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    Economia

    Guerra no Irã, petróleo e crise energética: choque de preços no mercado global

    Iranianos respondem a ataques de EUA e Israel com medidas que afetam o transporte global de petróleo. O bloqueio no Estreito de Ormuz produz efeitos econômicos comparáveis aos de um embargo, instrumento recorrente de pressão geopolítica.

    POR: Luís Eduardo Duque Dutra

    15 min de leitura

    Plataforma petrolífera iraniana em chamas após ataque da Marinha dos EUA no Golfo Pérsico em 1988. Foto: PH3 Henry Cleveland / U.S. Navy (domínio público)
    Plataforma petrolífera iraniana em chamas após ataque da Marinha dos EUA no Golfo Pérsico em 1988. Foto: PH3 Henry Cleveland / U.S. Navy (domínio público)

    A aliança israelo-estadunidense contra o Irã e o resto do mundo

    Às portas de uma crise econômica em razão da escalada do conflito militar iniciado em 28 de fevereiro, cabe perguntar até onde pode chegar a guerra desencadeada pelos ataques ao Irã. Em poucas semanas, o confronto deixou de ser regional e passou a afetar diretamente a logística energética mundial, com impactos imediatos sobre preços, cadeias produtivas e o funcionamento da economia global. Este primeiro artigo analisa o caráter sistêmico do conflito e suas consequências iniciais para o mercado internacional de petróleo e gás. No próximo texto, serão examinados os efeitos mais amplos da guerra sobre a dinâmica macroeconômica, a transição energética e o cenário geopolítico internacional.

    O conflito não é periférico, nem é somente regional

    O ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irã trouxe de volta imagens do século passado que, de tão antigas, não estão gravadas na memória de quem tem menos de cinquenta anos. A Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a derrubada do Xá do Irã, em 1979, deram início às duas crises que selaram os trinta anos de prosperidade do pós-guerra. Foi a primeira vez que o petróleo serviu de arma de guerra na confrontação entre nações periféricas e hegemônicas. Embargos ao fornecimento e aumentos de preço do barril foram usados por persas, árabes, venezuelanos e indonésios para paralisarem os aliados de Israel e dos EUA. Na primeira vez, o preço quadruplicou, na segunda, ele mais que dobrou.

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    Nas televisões à época, as cenas eram como as de hoje: no Oriente Médio, a destruição massiva causada pelas bombas, os tanques de guerra avançando sem parar sobre todos e tudo, além de tropas armadas até os dentes. Nos países importadores, gigantescas filas de carros e motos, preço dos combustíveis em forte alta, uso das reservas estratégicas (a Agência Internacional de Energia foi criada em 1974 para organizar a resposta à OPEP), refinarias paradas por falta de matéria-prima e, por fim, o racionamento puro e simples. Em termos de planejamento energético, a lembrança leva a duas constatações: primeiro, a dependência ao petróleo permanece e, segundo, a novidade que é a relevância do gás natural liquefeito e não só do gás natural.

    A decisão de iniciar a guerra foi tomada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, em demonstração de absoluto descaso com o direito internacional. Veio na esteira da Guerra dos Doze Dias, entre 13 e 24 de junho de 2025, na qual Israel procurou acabar com o programa nuclear iraniano e do surpreendente sequestro de Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, em 3 de janeiro passado. O relativo sucesso e a limitada repercussão das duas agressões podem ser creditados ao meticuloso preparo de ambas, o que faltou de forma flagrante na guerra em andamento, de acordo com a maioria das análises. A História e a Geografia foram inteiramente ignoradas: as últimas grandes guerras travadas pelo país foram incursões em países como Coreia, Vietnã, Iraque e Afeganistão. São nações de dimensões e tradições regionais que não se comparam à Civilização Persa e ao papel do Irã até hoje. Ademais, nestas guerras assimétricas, a disparidade militar não bastou para assegurar a vitória incontestável da força hegemônica; bem ao contrário.

