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    América Latina

    China e a transição global: o sentido estratégico da coletiva de Wang Yi

    Aos jornalistas, o chanceler chinês expõe a leitura de Pequim sobre a reorganização internacional diante da persistência da lógica hegemonista e da emergência de uma ordem multipolar

    POR: Diego Pautasso

    7 min de leitura

    O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, também membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China, participa de coletiva de imprensa sobre a política externa e as relações internacionais do país à margem da quarta sessão da 14ª Assembleia Popular Nacional (APN), em Pequim, capital da China, em 8 de março de 2026. (Xinhua/Li Xin)
    O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, também membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China, participa de coletiva de imprensa sobre a política externa e as relações internacionais do país à margem da quarta sessão da 14ª Assembleia Popular Nacional (APN), em Pequim, capital da China, em 8 de março de 2026. (Xinhua/Li Xin)

    Entre a hegemonia e a multipolaridade: o que revela a coletiva de Wang Yi 

    A coletiva concedida pelo ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, à margem da Assembleia Popular Nacional de 2026, não foi apenas um balanço diplomático. Foi, sobretudo, uma declaração política sobre a natureza da atual transição sistêmica e os princípios que Pequim reivindica para a reorganização da ordem internacional.

    Em meio a um cenário de guerras regionais, crise da globalização e recrudescimento das disputas geopolíticas, a fala de Wang Yi evidencia um contraste cada vez mais nítido entre duas visões de ordem internacional. De um lado, a persistência de uma lógica hegemonista, centrada no uso da força, no unilateralismo e na preservação de hierarquias herdadas da ordem liberal do pós-Guerra Fria. De outro, a tentativa, ainda em construção, de uma arquitetura internacional mais multipolar, com maior peso político do Sul Global.

    A crítica ao unilateralismo e à política de poder dos Estados Unidos

    Um dos aspectos mais significativos da coletiva foi o modo como Wang Yi enquadrou os conflitos internacionais recentes, especialmente no Oriente Médio. Ao comentar os ataques militares conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o ministro afirmou que “a força não oferece soluções” e reiterou princípios clássicos do direito internacional, tais como respeito à soberania, não intervenção e resolução política de disputas.

    Esse posicionamento contrasta com a prática histórica das potências ocidentais. A liderança euro-estadunidense no sistema internacional foi construída assentada no colonialismo, no imperialismo e na imposição de hierarquias globais de poder. O que assistimos, porém, é uma fragilização do sistema multilateral institucionalizado no pós-Segunda Guerra Mundial, que sustentaria a narrativa da “ordem internacional baseada em regras” apesar da persistência dos mecanismos assimétricos de intervenção e coerção. Sob Trump, efetivamente, assistimos a um inédito desprezo pelas organizações internacionais, combinado a intervenções (Venezuela e Irã), recrudescimento de embargos (Cuba), imposição generalizada de tarifaços unilaterais, entre outros.

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    Ao enfatizar que “a lei da selva não deve governar o mundo”, Wang Yi não apenas critica ações específicas, mas questiona a legitimidade de uma ordem internacional que, embora fundada formalmente no direito internacional, continua marcada pela assimetria de poder. Nesse sentido, a diplomacia chinesa procura se apresentar como defensora de uma ordem baseada em regras multilaterais e no protagonismo das Nações Unidas, uma posição que dialoga diretamente com as demandas de grande parte dos países em desenvolvimento.

    Multipolaridade, Sul Global e reforma da governança global

    Outro eixo central da coletiva foi a defesa explícita de um mundo multipolar. Wang Yi rejeitou a ideia de um sistema internacional organizado por um diretório de grandes potências, como sugerem algumas interpretações sobre um eventual “G2” entre China e Estados Unidos. Segundo ele, a história mundial “sempre foi escrita por muitos países” e o futuro da humanidade dependerá da participação de todos.

    Essa formulação reflete um deslocamento mais amplo em curso na economia política internacional. Nas últimas décadas, a participação dos países do Sul Global na economia mundial cresceu de forma significativa, alterando gradualmente o equilíbrio de poder global. Nesse contexto, iniciativas como os BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai e propostas como a Iniciativa de Governança Global buscam ampliar a representação e a voz dos países em desenvolvimento nos mecanismos de governança internacional.

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    Talvez o elemento mais significativo da coletiva tenha sido a ênfase reiterada no papel do Sul Global. Wang Yi destacou que a participação desses países na economia mundial saltou de cerca de 24% para mais de 40% nas últimas quatro décadas, transformando-os em atores centrais da multipolaridade emergente.

    Mais do que um diagnóstico econômico, trata-se de uma formulação estratégica. Ao afirmar que “o coração da China está no Sul Global”, Pequim busca consolidar sua posição como parceiro privilegiado dos países em desenvolvimento, oferecendo alternativas de cooperação em infraestrutura, comércio e financiamento. A expansão das relações com a África, a América Latina e o Sudeste Asiático, frequentemente mediadas por iniciativas como a Belt and Road Initiative, o Fórum China-CELAC, ASEAN ou FOCAC, insere-se justamente nessa lógica.

    Esse movimento, no entanto, também provoca reações dos Estados Unidos e de seus aliados, que passaram a intensificar esforços para conter ou limitar a influência chinesa em regiões tradicionalmente consideradas parte de sua esfera de influência. A política estadunidense de contenção da China, iniciada com Obama, tem se tornado mais aguda.

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    Uma disputa sobre a forma da ordem internacional

    A coletiva de Wang Yi evidencia que o debate atual não se restringe a rivalidades geopolíticas tradicionais. O que está em jogo é a própria forma da ordem internacional. Enquanto parte do Ocidente busca preservar uma arquitetura institucional que consolidou sua primazia após a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, após o fim da Guerra Fria, a China, acompanhada por diversos países do Sul Global, reivindica uma redistribuição de poder e uma reforma das estruturas de governança global.

    Essa disputa não implica ruptura. A China reafirma seu compromisso com o multilateralismo e com as instituições internacionais, particularmente a ONU. A diferença reside menos na rejeição das regras existentes e mais na tentativa de redefinir quem participa da elaboração dessas regras.

    Nesse sentido, a coletiva de Wang Yi pode ser interpretada como expressão de um processo mais amplo de transição sistêmica. A ascensão econômica e tecnológica da China, combinada com o crescimento relativo do Sul Global, está alterando gradualmente a correlação de forças no sistema internacional.

    A fala do chanceler chinês sugere que Pequim pretende disputar essa transição não apenas por meio de capacidades econômicas ou tecnológicas, mas também através de uma narrativa alternativa sobre governança global, desenvolvimento e cooperação internacional. Se não está claro qual forma irá assumir o sistema internacional, o que parece cada vez mais evidente, contudo, é que vivenciamos uma inflexão histórica. As demonstrações de força dos Estados Unidos expressam os riscos e a urgência da construção de alternativas sistêmicas.


    Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política e graduado em Geografia pela UFRGS. É professor do Colégio Militar de Porto Alegre, co-criador do projeto de difusão científica @fiosdechina (Instagram) e diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach). Autor dos livros Imperialismo  ainda faz sentido na Era da Globalização?; A China Atual No Legado De Mao Tsé-tung; e China e Rússia no Pós-Guerra Fria, bem como co-autor de A China e a Nova Rota da Seda; Teoria das Relações Internacionais: contribuições marxistas; e de Domenico Losurdo: crítico do nosso tempo. E-mail: [email protected]

    *Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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