Existe uma relação antiga entre leitura e poder. Quem tem acesso aos livros aprende a interpretar o mundo; quem não tem depende da interpretação de outros. Por isso, a desigualdade de acesso à leitura nunca é apenas cultural, ela é política.
O Brasil convive há séculos com essa desigualdade. O livro sempre circulou de forma restrita, concentrado em determinados grupos sociais e regiões do país. Mesmo hoje, em pleno século XXI, grande parte da população cresce sem bibliotecas próximas, sem livrarias acessíveis e sem políticas permanentes de estímulo à leitura. O resultado é um país que produz cultura, mas distribui de forma desigual o acesso a ela.
Essa desigualdade começa cedo. Em muitas casas, livros fazem parte do cotidiano desde a infância. Em outras, o primeiro contato real com a leitura acontece tarde, quase sempre limitado ao espaço escolar. Não se trata de talento ou de interesse individual. Trata-se de acesso. Onde existem livros, leitores surgem. Onde os livros não chegam, o hábito de leitura dificilmente se forma.
Essa diferença tem consequências profundas. A leitura não é apenas entretenimento ou acúmulo de informação. Ela desenvolve interpretação, imaginação e pensamento crítico. Um leitor aprende a comparar ideias, questionar narrativas e construir argumentos. Em outras palavras, aprende a pensar por conta própria.
Quando o acesso ao livro é desigual, o acesso ao pensamento crítico também se torna desigual. E sociedades que concentram pensamento crítico em poucos grupos concentram também poder. A desigualdade cultural se transforma, lentamente, em desigualdade política.
Por isso é ilusório tratar a leitura apenas como uma questão de gosto pessoal. Não se trata de preferências individuais. Trata-se de infraestrutura cultural. Bibliotecas, programas de leitura, circulação de livros e formação de mediadores são instrumentos concretos para reduzir uma desigualdade histórica.
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Livros não chegam sozinhos às comunidades. Eles chegam por meio de políticas públicas e por meio de pessoas que acreditam no poder da leitura. Professores, bibliotecários, educadores e jovens mediadores são agentes centrais desse processo. Quando comunidades organizam rodas de leitura, clubes literários e projetos culturais, algo importante acontece: o livro deixa de ser um objeto distante e passa a fazer parte da vida cotidiana.
leituraleiutraEsse movimento tem um efeito multiplicador. Um jovem que descobre a leitura tende a se tornar referência para outros. A experiência de ler deixa de ser solitária e passa a circular socialmente. Aos poucos, formam-se comunidades leitoras.
A democratização da leitura também fortalece a própria cultura brasileira. Mais leitores significam mais espaço para autores, editoras independentes e projetos literários locais. Um país que amplia seu público leitor amplia também sua produção cultural e intelectual.
No fundo, a questão é simples. Não existe democracia forte onde o acesso ao conhecimento é restrito. A circulação de ideias depende da circulação de livros. Quando os livros chegam a mais pessoas, a sociedade se torna mais crítica, mais informada e mais capaz de participar das decisões coletivas.
Promover a leitura, portanto, não é um gesto simbólico. É uma escolha política sobre o tipo de país que queremos construir. Um país onde poucos interpretam o mundo por todos ou um país onde cada cidadão tem ferramentas para pensar por si mesmo.
A leitura talvez seja uma das formas mais silenciosas de transformação social. Um livro nas mãos certas pode mudar uma vida. Milhares de livros circulando podem mudar uma geração inteira.
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Edson Santana é escritor, carioca, vascaíno e comunista. Integrou o comitê de construção do Plano Municipal do Livro do Rio de Janeiro (RJ) e é autor do livro de poemas Amar, Desamar e Odiar.