Nós aprendemos, ao longo da história, a condenar as guerras. Pelo menos era assim que fazíamos. Durante muito tempo, existiu uma espécie de consenso moral: a guerra era vista como uma tragédia humana evidente, algo que deveria ser evitado sempre que possível.
Ela deixava ruínas, cidades destruídas e pessoas mortas. Era barulhenta, visível, escandalosa. A violência da guerra se impunha aos olhos e à consciência coletiva.
Hoje, no entanto, esse consenso parece menos claro. Surge uma pergunta desconfortável:
E quando o sofrimento humano é produzido de forma silenciosa?
Quando ele ocorre sem bombas, sem tanques e sem batalhas, mas produz consequências semelhantes às de uma guerra?
Um estudo recente publicado na revista The Lancet Global Health, intitulado “Effects of international sanctions on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis” (“Efeitos das sanções internacionais sobre a mortalidade por faixa etária: uma análise comparativa entre países”, em tradução livre), procurou medir justamente uma dessas situações: o impacto das sanções econômicas internacionais sobre a mortalidade das populações.
Os pesquisadores analisaram mais de cinquenta anos de dados, abrangendo 152 países, no período entre 1971 e 2021. Utilizando métodos estatísticos sofisticados, eles investigaram se existe uma relação entre a imposição de sanções econômicas e o aumento das mortes nesses países.
Os resultados são perturbadores.
Segundo o estudo, sanções econômicas estão associadas a um aumento significativo da mortalidade nas populações atingidas.
E quem sofre mais não são os governantes ou as elites políticas.
São os mais vulneráveis.
Crianças pequenas.
Idosos.
Pessoas doentes que dependem de sistemas de saúde frágeis.
O estudo estima que essas sanções estejam associadas a cerca de 560 mil mortes por ano no mundo.
Isso ocorre porque sanções econômicas frequentemente afetam dimensões muito concretas da vida cotidiana. Elas podem limitar a capacidade dos países de importar bens essenciais, reduzir receitas públicas e dificultar o funcionamento de serviços básicos.
Na prática, isso significa menos acesso a:
- medicamentos,
- equipamentos médicos,
- alimentos,
- água potável,
- e financiamento adequado para os sistemas de saúde.
Os pesquisadores também observaram que os efeitos mais fortes aparecem nas sanções econômicas unilaterais, particularmente aquelas impostas por grandes potências econômicas — entre elas, de maneira destacada, os Estados Unidos da América.
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O impacto dessas medidas recai sobretudo sobre populações civis que pouco ou nada têm a ver com as decisões políticas de seus governos.
Cuba é um dos exemplos mais gritantes dessa guerra suja.
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Talvez por isso alguns pensadores tenham levantado uma ideia inquietante: certas decisões políticas podem produzir consequências humanas tão devastadoras quanto as guerras.
A dominação de um país, afinal, nem sempre se faz apenas com exércitos ou batalhas. Em alguns casos, ela pode ocorrer de forma muito mais silenciosa — por meio de pressões econômicas que, lentamente, deterioram as condições de vida de uma população inteira.
E assim, enquanto a guerra continua sendo reconhecida como tragédia evidente, outras formas de violência coletiva podem permanecer quase invisíveis.
Talvez o verdadeiro desafio moral do nosso tempo seja reaprender a reconhecer também essas guerras silenciosas.
Referência
Rodríguez F, Rendón S, Weisbrot M.
Effects of international sanctions on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis.
The Lancet Global Health. 2025
Táki Athanássios Cordás é Coordenador da Equipe Multiprofissional de Assistência do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP. Coordenador do Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM) do IPQ-HCFMUSP. Prof. dos Programas de Pós-Graduação do Departamento de Psiquiatria da USP, do Programa de Neurociências e Comportamento do Instituto de Psicologia da USP e do Programa de Fisiopatologia Experimental da FMUSP. Pós-Graduação (lato sensu) em Filosofia (PUC-RS).
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.