A Fundação Maurício Grabois deu início à atualização do Programa Socialista do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) com o seminário Brasil 40 anos – Estudos sobre a Formação Econômico-Social Brasileira. Promovido de forma virtual para integrantes do Comitê Central do PCdoB entre os dias 24 de fevereiro e 5 de março, a íntegra dos debates está disponível no canal da TV Grabois.
O eixo dos debates foi a tese de doutorado Brasil: um país sem destino?, de Marília Tunes Mazon, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2021 sob a orientação de Denis Maracci Gimenez. A partir de uma visão histórico-estrutural, a tese defende que os últimos 40 anos corresponderam a um período de forte regressão econômica, social, cultural e política, “se comparado ao período nacional-desenvolvimentista” e aponta que o Brasil caminhou para um processo de de-civilização, marcado pelo aumento da violência, acirramento dos conflitos sociais e rebaixamento da cultura e das artes.
A Regressão Econômica
O debate que inaugura o seminário teve como ponto de partida o Capítulo 3 da tese de Marília Mazon: “Um retrato da economia brasileira atual”, que aborda a reprimarização, o atraso tecnológico, a regressão do sistema industrial, a dominação da finança e sua lógica de valorização do capital que levam à tendência da estagnação secular do Brasil. “Como superar esse cenário?” é a pergunta que guia a discussão.
Abertura: Walter Sorrentino
Mediação: Iago Montalvão
Capítulo 3: Diogo Santos
Capítulo 3: Flávia Calé
Intervenções: Marcelo Fernandes, Rubens Diniz, Jandira Feghali e Sérgio Cruz
A Regressão Social
O segundo dia de debates abordou os capítulos 4: “Os Pobres do Brasil Contemporâneo” e 5: “Os Ricos do Brasil Contemporâneo” que analisam quem são e como vivem esses dois extremos da sociedade brasileira. Em entrevista ao Portal Grabois, Marília Tunes Mazon explica que a regressão industrial, a financeirização e a centralidade do setor primário exportador reorganizaram o topo da pirâmide social brasileira. Com as transformações ocorridas no país nos últimos 40 anos, “a riqueza deixou de estar vinculada à expansão produtiva, passando a girar em torno da valorização de ativos, da exportação de commodities e da intermediação financeira”, explica Mazon. Ela ressalta que o crescimento do número de bilionários brasileiros que figuram na lista da Forbes “não é sinônimo de prosperidade, mas expressão de um modelo rentista”.
“O bilionário contemporâneo não é, em geral, o industrial que constrói fábricas, mas o controlador de ativos que extrai dividendos. Seus interesses tendem a ser financeiros e cosmopolitas, pouco conectados a um projeto nacional de desenvolvimento. No fundo, o retrato dos super-ricos é a radiografia da própria regressão estrutural do país”, afirma.
Mediação: Carolina Maria Ruy
Capítulo 4: Daniele Costa
Capítulo 5: Theófilo Rodrigues
Intervenções: Nivaldo Santana, Gustavo Petta, Paulo Gracino, Jorge Venâncio e Julieta Palmeira
A Regressão Cultural e Política
Nessa apresentação foram abordados os capítulos de 6 a 10, que compõem a terceira parte da tese. O ponto de partida dessa discussão são os retrocessos que o país sofreu em relação à “revolução cultural”, definição de Antonio Candido para o processo vivenciado pelo país após a Revolução de 1930, com o surgimento de um vigoroso movimento cultural que abrangia tanto as artes eruditas como as populares. Na entrevista ao Portal Grabois, Mazon destaca como a regressão cultural do país foi impulsionada pela concentração dos meios de comunicação nas mãos de empresas privadas, tendo como principal expoente a Rede Globo, e agravada sob a influência das Big Techs. “Se a concentração das mídias tradicionais já tinha efeito deletério sobre a formação da opinião pública, as novas mídias agravaram o problema pelo seu alcance e poder de penetração, operando sobre uma massa de indivíduos cada vez mais isolados e vulneráveis à manipulação simbólica. O resultado é o que denomino processo de de-civilização: a regressão econômica, aprofundada por décadas de neoliberalismo, encontra seu correlato na dissolução das referências culturais comuns, na mercantilização da vida social e na subordinação da esfera pública à lógica do dinheiro”, destaca.
Mediação: Manoel Rangel
Capítulos 6, 7 e 8: André Tokarski
Capítulos 9 e 10: Cristiano Capovilla
Intervenções: Aldo Arantes, Madalena Guasco, Carlos Lopes, Renata Mielli, Fábio Palácio e Luana Bonone
A Sociedade Fraturada
O painel que encerra o Seminário Brasil 40 anos traz a autora da tese para fazer o fechamento dos debates em diálogo com o professor de Economia da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzo.
Coordenação: Sérgio Barroso
Mediação: Walter Sorrentino
Intervenções: Marília Tunes Mazon e Ana Prestes