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    China

    Como resistência do Irã diante dos EUA pode abrir espaço para a China

    Elias Jabbour avalia que fechamento do Estreiro de Hormuz pode afetar petrodólares, responsável pela manutenção do dólar como moeda mundial, e abrir espaço para a moeda chinesa, causando o colapso dos EUA como potência militar

    POR: Elias Jabbour

    7 min de leitura

    População vai às ruas para lamentar a morte do líder supremo da República Islâmica, aiatolá Seyyed Ali Khamenei, em Ardabil (Irã), 1º de março de 2026. Foto: RS / via Fotos Públicas.
    População vai às ruas para lamentar a morte do líder supremo da República Islâmica, aiatolá Seyyed Ali Khamenei, em Ardabil (Irã), 1º de março de 2026. Foto: RS / via Fotos Públicas.

    Em uma coluna do início de março, expus os motivos envolvidos nas agressões dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.  Considero esta uma proxy war na qual Israel arrasta os Estados Unidos para uma guerra completamente desnecessária. Os EUA não tinham razão para ese envolverem neste conflito, a não ser para atender a pedidos de Israel, o que inclui ameaças veladas de exposição de arquivos que comprometem diretamente o governo de Donald Trump. Os iranianos também chamam este conflito de uma guerra desnecessária.

    Naquele momento existia uma crença nos Estados Unidos, baseada na arrogância de terem conseguido entrar no espaço aéreo da Venezuela e sequestrar seu presidente em pouco tempo, de que poderiam tudo. Essa mentalidade remete ao início da Guerra do Iraque em 2003, quando tomaram Bagdá e derrubaram Saddam Hussein em semanas. A ideia de mudança de regime no Irã obedecia a essa lógica já comprovada, em tese, no Iraque e na Venezuela.

    Aconselhados por Israel, os Estados Unidos partiram para a chamada “decapitação” das principais lideranças iranianas, começando pelo Aiatolá Khamenei, o Ministro da Segurança Nacional e os chefes da Guarda Revolucionária. Esperava-se desmoralizar o governo e baixar o moral da população, aguardando que as pessoas fossem às ruas para derrubar o regime. Nada disso aconteceu.

    Houve uma leitura equivocada: no xiismo, o martírio é o ato supremo. O assassinato das lideranças civis e militares gerou coesão popular em torno do governo. Talvez a República Islâmica do Irã nunca tenha estado tão legitimada como hoje. Isso prova a arrogância ocidental e a completa falta de conhecimento de culturas milenares como a chinesa e a iraniana. O povo iraniano lutará até o fim pela sobrevivência de sua civilização.

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    O Irã não é um país fácil de lidar militarmente: possui 90 milhões de habitantes e uma das geografias mais complicadas para se enfrentar em uma guerra. Na arte da guerra atual, o Irã demonstra que a questão não é apenas se defender bem, mas possuir um poder de contra-ofensiva avassalador, o que tem surpreendido tanto Israel quanto os Estados Unidos. Seus alvos preferenciais incluem centros militares e nucleares em Israel, além das bases militares estadunidenses nas monarquias do Golfo Pérsico, que foram atacadas desde o início do conflito.

    Outro ponto demonstrado pelo Irã é a transformação da assimetria de forças a seu favor. O país sofre sanções pesadíssimas há mais de 40 anos, o que, na estratégia imperialista, deveria enfraquecer sua economia e modernização militar. No entanto, o Irã nunca deixou de focar na construção de uma capacidade de defesa e contra-ataque, baseando-se na experiência da Coreia Popular.

    Eles estudam as táticas militares dos Estados Unidos há 20 anos, analisando cada variável de ataque e defesa testada no Iraque, no Afeganistão e no Vietnã. O Irã segue o exemplo do Vietnã com muita fidelidade. O país concentrou seus escassos recursos na construção de uma capacidade militar capaz de gerar contra-ofensivas assustadoras contra alvos do imperialismo e Israel. Atualmente, o Irã é o quinto país que mais forma engenheiros no mundo, e todo o seu esforço acadêmico e produtivo está orientado para esta guerra.

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    Eles utilizam a assimetria a seu favor, como no caso dos drones. O Irã possui milhares de drones e mísseis balísticos em cidades subterrâneas. Para destruir cada drone, seria necessário um míssil, o que coloca em questão a capacidade de defesa de Israel e dos Estados Unidos diante de um ataque massivo. Ao contrário de guerras passadas, como a dos Seis Dias (1967), onde as aviações do Egito e da Uganda foram destruídas ainda no solo, o aparato militar iraniano está protegido embaixo da terra e continua operante.

    O Irã parece preparado para uma guerra de longo prazo, calculando que o desgaste será maior para o Ocidente. Como dizia o general Vo Nguyen Giap (1911–2013), vencedor no Vietnã, uma guerra não é decidida apenas pela capacidade de causar danos, mas pela capacidade de tolerar danos a si mesmo. O Irã sofrerá golpes em sua infraestrutura, mas sua disposição em suportar esses danos é o que determinará o fim da guerra. Eles planejam este confronto há mais de 20 anos.

    No aspecto econômico, o Irã pode abalar a economia internacional ao fechar o Estreito de Hormuz, o que causaria inflação, aumento de juros e recessão global. As cartas estão nas mãos do Irã, e um cessar-fogo hoje só ocorreria nos termos iranianos, exigindo reparações de guerra e de sanções. Para os Estados Unidos, aceitar isso seria uma humilhação política que poderia levar as petromonarquias a saírem de seu controle. Isso afetaria a reciclagem dos petrodólares, que é a base do poder do dólar no mundo.

    Nesse cenário, a China ganharia espaço, e o Yuan poderia substituir o dólar nas transações de petróleo, o que seria uma tragédia para os Estados Unidos e poderia levar ao seu colapso como potência militar mundial. Além disso, a Europa está pagando um preço alto com a alta do petróleo e pode ser forçada a se reaproximar da Rússia. Esse desarranjo no Oriente Médio também levaria países como Coreia do Sul e Japão a se rearmarem, gerando mais instabilidade na Ásia.

    Outro cenário possível seria uma invasão americana à Ilha de Kharg, que processa 90% das exportações de petróleo iraniano. Embora pudesse ser vendida como uma vitória retumbante, a necessidade de controlar o litoral iraniano colocaria os soldados diante de montanhas ideais para a guerra de guerrilha, o que poderia resultar em uma derrota tão humilhante quanto a do Vietnã.

    Para mim, os americanos já perderam esta guerra, pois mesmo uma vitória militar não significaria a queda do governo iraniano, que é o seu objetivo estratégico. No limite, não descarto a utilização de armas nucleares táticas por Israel, um Estado messiânico e reacionário onde a derrota não é aceita.

    A solução razoável seria os Estados Unidos aceitarem o fim da era de superpotência única e reconhecerem a multipolaridade, dando espaço para China, Índia, Rússia, Irã, Europa, América Latina e África nas tomadas de decisão mundiais. No mundo de hoje, Israel tornou-se um epicentro de instabilidade cuja sobrevivência depende de genocídios e ocupações.

    A única solução de longo prazo que vejo para aquela região seria uma Palestina democrática, onde judeus e árabes convivessem pacificamente, com a volta dos refugiados e garantias de dignidade para todos os povos que ali habitam.

    Assista a íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour

    Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.

    *Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 01/04/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundaçãa Maurício Grabois.