No dia 14 de março de 1883, Karl Marx faleceu em Londres em decorrência de complicações de bronquite e pleurisia. Ele tinha 64 anos.
No dia 14 de março de 2018, Marielle Franco foi assassinada no Rio de Janeiro. Ela tinha 38 anos.
Marx e Marielle estão separados por cerca de cem anos e por um oceano Atlântico de distância.
Embora tenha morrido já com uma idade relativamente avançada, Karl Marx ainda tinha muito por produzir. Sua obra magna, O Capital, teve apenas o Livro I publicado enquanto ele estava vivo. Os dois outros livros foram organizados e publicados postumamente por seu fiel companheiro de vida, Friedrich Engels. Para ficarmos em apenas um exemplo de como Marx ainda tinha muito por fazer, o último capítulo do Livro III de O Capital, intitulado “As classes”, possui apenas duas páginas e termina com a seguinte observação de Engels: “aqui se interrompe o manuscrito”. Ah, se Marx tivesse concluído esse capítulo!
Diferentemente de Marx, a vida de Marielle lhe foi arrancada pelo que há de pior na política brasileira. Mas, assim como Marx, ela também ainda tinha muito por fazer. Naquele ano em que foi assassinada, provavelmente seria eleita senadora pelo Rio de Janeiro. Sua trajetória política – no sentido institucional do termo – estava apenas começando. Poderíamos até mesmo imaginar um futuro possível em que o Brasil tivesse uma mulher negra, homossexual e periférica como sua governante. Ah, se Marielle fosse nossa presidenta!
Os dois lutavam pelas mesmas causas. O famoso capítulo 8 do Livro I de O Capital é aquele em que Marx trata da luta histórica dos trabalhadores pela redução da jornada de trabalho. Marielle, se estivesse viva, provavelmente estaria hoje liderando a luta pelo fim da escala 6×1 no Brasil.
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No discurso proferido diante do túmulo do amigo, no cemitério de Highgate, Engels declarou: “A 14 de março, um quarto para as três da tarde, o maior pensador vivo deixou de pensar. […] Morreu honrado, amado e chorado por milhões de companheiros operários revolucionários, que vivem desde as minas da Sibéria, ao longo de toda a Europa e América, até à Califórnia; […] O seu nome continuará a viver pelos séculos, e a sua obra também”.
O velório de Marielle reuniu milhares de pessoas na Cinelândia, tradicional ponto de encontro dos comícios da esquerda carioca. “Hoje vi que tudo aquilo que você fez virou referência no mundo”, declarou Marcelo Freixo no enterro da amiga.
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Essas são algumas lembranças que todo 14 de março nos traz. Lembranças que também nos fazem seguir em frente, com a certeza de que dias melhores virão.
Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade BrasileiraRemover imagem destacada.
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