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    Economia

    Guerra no Irã, petróleo e crise energética: energia cara, futuro incerto

    Prolongamento da guerra deve causar a maior crise em décadas. Ações de Trump afetam a economia mundial e tornam mais incerta a transição energética

    POR: Luís Eduardo Duque Dutra

    14 min de leitura

    Torre de destilação instalada em refinaria de petróleo em Arak (Irã), usada no processamento de petróleo bruto. Foto: Omid Jafarnezhad (Wikimedia Commons, CC BY 3.0)
    Torre de destilação instalada em refinaria de petróleo em Arak (Irã), usada no processamento de petróleo bruto. Foto: Omid Jafarnezhad (Wikimedia Commons, CC BY 3.0)

    Após analisar, no artigo anterior, o choque de preços e os efeitos imediatos da guerra sobre o mercado de energia, este texto examina as implicações mais profundas para a economia mundial, as consequências para o processo de transição energética e o cenário geopolítico internacional.

    Alta de preços, fim da capacidade ociosa, destruição da demanda e impacto macroeconômico

    Em razão de sua magnitude, as consequências do choque de oferta podem ser apenas remediadas. A liberação recorde das reservas estratégicas e, em seguida, a suspensão do embargo ao petróleo russo (aquele óleo que estiver embarcado poderá ser comercializado), são medidas paliativas que mal postergarão a alta dos preços e não mitigarão a volatilidade. Com menos de quinze dias de conflagrações, as rupturas e interrupções dos fluxos logísticos foram suficientes para trazer escassez ao mercado de correntes de petróleo ácido com médio grau API, como aquelas produzidas na Península Árabe. O mesmo acontece com o gás ácido extraído na mesma região.

    Em decorrência dos problemas de abastecimento, frente ao petróleo Brent, o ágio da corrente de óleo tipo Dubai que, normalmente, gira em torno de US$ 10 por barril, atingiu US$ 21 por barril em 12 de março. A relação WTI e Brent também não saiu incólume: o desconto, que estava entre US$ 6 e US$ 7 por barril, caiu para US$ 2 por barril naquela mesma sexta-feira. A falta de uma corrente, na verdade, tem impacto imediato no refino, devido à rigidez do processo quanto ao tipo do petróleo. No caso da escassez de óleo árabe médio, foram os refinadores localizados na Ásia os mais afetados e o resultado são as longas filas nos postos de combustíveis do continente, cuja imagem deu a volta no mundo. Os desajustes nos diferentes mercados serão cada vez mais frequentes e as acomodações parciais na organização industrial, como estas, irão se multiplicar na medida em que a guerra se estenda no tempo.

    Comparada à situação anterior, nas condições de oferta, a mais importante mudança foi o súbito desaparecimento da capacidade ociosa que existia na indústria até fevereiro passado. Como visto, toda ela estava localizada na zona do conflito. Foi esta capacidade que contribuiu para afrouxar as pressões sobre o preço nos últimos dois anos, apesar das sanções ao petróleo iraniano, russo e venezuelano. Para 2026, as projeções apontavam um preço médio entre US$ 60 e US$ 62 por barril, em queda em relação aos últimos anos. No vigésimo dia de guerra e supondo mais dez dias, as previsões apostam em US$ 85 por barril, no mínimo, para a média de preço deste ano. Foi mencionado que os crescentes danos à infraestrutura petrolífera claramente sobrecarregam os esforços e o tempo de reparo para recuperar as antigas condições operacionais. Muito provavelmente, a perda da capacidade ociosa trará reflexo nos preços do petróleo e do gás natural até 2027, tão grande é a destruição causada.

    Por maior que seja a inelasticidade-preço da demanda (sua baixa sensibilidade às variações de preço), mudanças desta magnitude, com preços que dobram em poucas semanas, acabam por destruir a procura pela mercadoria. A preços superiores a US$ 100 por barril, o custo de substituição dos derivados é sensivelmente reduzido e até o carvão ganhará mercado.

    Antes da guerra, um aumento do consumo de mais ou menos um milhão de barris por dia era a previsão para este ano. Em 20 de março, sem indicação do fim imediato da guerra, as projeções diminuíram o aumento esperado do consumo de derivados para este ano pela metade: 500 mil bpd a mais, somente. Foi visto que, no transporte e na petroquímica, os efeitos chegam sem demora. De acordo com consultorias especializadas, quinze dias de guerra bastaram para destruir 500 mil barris por dia de vendas de combustíveis aeronáuticos e marítimos. O progresso da atividade offshore nos países do Golfo Pérsico foi mencionado e é parte da explicação. Adiciona-se a estratégia de diversificação com hubs gigantescos de transporte aéreo e que se encontram fechados.

    Quanto a gasolina e o óleo Diesel, a destruição da demanda não se limita ao Oriente Médio, ela ocorre em escala mundial. Somente na primeira quinzena de março, estima-se que o aumento generalizado do preço já amputou a procura em 100 mil barris por dia. Não se compara ao que ocorre na petroquímica, onde se espera que um milhão de barris por dia não serão transformados neste mês.

