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    Economia

    O dia em que o mundo atravessou o Estreito de Ormuz

    Ataque contra o Irã desloca o eixo do sistema energético global. Nesse cenário, Petrobras deixa de ser apenas uma empresa relevante e passa a ser um ativo geopolítico

    POR: Allan Kardec

    7 min de leitura

    Imagem de satélite mostra o Estreito de Ormuz entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, região estratégica para o transporte global de petróleo e energia. Imagem: NASA/NOAA Suomi NPP/VIIRS (2019)
    Imagem de satélite mostra o Estreito de Ormuz entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, região estratégica para o transporte global de petróleo e energia. Imagem: NASA/NOAA Suomi NPP/VIIRS (2019)

    No último 1º de abril, enquanto a NASA avançava mais um passo à Lua no programa Artemis — reafirmando a capacidade humana de projetar-se para além da Terra —, uma realidade desconcertante se impunha no Brasil: cerca de um terço da população ainda não acredita que o homem tenha ido à Lua.

    A contradição é mais do que anedótica. Ela revela uma fratura profunda entre capacidade técnica e percepção coletiva da realidade. E é exatamente nesse mundo — tecnologicamente sofisticado, mas cognitivamente fragmentado — que se desenha a nova geopolítica da energia.

    O ataque coordenado de Estados Unidos e Israel contra o Irã não é apenas mais um episódio de tensão regional. Ele desloca o eixo do sistema energético global. O Estreito de Ormuz deixa de ser apenas um gargalo conhecido e passa a se configurar como um ponto de ruptura ativa — um lugar onde o risco deixa de ser hipótese e se torna variável dominante.

    O efeito imediato não é apenas preço. É desorganização. O sistema energético global, ao longo de décadas, foi otimizado sob a lógica da eficiência: rotas previsíveis, contratos estáveis, fluxos contínuos.

    O que se rompe agora é essa previsibilidade. E, quando ela se esvai, o custo real não está apenas no barril de petróleo, mas na entropia do sistema — que é a melhor medida física de desorganização, em uma única variável.

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    Esse fenômeno pode ser observado com clareza no caso da Alemanha. Ao analisarmos os dados recentes — como nos gráficos de comparação da mudança energética do país, de gasoduto para importação de GNL e, sobretudo, na evolução da entropia da matriz energética entre 2016 e 2026 —, torna-se evidente que o país atravessou uma transição estrutural após o colapso do Nord Stream.

    Gráfico mostra a redução do uso de gasodutos e o aumento do GNL na matriz de importação de gás da Alemanha entre 2016 e 2026, indicando maior diversificação e complexidade energética. Crédíto: Allan Kardec

    Figura 1 — Reconfiguração das importações de gás da Alemanha (2016–2026). A curva de gasodutos mostra fluxos elevados e estáveis até 2021, dominados pelo gasoduto Nord Stream – que ligava a Rússia à Alemanha, seguidos de queda abrupta após sua descontinuação em 2022 — decorrente das explosões cuja autoria permanece indefinida. Em contraste, a curva de GNL cresce rapidamente no mesmo período, refletindo a substituição emergencial por suprimento marítimo – vindo de outros países como os EUA – que têm a característica de ser mais dispersos e logisticamente mais complexos. Crédíto: Allan Kardec

    Antes, havia ordem: fluxos dominantes, previsíveis, concentrados. Depois, há dispersão: múltiplas origens, contratos fragmentados, maior complexidade logística. A entropia da matriz energética alemã aumenta, conforme mostrado na figura 2. E esse aumento não é um detalhe técnico — é um marcador físico de desorganização sistêmica.

    Figura 2 — Evolução da entropia da matriz de suprimento de gás da Alemanha (2016–2026). A entropia, calculada a partir da distribuição relativa entre fontes de importação (gasoduto vs GNL), evidencia o aumento da desordem estrutural do sistema energético alemão após o colapso do Nord Stream. O crescimento da entropia reflete a transição de um regime concentrado e previsível para um sistema mais fragmentado, complexo e sujeito a maior variabilidade. Crédito: Allan Kardec

    A Alemanha não é uma exceção no planeta. Ela é um prenúncio.