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    No presente conflito, a velocidade e a intensidade da reação do Irã, a primordial assistência da inteligência russa e chinesa para tanto, os ataques às bases militares estadunidenses em países vizinhos e o vasto arsenal iraniano composto de mísseis balísticos e drones eram certamente conhecidos pelos militares. O pouco-caso em relação à competência de seus generais foi então notável, quando Donald Trump ignorou a possibilidade do Estreito de Ormuz ser fechado. Não seria a primeira vez, aconteceu durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), no segundo choque do petróleo e, faz pouco, algo semelhante ocorreu durante a Guerra dos Doze Dias, quando os Houthis, aliados dos iranianos, atacaram embarcações no Mar Vermelho.

    A mais elementar análise da logística de transporte marítimo apontará dois acidentes geográficos no Oriente Médio: o Estreito de Ormuz, por onde transitam um quinto do petróleo e um quinto do gás natural liquefeito exportados no mundo e o Estreito de Bab al-Mandab, à entrada do Mar Vermelho e que dá acesso ao canal de Suez. Nesta última via, embora fretes e seguros já tenham disparado, não houve bloqueio à navegação. Contudo, no Estreito de Ormuz, em 20 de março, contavam-se cerca de 400 navios-tanques à espera de permissão para atravessar. Somente foi escoada a produção iraniana e algumas poucas embarcações destinadas aos mercados chineses, paquistaneses e indianos. É uma versão atualizada do embargo feito no primeiro choque de petróleo e tão eficiente quanto, uma vez que a ação se concentra em apenas um ponto e é conduzida por um único país. Não resta dúvida, o estrangulamento super seletivo do Estreito tem um impacto econômico comparável a um embargo.

    No mapa, linhas pontilhadas indicam fronteiras nacionais, a linha azul tracejada marca limites marítimos e as setas mostram as rotas de navegação de navios-tanque que transportam petróleo pelo Estreito de Ormuz. Crédito: Goran_tek-en / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

    Breve síntese de vinte dias de guerra

    Os superlativos não faltam: em décadas, é a maior guerra que o Oriente Médio experimentou, assim como é, em décadas, a maior ruptura da logística do transporte marítimo mundial. Na história, é a maior crise que os países do Golfo Pérsico enfrentaram, interrompendo o duradouro boom iniciado na década de 1970. Também na história, para mitigar o impacto no preço, é a maior liberação de reservas estratégicas já feita em conjunto por países importadores: 409 milhões de barris; menos de quatro dias do consumo mundial, ou aproximadamente vinte dias do petróleo movimentado pelo Estreito. Cabe colocar ainda: é a primeira grande guerra em uma economia mundial inteiramente globalizada.

    Depois da pandemia, não se previa tamanha restrição à circulação das pessoas, ao comércio de mercadorias e ao bom funcionamento das cadeias produtivas. O grande capital multinacional está sendo submetido a interrupções operacionais inesperadas, enfrenta rupturas no abastecimento e escoamento, bem como enormes incertezas para sua futura reprodução. A continuação da guerra com a escalada militar do conflito não pode ser descartada e, portanto, a esta altura, o cenário de agravamento do conflito é aquele mais provável, ou ainda, o que melhor antevê as ameaças.

    Com vinte dias de conflito, os desdobramentos se multiplicaram e ampliaram o alcance da guerra. Além dos alvos militares e do bloqueio do Estreito, foram visadas instalações petrolíferas em toda região. As petroleiras estatais como a Aramco, ADNOC, KPC e QPC suspenderam a maioria das operações. A entrada do Golfo Pérsico é um gargalo logístico crítico para os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita e Iraque. Cálculos da Rystad (empresa de consultoria norueguesa) indicam que cerca de 9 milhões de barris por dia não estão sendo escoados com o bloqueio. Grosso modo, a capacidade de produção dos cinco países soma 25 milhões de bpd, sendo que 5 milhões estavam ociosos antes da guerra.

    Observe que não existem alternativas. Na Arábia Saudita, a saída é o gasoduto de Yanbu em direção ao Mar Vermelho, mas ele possui uma capacidade limitada a 6 milhões de bpd e, atualmente, movimenta cerca de 4 milhões de bpd. Nos Emirados Árabes Unidos, um segundo duto dispõe de três vezes menos capacidade, aproximadamente 1,8 milhões de bpd e leva ao porto de Fujairah, fora do Estreito. Ocorre, porém, que ele já foi alvo de alguns ataques iranianos. Por fim, no Iraque existe um oleoduto bem menor entre Kirkuk e Ceyhan (porto turco) que movimenta apenas 200 mil bpd. Praticamente toda a exportação do país, quase 5 milhões de bpd em média, passa pelo Golfo Pérsico.

