Donald Trump rasgou de vez as fantasias do imperialismo ao abandonar aquelas alegações absolutamente falsas e hipócritas largamente utilizadas pelas potências capitalistas para oprimir outras nações. Coisas como “defesa da democracia”, “retirar um ditador do poder”, “garantir a liberdade”, “evitar que aquele regime tenha armas atômicas”, dentre outras desculpas completamente esfarrapadas.
Neste seu já trágico, violento e patético segundo mandato, Trump e seus falcões neofascistas incrustados na Casa Branca passaram a adotar uma retórica sem subterfúgios que esconde segundas intenções. Os objetivos são absolutamente transparentes: reconquistar a hegemonia perdida nos últimos anos, em termos econômicos e políticos, utilizando, para tal, a chantagem grosseira, os “tarifaços”, sanções de diversos tipos e o uso da força militar a qualquer momento contra quem quer que seja. “Fazer a América Grande Novamente”, custe o que custar.
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O imperialismo é desdobramento do colonialismo original
Desde meados do século XIX, as potências industrializadas da Europa – e mais tarde Estados Unidos e Japão – implementaram a política de intensa violência contra os povos da África, Ásia e Oriente Médio,
Desde meados do século XIX, as potências industrializadas da Europa – e, mais tarde, Estados Unidos e Japão – implementaram a política de intensa violência contra os povos da África, Ásia e Oriente Médio. Invadiram territórios, submeteram populações locais, dominaram seus mercados internos e arrancaram enormes quantidades de riquezas, de produtos agrícolas a matérias-primas e metais preciosos, essenciais para a manutenção da industrialização nos países invasores. É fácil entender que o capitalismo, após a segunda metade do século retrasado, só se manteve em pé, essencialmente, exatamente por esse movimento invasor, conhecido singelamente como neocolonialismo.
Não custa lembrar que a própria Europa havia imposto séculos de brutal dominação sobre todo o continente americano e partes do africano, entre os séculos XV e início do XIX, a partir da enorme expansão comercial, militar e religiosa, promovida inicialmente por Portugal e Espanha, seguidas por França, Holanda e Inglaterra. Entre guerras de dominação, escravização em massa e transmissão de doenças diversas inexistentes na “América”, promoveu o maior genocídio da história humana. Estudos diversos apontam que cerca de 70 milhões de habitantes originais morreram como resultado da ocupação europeia no nosso continente. Além do morticínio das pessoas, nações, línguas e culturas inteiras foram simplesmente exterminadas para garantir a posse do território aos europeus.
Ao lado do genocídio dos povos e nações daqui, a Europa foi responsável por outro movimento absolutamente articulado com a devastação dos povos nativos – e exatamente por isso em essência – que foi a imensa diáspora africana. Ao menos 12 milhões de africanos de diversas regiões e nações foram deslocados para servir como mão de obra escravizada na América, Caribe e na própria Europa. Karl Marx classificou o movimento colonial europeu desse período como essencial para a chamada “acumulação primitiva do capital” que possibilitou o advento do Capitalismo como sistema dominante.
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Para Marx, economistas e historiadores(as) de diversas correntes de pensamento, a conjunção entre escravização, tráfico humano e comércio colonial resultou numa poderosa rede de geração de capitais. Essa dinâmica alimentou as burguesias europeias, forjou uma elite colonial branca nas Américas e foi essencial para impulsionar o desenvolvimento das forças produtivas na Europa, culminando na Revolução Industrial da segunda metade do século XVIII. Numa frase: o capitalismo se forja a partir, também, do saque brutal de dois continentes, África e América.
Na segunda onda expansionista, classificada como “imperialista”, a partir de meados do século XIX, vários dos argumentos esgrimidos pelas nações europeias para sua implementação variavam da defesa do livre-comércio associando isso à “liberdade” de modo mais amplo, à pregação de que a Europa cristã tinha uma “missão civilizatória”, um “fardo civilizador”, introduzindo os “povos bárbaros” da África, Ásia e Oriente Médio no maravilhoso mundo do capitalismo com seu progresso técnico-científico, instituições construídas em leis, Estado Democrático de Direito, rotatividade de poder (ouçam enormes gargalhadas!) e outras patéticas alegações do tipo. Sob esse enorme conto da carochinha, Europa, Japão e EUA conduziram um período dantesco da história humana.