    O que estamos assistindo agora, com o recrudescimento das tensões no Oriente Médio, é a generalização desse fenômeno em escala planetária. O mundo entra na fase germânica: reorganização forçada, perda de eficiência e aumento estrutural da complexidade e do custo energético para a indústria e sociedade.

    A Europa, nesse novo contexto, aparece como o ponto mais exposto. Sem autossuficiência energética e já fragilizada pela ruptura com a Rússia, a região passa a operar sob uma lógica defensiva. O Sudeste asiático também foi atingido frontalmente!

    A diversificação de fornecedores deixa de ser estratégia e passa a ser imposição. O preço não é apenas monetário — é sistêmico: mais infraestrutura, mais contratos, mais intermediação, mais risco distribuído.

    Paradoxalmente, o próprio Oriente Médio e a OPEP também se enfraquecem. Não por falta de recursos, mas por excesso de instabilidade. Em energia, disponibilidade não basta — é preciso confiabilidade. E a confiança, uma vez rompida, não se recompõe com reservas, mas com tempo. Tempo que o sistema global não tem.

    É nesse rearranjo que o Brasil emerge com uma nitidez estratégica rara. Longe dos epicentros de conflito, com reservas expressivas, matriz energética diversificada e uma base institucional estável, o país passa a representar algo cada vez mais escasso: previsibilidade.

    A Petrobras, nesse cenário, deixa de ser apenas uma empresa relevante e passa a ser um ativo geopolítico.

    A crise atual adiciona, assim, um novo e incontornável argumento à exploração da Margem Equatorial. Durante anos, consolidou-se uma narrativa de vilanização do petróleo, que esteve frequentemente dissociada da realidade material do sistema energético global.

    Ela agora perde força quando confrontada pelas rupturas reais e o mundo emerge claro à nossa frente, com uma possível inflação galopante que nos atingirá a todos. O que está em jogo não é uma abstração, mas a capacidade concreta de sustentar economias, garantir fluxos e evitar colapsos logísticos.

    Mais do que isso, a crise expõe a fragilidade de um projeto implícito de dependência energética e tecnológica, no qual o Brasil seria levado a renunciar a seus recursos estratégicos. Ao fazê-lo, não alteraria a demanda nacional — apenas deslocaria a oferta para outros países.

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    E esse deslocamento fortaleceria exatamente aqueles que dominam as cadeias tecnológicas e energéticas globais, principalmente Europa e Estados Unidos, respectivamente.

    O mundo pós-Ormuz não será mais simples. Será mais caro, mais complexo e mais incerto. A eficiência dará lugar à redundância. A otimização cederá espaço à resiliência. E a entropia — antes um conceito restrito à física — se tornará uma lente indispensável para compreender a reorganização do sistema energético global.

    A Alemanha já nos mostrou esse futuro — lembre-se de dar uma olhada na crise econômica e política que ela passa hoje. Agora, ele se expande.

    Diante disso, o Brasil não pode se permitir a ilusão da marginalidade. A Margem Equatorial deixa de ser apenas uma fronteira exploratória e passa a ser uma peça central em um tabuleiro global em reconfiguração. Não se trata de escolher entre caminhos ideais, mas de compreender as forças reais que moldam o mundo.

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    Porque, enquanto alguns ainda duvidam que o homem tenha ido à Lua, o mundo real — feito de fluxos, de energia e de poder — continua a se deslocar. Como teria sussurrado Galileu Galilei diante da negação do evidente: Eppur si muove! — e, no entanto, ela se move — se referindo ao movimento da Terra.

    E, quando os estreitos se tornam zonas de incerteza e as rotas se fragmentam, são os países capazes de oferecer estabilidade que redesenham o mapa.

    No silêncio tenso que sucede às rupturas, não são as narrativas que prevalecem, mas as realidades. E entre todas elas, uma permanece inalterada: energia não é apenas recurso — é fundamento!


    Allan Kardec Duailibe Barros Filho é doutor em engenharia da informação pela Universidade de Nagoya (Japão). É professor titular da UFMA (Universidade Federal do Maranhão). Foi diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e atualmente é presidente da Gasmar (Companhia Maranhense de Gás).

    *Texto publicado originalmente no Poder360, em 05/04/2026.

    **Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.