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    Em resumo, considerando os cinco países anteriormente citados às margens do Golfo Pérsico, a produção soma 21 milhões de barris por dia, o consumo doméstico é 6 milhões de bpd e 15 milhões de bpd são exportados (em números aproximados). Destes, devido ao bloqueio, como foi colocado, 9 milhões não estão sendo escoados, ou 60% das exportações, o que dá bem a medida das perdas. Enquanto na costa do Mediterrâneo, Israel abriu um segundo front avançando sobre o Líbano, o Irã conseguiu estender o conflito para os países vizinhos. Em 13 de março, o Financial Times registrava que um quinto dos navios-tanque tinham sido atingidos pela Guarda Revolucionária Iraniana e que, ao todo, dezoito embarcações comerciais tinham sido danificadas. Diante da disparidade do poder militar, a extensão geográfica e o prolongamento da conflagração parecem favorecer o Irã.

    O preço do barril de petróleo superou cem dólares e, nos piores cenários de guerra, as projeções apostam em preços entre US$ 135 e US$ 150 por barril. Comparado ao preço médio de 2025, em torno de US$ 65 por barril, por enquanto, o aumento foi de 55%, mas pode chegar ao dobro em curto prazo. Dois setores serão os primeiros a suportar o choque de oferta: por um lado, o transporte, tanto aeroviário, quanto rodoviário, em razão do preço dos combustíveis e, por outro, a transformação petroquímica, em razão do preço da nafta, do etano e do GLP (propano e butano). O consumo das famílias também é fortemente impactado devido ao uso do GLP nas residências e em razão da importância do gás natural para gerar eletricidade na Europa, Japão e Coreia. Nos dois últimos, o gás natural liquefeito, GNL, é essencial; em especial aquele exportado pelo Qatar através do Estreito.

    Entre os segmentos atingidos, cabe destacar os fertilizantes em função dos efeitos em cascata nas cadeias agropecuárias. Em 13 de março, produzida a partir do gás natural e matéria-prima para fabricação de fertilizantes, o preço da ureia alcançou US$ 700 por tonelada; um acréscimo de 45% frente ao preço da semana anterior. O The Wall Street Journal, em 13 de março último, afirmou que os agricultores do Meio-Oeste estavam comprando fertilizantes 30% mais caros, a despeito da guerra ter começado a menos de quinze dias e ocorrer a milhares de quilômetros das plantações. De qualquer modo, os preços da soja e do milho já tinham subido na bolsa de Chicago. Não faltam exemplos de choques e rupturas nas cadeias produtivas pelo mundo afora. O dióxido de enxofre é outro insumo para a fabricação de fertilizantes, sendo o destino de seis décimos de sua produção. Ora, metade do que é exportado, também é escoado pelo Estreito de Ormuz. O ácido sulfídrico é indispensável à produção do cobre, mineral estratégico para a indústria elétrica e eletrônica. O maior produtor de cobre do mundo é o Congo. O país importa todo o ácido que usa de países banhados pelo Golfo Pérsico. Enfim, um derradeiro exemplo, agora do segmento de gases industriais: um terço do hélio tem origem nesta mesma região. Ele é essencial para “resfriar” a fabricação de semicondutores.

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    Como se constata, o impacto inflacionário decorre da natureza ubíqua dos hidrocarbonetos e de sua importância para a química, que também possui natureza ubíqua. Depois de criada, a substância química se espalha e toma distância do criador. Ao final, ela está em todos os lugares, em tudo e ao mesmo tempo. A ruptura do fluxo, a montante, impacta a todos. O estrangulamento do comércio à altura do Estreito de Ormuz reduz em 9 milhões de barris por dia as exportações da OPEP, que somaram 20 milhões de bpd em média no ano passado. No preço do barril, o impacto do corte de quase metade destas, fez ele sair de US$ 60 e ultrapassar US$ 100 por barril. Quanto ao GNL, entre 28 de fevereiro e 17 de março, naquele mercado mais dependente das importações do Golfo Pérsico, o preço Japan-Korean Market, JKM, saltou de US$ 11,5 para US$ 20,5 por milhão de Btu; ou seja, praticamente dobrou. Na Europa, o movimento de preço do gás não ficou muito atrás.