    A dimensão microeconômica do abalo somente é igual àquela macroeconômica. Já sublinhada, tão característica das mercadorias aqui tratadas – petróleo, gás natural, derivados e petroquímicos –, a ubiquidade amplia o escopo e multiplica o impacto do choque decorrente do fechamento do estreito e da suspensão de 9 milhões de barris por dia de um total de 15 milhões exportados pelo local (fora as exportações persas).

    Os ataques às instalações petrolíferas, que se intensificaram na terceira semana de conflito, emitem um sinal alarmante. Em todo mundo, o impacto inflacionário será sentido e, até aqui, com o que se tem, espera-se um acréscimo de 0,2% na inflação mundial de 2026. Quanto ao magro crescimento esperado de 3,3% do PIB, ele já foi amputado em 0,3%. Essas estimativas foram calculadas pelas instituições multilaterais e consultorias para o caso de a conflagração durar até trinta dias. Ainda não foi satisfatoriamente sublinhado, sem uma desescalada militar, dois meses de guerra ocasionarão a maior crise econômica e política em décadas.

    Últimas observações sobre o final da década, a matriz energética e a geografia da indústria de O&G

    De todo modo, a década iniciada com a pandemia parece fadada ao desastre. Nem saíra da tragédia na saúde pública planetária e a Europa viu o início do mais longo conflito militar que o continente conheceu após a II Guerra Mundial. Deflagrada em fevereiro de 2022, a guerra da Ucrânia, aliás, provocou um choque energético em muito semelhante em termos de impacto com o que se vê atualmente.

    O início da segunda metade da década não parece ter melhor sorte. Donald Trump assumiu um segundo mandato com ainda maior disposição de impor suas vontades do que em 2017. Em 2025, sua volta ficou marcada pelo tarifaço no comércio internacional, pelo cancelamento de todos os compromissos relativos à descarbonização e, no plano interno, pelo embate contra as instituições e pela caça aos imigrantes ilegais. Em 2026, bastaram dois meses para beirar o caos: em 3 de janeiro, suas tropas sequestraram o presidente Nicolás Maduro e, em 28 de fevereiro, ele atacou o Irã.

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    Antes de responder o que pode pará-lo, cabem duas ou três observações.

    A primeira é sobre o que esperar deste último revés – o ataque de Trump ao Irã – no que concerne às perspectivas da segunda metade da presente década. Difícil que ela não acabe frustrada quanto ao crescimento, o que confirmaria a estagnação secular do capitalismo, como definiram os economistas clássicos nos séculos XVIII e XIX. Tudo indica que a média de crescimento mundial ficará aquém da média da década passada e muito próxima às taxas das duas últimas décadas do século passado e da primeira deste; sempre abaixo de 2% ao ano em termos de PIB per capita. Péssimo sinal: o crescimento perde força década após década faz cinquenta anos e após tantos abalos, na presente década, nada indica a reversão da tendência. Acrescente-se, sem maiores divagações, que a estagnação parece refletir o declínio do capital ocidental.

    A segunda observação é sobre a transição energética e tem dois lados. Pelo lado negativo, o menor crescimento, a maior inflação, a crescente incerteza e o maior custo de capital, incluindo o juro dos bancos centrais, configuram um cenário de queda das expectativas de lucro, seguida pela redução do investimento. O resultado inelutável é a perda de velocidade da transformação da economia. A inércia estrutural só é abalada pelos fortes choques energéticos de quando em quando. Faz cinquenta anos, foram as duas crises petrolíferas que revelaram a dependência exagerada do mundo ao petróleo produzido pela Opep.

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    A matriz energética pouco se afastou dos hidrocarbonetos depois disso. As duas crises recentes desnudaram a dependência ao gás natural que resultou da estratégia de diversificação inicial. Em 2022, a urgência para substituir o fornecimento dos gasodutos vindos da Rússia foi remediada pela importação massiva de gás natural liquefeito. Não foi o bastante. Em 2026, a despeito de ter trazido tanta flexibilidade ao comércio do energético, é justamente o GNL que revela sua vulnerabilidade e impõe súbitos e significativos sobrecustos aos consumidores.

    Para completar, ainda de cunho extremamente negativo, a guerra em andamento é um sinal flagrante das crescentes dificuldades do cenário internacional. A degradação das relações internacionais é evidente com a completa falência da negociação diplomática, o que vem a se somar à contestação cada vez maior dos acordos e instituições multilaterais. Conclui-se que a transição energética não terá somente sua velocidade diminuída, ela se fará também de forma profundamente desordenada, ao menos até o final da década.

    Se existe um lado positivo, quanto às consequências do ataque israelo-estadunidense, é o abalo causado na procura por hidrocarbonetos e a consequente destruição da demanda no longo prazo. As placas tectônicas, que suportam a matriz energética, têm mais uma justificativa para se movimentarem, mesmo que lentamente. A elevação do preço dos combustíveis fósseis, de forma significativa e por algum tempo, alavanca a substituição deles e, em especial, a eletrificação.