Além do resultado geral profundamente negativo para os povos dos continentes invadidos e dominados pelo imperialismo, e das brutais guerras de dominação e resistência que se seguiram, aquele movimento resultou em duas guerras mundiais entre as próprias potências industrializadas. Ambas (1914-1918 e 1939-1945) ocorreram, essencialmente, para que as burguesias à frente dos grandes conglomerados privados, com seus respectivos Estados nacionais a seu serviço, tentassem redesenhar colônias e territórios ocupados conforme seus interesses, já que a corrida colonial havia beneficiado principalmente França e Inglaterra, em detrimento de Itália, Alemanha e Japão.
Reconfiguração do poder mundial e o imperialismo sem mediações ideológicas
No pós-guerra, especialmente ao fim da Segunda Guerra, os EUA emergiram como a principal nação capitalista do mundo, mas tiveram de compartilhar com a União Soviética vastos espaços territoriais, a partir da formação do bloco socialista na Europa. Ao mesmo tempo, tiveram de conviver com a vitória do Partido Comunista na China e com o desenvolvimento de novas nações socialistas, como Vietnã, Coreia Popular e Cuba, e de países que se posicionavam em torno do Socialismo na África. Nos anos 1970, cerca de 1 bilhão dos 4 bilhões de habitantes do planeta viviam em países autoproclamados socialistas.
É desse cenário do pós-guerra, convencionado como “Guerra Fria”, que o imperialismo estadunidense passa a desenvolver sua lógica de disputa com a União Soviética, principalmente nos termos da propagação ideológica de que o campo capitalista representava o “mundo livre”, que combatia as “ditaduras comunistas”. De lá para cá, até o fim do governo de Joe Biden, em 2024, os discursos imperialistas – estadunidenses e europeus – assumiram a fantasia democrática, difundida em larga escala pelos meios de comunicação do mundo capitalista, inclusive no Brasil.
Seria tedioso elencar a extensa ação política do imperialismo na derrubada de governos de cunho nacionalista, avessos aos ditames de Washington e da Europa. Entre operações de desestabilização de diversos tipos, ações militares diretas e bloqueios econômicos nefastos, os EUA, com apoio da OTAN, intervieram em 80 nações desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Destaco dois casos: a derrubada do governo nacionalista iraniano liderado pelo então primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, em 1953, após a nacionalização do petróleo (1951), resultado de uma conspiração envolvendo a CIA, o MI5 britânico, mafiosos e setores da burguesia iraniana. Qual a alegação? Mossadegh representaria uma ameaça à liberdade e teria vínculos com o comunismo!
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Destaco ainda o caso do Brasil e o golpe de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, novamente sob a acusação de supostos riscos do nosso país virar “comunista”, uma “república sindicalista”, ao lado de denúncias difusas de corrupção e outras insanidades.
A nova ofensiva dos EUA e o alvo chinês
Hoje, Trump e sua trupe neofascista abandonam o discurso “democrático” e vão direto ao assunto: controle comercial, exploração de riquezas e interferência direta para garantir governos dóceis. O alvo estratégico, dito sem rodeios, é a China – a grande nação socialista que se consolida como referência global em desenvolvimento econômico, humano e tecnológico e que, há um bom tempo, já superou os EUA em diversos setores. Alguma dúvida? Basta ler a alentada “Nova Estratégia de Segurança Nacional”, lançada por Trump no final de 2025.
Ao “abrir o jogo”, Trump nos presta um favor, especialmente no campo da luta de ideias e da propaganda revolucionária. Ao desnudar os interesses expondo-os à luz do dia, melhora nossas condições de combate. Nos resta aproveitar!
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Bibliografia sugerida
- Imperialismo: um estudo – John A. Hobson
- Imperialismo: fase superior do capitalismo – Vladimir Ilitch Lênin
- A Acumulação do Capital: uma contribuição para o estudo do imperialismo – Rosa Luxemburgo
- A Era dos Impérios – Eric Hobsbawm
Altair Freitas é historiador, professor aposentado e secretário nacional de Organização do PCdoB.
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião da Fundação Maurício Grabois.