    Mesmo terminando amanhã, o choque gerado pela guerra terá significativas repercussões no médio e longo prazo para a indústria de hidrocarbonetos e de energia. Foi mencionado que as alternativas são muito limitadas e só permitem aos países da região escoarem pouco mais de um terço do volume exportado em fevereiro, entre 6 e 6,5 milhões de barris por dia em média. A capacidade ociosa, que somava 5 milhões de bpd, em 25 milhões bpd de capacidade total, desfez-se quase subitamente, bastaram quinze dias de conflito. E, considerando apenas os danos causados aos ativos petrolíferos até aqui, demandará mais do que alguns meses a recuperação da capacidade de produção, armazenamento e escoamento anterior. Antes, contudo, sem paz, ao menos, será preciso baixar as armas.

    Além disso, com a guerra, o lado negativo de recentes mudanças estruturais na oferta acabou revelado. Desenvolvidos logo após o fim da II Guerra Mundial, os gigantescos campos em terra chegaram, ou estão chegando, à maturidade. Eles fizeram a fortuna dos países da região. A reposição está sendo realizada com o desenvolvimento de reservas de petróleo sob as águas do Golfo Pérsico e pela produção e liquefação de gás natural em enormes instalações fabris que abastecem navios-metaneiros. Atualmente, um terço da produção saudita vem de reservas offshore e quatro quintos das receitas de exportação do Catar derivam do gás natural. No caso da Aramco, os campos de Marjan, Berril e Zuluf serão aqueles que responderão pelo aumento da produção de óleo por vir e todos estão localizados no mar.

    Quanto ao gás, com os megaprojetos em andamento e em carteira, Tanajib, Fadihili e Jafurah, a estatal saudita visa produzir um pouco mais de 16 bilhões de pés cúbicos por ano em 2030. Em 2021, a produção foi de 9 bilhões de pés cúbicos, o que significará um aumento de 80% na presente década. A maior novidade é a natureza não convencional da extração de Jafurah, onde uma estrutura produtiva complexa e diferenciada, em 2030, deverá escoar 2 bilhões de pés cúbicos de metano, 400 milhões de pés cúbicos de etano e mais de 600 mil barris por dia de pentano, ou condensado de gás. A sumária descrição anterior já indica que a atividade offshore e a megaescala dos projetos de gás trazem novos desafios à indústria, em especial, no que diz respeito à segurança operacional e ao risco geopolítico. Nem as questões de segurança nem de risco são desconhecidas, contudo, em decorrência da ascensão do offshore e da liquefação do gás, a guerra apontou novas ameaças e vulnerabilidades.

    No próximo artigo, texto vai examinar os efeitos mais profundos da guerra sobre a economia mundial, a transição energética e o cenário geopolítico internacional.

    Referências

    CHEVALIER, Jean-Marie (2004). Les grandes batailles de l’énergie : petit traité d’une économie violente. Paris: Gallimard. 

    DUTRA, Luís Eduardo Duque (2019). Capital petróleo: a saga da indústria entre guerras, crises e ciclos. Rio de Janeiro: Ed. Garamond.

    MARX, Karl (1867,1883 et 1884), Le capital. Moscou : Editions du Progrès (ed. francesa de 1982).

    RICARDO, David (1821), On the principles of political and taxation. Cambridge: Cambridge Univerty Press (ed. de 1951).

    SMIL, Vaclav (2017). Energy and civilization: An History. Cambridge, MA: MIT Press,.

    SMITH, Adam (1776), An inquiry into the nature and causes of the wealth of nations. Londres: Deut (ed. de 1910).

    YERGIN, Daniel (1991). The prize: the epic quest for oil, money, and power. New York: Penguin Group.


    Luís Eduardo Duque Dutra é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Paris-Nord e professor associado da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião da Fundação Maurício Grabois.