Carnaval, ele descobre que o lugar está longe de ser um refúgio. Entre perseguições, redes clandestinas e tensões políticas, a narrativa revela as contradições e violências de um país marcado pelo autoritarismo.
    Festivais e prêmios
    Estreia mundial no Festival de Cannes 2025, em competição pela Palma de Ouro: Melhor Diretor – Kleber Mendonça Filho (Cannes), Melhor Ator – Wagner Moura (Cannes)
    Prêmio FIPRESCI da crítica internacional
    Prix des Cinémas d’Art et Essai (AFCAE)
    Indicações ao Oscar: melhor filme, filme internacional, direção de elenco e ator.

     


    Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade BrasileiraRemover imagem destacada.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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