    Não se trata apenas da mobilidade com o avanço da nova frota de veículos privados e dos meios coletivos (como o metrô, o VLT e trens de alta velocidade), refere-se igualmente à eletrificação das residências (cocção, aquecimento e demais usos) e aos processos industriais. Em alguns destes, na petroquímica, siderurgia e nas cimenteiras, o abatimento das emissões se mostra particularmente difícil. Em todos os demais, o ganho de eficiência energética no uso final da eletricidade, somado à queda substancial dos custos de geração eólica e solar, tem sido mais que suficiente para acelerar a descarbonização da economia. Aqueles que mais sucesso obtiveram nesta trajetória, como é o caso da China, estarão menos vulneráveis aos impactos da guerra em andamento. Terão também justificativas para reforçar suas políticas públicas em relação à energia e ao clima.

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    Uma última e curta observação sobre a questão energética tem a ver com mudanças na geografia da indústria de hidrocarbonetos. A energia, como bem sintetiza o Balanço Energético de um país, comporta-se como um fluxo, da fonte ao uso final, ela se movimenta e se transforma. Como para qualquer fluxo, interrupções e sangrias são fortemente gravosas. O fechamento do Estreito de Ormuz coloca em xeque a logística de transporte e, em razão do custo elevado e risco de se repetir, ocasionará alguma realocação em termos de distribuição dos ativos e diversificação de fontes.

    Já existiam fortes indícios de que aconteceria, mas a guerra reforça o movimento. Nos próximos cinco a dez anos, o futuro da indústria passa pelo Atlântico Sul, em províncias suficientemente distantes dos conflitos do Oriente Médio. O desenvolvimento das reservas ultra profundas do pré-sal e da Guiana do lado de cá e daquelas existentes no Golfo da Guiné, do lado africano, bastam para içar esta parte do Oceano ao protagonismo neste início de século.

    A extração de O&G de reservas não convencionais em Vaca Muerta, na Argentina, terá o mesmo impacto das duas províncias offshore sul-americanas anteriores. Em 2025, um consórcio entre a Ecopetrol e a Petrobrás revelou a maior reserva de gás natural descoberta na Colômbia, no mar do Caribe. Da mesma forma, as fronteiras exploratórias são promissoras, como é o caso da margem equatorial brasileira, da costa de Suriname e da Guiana Francesa, ou do outro lado, como a bacia sedimentar submersa da Namíbia e da África do Sul. Assim, sem contar a Venezuela, o Atlântico Sul é uma via de transporte segura e abriga enorme potencial produtivo, o que certamente atrairá o capital petrolífero.

    Por fim, sobre Trump…

    Como mostra o primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, mais do que nunca, o imponderável deve constar do planejamento estratégico de qualquer empresa, governo ou instituição multilateral. Seu comportamento vai muito além do desprezo a qualquer princípio do direito internacional. São recorrentes as quebras dos protocolos diplomáticos e as declarações extemporâneas.

    Difícil não concluir que as relações internacionais vivem tempos de barbárie. A tentativa de reconquista da hegemonia passa pela imposição de um mercantilismo ainda mais tosco que o original, um colonialismo armado e explícito, além de uma política energética retrógrada.

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    Mais grave é que tudo isso é levado a cabo em ações marcadas por uma brutalidade ímpar. A banalização do sequestro de um presidente, a campanha sistemática para assassinar líderes religiosos e políticos, ataques a escolas, hospitais e infraestrutura civil, devastações massivas de bairros e cidades, milhões de refugiados sem abrigo… No século XXI, no Chifre da África, no Leste da Europa e no Oriente Médio, quem diria, a guerra voltou a não ter qualquer limite e, assim, revelar os piores sentimentos morais do homem.

    Por fim, como colocado no início, até onde vai Trump? O que ou quem pode parar tamanho retrocesso civilizatório? Como notado, dois meses de guerra causarão a maior crise em décadas. Enquanto os objetivos militares não forem atingidos, será o exponencial custo econômico de sua continuação que determinará o seu fim. Tanto no plano internacional, quanto nacional, Trump será pressionado para reduzir as perdas que se acumulam e, em breve, tornar-se-ão irrecuperáveis.

    Pelo que foi visto de seu comportamento, pouco importa as demais nações, somente interessa o eleitor dos EUA. Neste ponto, ele tem razão. Caberá a eles, nas eleições de novembro, colocar um termo ao pesadelo. Até lá, intempestivo e temperamental, o que ele vai fazer é difícil prever.

    + Para entender o choque de preços e os impactos imediatos da guerra sobre o mercado de energia, leia a primeira parte desta análise: Guerra no Irã, petróleo e crise energética: choque de preços no mercado global

    Referências

    CHEVALIER, Jean-Marie (2004). Les grandes batailles de l’énergie : petit traité d’une économie violente. Paris: Gallimard.

    DUTRA, Luís Eduardo Duque (2019). Capital petróleo: a saga da indústria entre guerras, crises e ciclos. Rio de Janeiro: Ed. Garamond.


    Luís Eduardo Duque Dutra é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Paris-Nord e professor associado da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião da Fundação Maurício Grabois.

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