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    Internacional

    Sanções econômicas podem custar centenas de milhares de vidas

    Estudo internacional aponta aumento expressivo de mortes associado a medidas econômicas que afetam diretamente populações vulneráveis e sistemas de saúde

    POR: Táki Cordás

    4 min de leitura

    Havana, em 23 de fevereiro de 2026. Cuba enfrenta escassez de alimentos, apagões e outras dificuldades econômicas que afetam o cotidiano da população, em um contexto marcado por restrições de abastecimento decorrentes das sanções impostas pelos Estados Unidos. Foto: Xinhua/Joaquín Hernández
    Havana, em 23 de fevereiro de 2026. Cuba enfrenta escassez de alimentos, apagões e outras dificuldades econômicas que afetam o cotidiano da população, em um contexto marcado por restrições de abastecimento decorrentes das sanções impostas pelos Estados Unidos. Foto: Xinhua/Joaquín Hernández

    Nós aprendemos, ao longo da história, a condenar as guerras. Pelo menos era assim que fazíamos. Durante muito tempo, existiu uma espécie de consenso moral: a guerra era vista como uma tragédia humana evidente, algo que deveria ser evitado sempre que possível.

    Ela deixava ruínas, cidades destruídas e pessoas mortas. Era barulhenta, visível, escandalosa. A violência da guerra se impunha aos olhos e à consciência coletiva.

    Hoje, no entanto, esse consenso parece menos claro. Surge uma pergunta desconfortável:

    E quando o sofrimento humano é produzido de forma silenciosa?

    Quando ele ocorre sem bombas, sem tanques e sem batalhas, mas produz consequências semelhantes às de uma guerra?

    Um estudo recente publicado na revista The Lancet Global Health, intitulado “Effects of international sanctions on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis” (“Efeitos das sanções internacionais sobre a mortalidade por faixa etária: uma análise comparativa entre países”, em tradução livre), procurou medir justamente uma dessas situações: o impacto das sanções econômicas internacionais sobre a mortalidade das populações.

    Os pesquisadores analisaram mais de cinquenta anos de dados, abrangendo 152 países, no período entre 1971 e 2021. Utilizando métodos estatísticos sofisticados, eles investigaram se existe uma relação entre a imposição de sanções econômicas e o aumento das mortes nesses países.

    Os resultados são perturbadores.

    Segundo o estudo, sanções econômicas estão associadas a um aumento significativo da mortalidade nas populações atingidas.

    E quem sofre mais não são os governantes ou as elites políticas.

    São os mais vulneráveis.

    Crianças pequenas.

    Idosos.

    Pessoas doentes que dependem de sistemas de saúde frágeis.

    O estudo estima que essas sanções estejam associadas a cerca de 560 mil mortes por ano no mundo.

    Isso ocorre porque sanções econômicas frequentemente afetam dimensões muito concretas da vida cotidiana. Elas podem limitar a capacidade dos países de importar bens essenciais, reduzir receitas públicas e dificultar o funcionamento de serviços básicos.

    Na prática, isso significa menos acesso a:

    • medicamentos,
    • equipamentos médicos,
    • alimentos,
    • água potável,
    • e financiamento adequado para os sistemas de saúde.

    Os pesquisadores também observaram que os efeitos mais fortes aparecem nas sanções econômicas unilaterais, particularmente aquelas impostas por grandes potências econômicas — entre elas, de maneira destacada, os Estados Unidos da América.

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    O impacto dessas medidas recai sobretudo sobre populações civis que pouco ou nada têm a ver com as decisões políticas de seus governos.

    Cuba é um dos exemplos mais gritantes dessa guerra suja.

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    Talvez por isso alguns pensadores tenham levantado uma ideia inquietante: certas decisões políticas podem produzir consequências humanas tão devastadoras quanto as guerras.

    A dominação de um país, afinal, nem sempre se faz apenas com exércitos ou batalhas. Em alguns casos, ela pode ocorrer de forma muito mais silenciosa — por meio de pressões econômicas que, lentamente, deterioram as condições de vida de uma população inteira.

    E assim, enquanto a guerra continua sendo reconhecida como tragédia evidente, outras formas de violência coletiva podem permanecer quase invisíveis.

    Talvez o verdadeiro desafio moral do nosso tempo seja reaprender a reconhecer também essas guerras silenciosas.

    Referência

    Rodríguez F, Rendón S, Weisbrot M.
    Effects of international sanctions on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis.
    The Lancet Global Health. 2025

     


    Táki Athanássios Cordás é Coordenador da Equipe Multiprofissional de Assistência do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP. Coordenador do Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM) do IPQ-HCFMUSP. Prof. dos Programas de Pós-Graduação do Departamento de Psiquiatria da USP, do Programa de Neurociências e Comportamento do Instituto de Psicologia da USP e do Programa de Fisiopatologia Experimental da FMUSP. Pós-Graduação (lato sensu) em Filosofia (PUC-RS).

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.