Você pode não saber o que é estigma por associação, mas os jornalões e a Faria Lima sabem: daí o “01” virou só Flávio e, se apertar, “Flavinho”.
Em sociologia e psicologia social, o “estigma por associação” (stigma by association ou courtesy stigma) é a marca moral e social que recai não só sobre o autor do crime ou do horror histórico, mas também sobre quem carrega o sobrenome, o vínculo familiar. A literatura científica também fala em “affiliate stigma”.
Há sobrenomes que funcionam como herança, e outros como sentença, pelo menos para os olhares mais críticos e comprometidos com a verdade.
Filhos de ditadores, de criminosos históricos ou de homens que se tornaram símbolos do mal muitas vezes abandonam o nome de família e buscam ser apenas “João” ou “José”. O sobrenome, que serve para ligar alguém a uma linhagem, nesses casos, passa a operar como estigma.
Junte-se isso ao jeitinho brasileiro, ao brasileirismo cordial, onde o uso de “inho”, ou chamar apenas pelo primeiro nome, deixa todo mundo muito amigo. E pronto!
Ser filho de Bolsonaro não te torna um, a menos que você compartilhe as ideias do funesto pai, que é o caso.
A imprensa brasileira, os jornalões e a Faria Lima resolveram que Flávio é só Flávio, talvez um Flavinho, algo mais fofo, se a coisa apertar. Mas o sobrenome… ah, deixa para lá. Esquece isso.
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Bibliografia
GOFFMAN, Erving. Stigma: notes on the management of spoiled identity. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1963.
CORRIGAN, Patrick W.; MILLER, Frederick E. Shame, blame, and contamination: a review of the impact of mental illness stigma on family members. Journal of Mental Health, 2004.
ČOLIĆ, Marijana et al. Clarification of stigma concepts in research with families of people with mental illness: a conceptual analysis, 2021.
ROSENTHAL, Gabriele (org.). The Holocaust in three generations: families of victims and perpetrators of the Nazi regime. Opladen / Farmington Hills: Barbara Budrich, 2010.
WELZER, Harald; MOLLER, Sabine; TSCHUGGNALL, Karoline. “Opa war kein Nazi”: Nationalsozialismus und Holocaust im Familiengedächtnis. Frankfurt am Main: Fischer, 2002.
Táki Athanássios Cordás é Coordenador da Equipe Multiprofissional de Assistência do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP. Coordenador do Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM) do IPQ-HCFMUSP. Prof. dos Programas de Pós-Graduação do Departamento de Psiquiatria da USP, do Programa de Neurociências e Comportamento do Instituto de Psicologia da USP e do Programa de Fisiopatologia Experimental da FMUSP. Pós-Graduação (latu-sensu) em Filosofia (PUC-RS).
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.