Logo Grabois Logo Grabois

Leia a última edição Logo Grabois

Inscreva-se para receber nossa Newsletter

    Clube de Leitura

    O que quer dizer socialismo com características chinesas

    Por: Carlos Azevedo

    9 de abril de 2026

    Livro analisado
    China: tradição e modernidade na governança do país
    Autor: Evandro Menezes de Carvalho
    Editora: Batel (Selo SHŪ, em parceria com a Go East Brasil)
    Ano de publicação: 2024
    Edição: 2ª impressão
    ISBN: 978-85-7174-103-4


    Em quarenta anos, a China saiu do subdesenvolvimento para se tornar uma potência líder em produção, comércio e tecnologia, retirando 800 milhões de pessoas da pobreza extrema — resultado de uma síntese entre marxismo e tradição milenar.

    “Revitalização” ou “Renascimento” são palavras-chave para entender o movimento de longo prazo que a China desenvolve na atualidade. Elas encerram o conteúdo do projeto de um futuro socialista ambicioso que não rejeita, mas ao contrário, acolhe e integra os 5 mil anos da tradição e sua rica cultura.

    O autor é um sinólogo, viveu cinco anos na China e é fluente em chinês. Neste livro, chega a ser exaustivo no detalhamento com que descreve a República Popular da China atual. E como o país planeja chegar ao seu centenário, em 2049, como um país socialista moderno, plenamente desenvolvido, sob a direção do Partido Comunista da China (PCCh). Sem esquecer o passado.

    O presidente Xi Jinping disse em 2014:

    “O passado sempre detém a chave para o presente e o presente sempre está enraizado no passado. Somente quando sabemos de onde um país veio poderemos entender por que o país é o que é hoje, e somente então poderemos perceber em que direção ele está indo.”

    + ‘Poder e socialismo’: Elias Jabbour aprofunda tese sobre economia de projetamento na China

    Para onde a China está indo? Em 1936, após a Longa Marcha em que os comunistas percorreram 12 mil quilômetros combatendo as tropas de Chiang Kai-shek, Mao Zedong, que já era a principal liderança do Partido Comunista, fez um pronunciamento dizendo que um marxismo que não levava em conta as peculiaridades chinesas “é apenas uma abstração vazia”. Ressaltava a importância de estudar a herança histórica da China:

    “A história desta nossa grande nação remonta a vários milhares de anos. Tem suas próprias leis de desenvolvimento, suas próprias características nacionais e muitos tesouros preciosos (…) não devemos mutilar a história. De Confúcio a Sun Yat-sen devemos recapitulá-la criticamente e nos constituir herdeiros desse precioso legado.”

    Essa manifestação era uma declaração de princípios. Mas também fazia parte de uma polêmica que já se desenhava com o Partido Comunista da União Soviética que insistia com os comunistas chineses para seguirem o mesmo caminho seguido na URSS. Mao se apoiava nos camponeses, 90% da população chinesa, e os soviéticos consideravam os camponeses uma força retrógrada e priorizavam a mobilização da classe operária urbana como protagonista da revolução socialista.

    A polêmica se aguçou nos anos seguintes e terminou em rompimento entre Stalin e Mao e entre os dois partidos. O que se viu vinte anos depois foi a vitória dos comunistas e seu Exército Popular, composto por camponeses, intelectuais, estudantes e também trabalhadores urbanos, que chegaram ao poder em outubro de 1949, derrotando o exército japonês e depois os chamados nacionalistas de Chiang Kai-shek.

    + Partidos comunistas e a luta pelo socialismo, ontem e hoje

    Esse acontecimento histórico dá completo sentido à autodefinição atual do regime de ser “socialismo com características chinesas”.  Isto é, para os 100 milhões de membros do Partido Comunista da China, que dirige o governo e o país, o seu guia é o marxismo-leninismo. Combinado com o cultivo de sua história e cultura, que é o esteio ideológico que tempera o modo de pensar, de viver, a própria identidade dos outros 1 bilhão e 300 milhões de chineses.

    Mas não foi fácil chegar até aqui. Governada por uma sequência milenar de dinastias imperiais, a China no século XVIII era responsável por 36% do comércio mundial. Acossado por revoltas regionais e principalmente por agressões de nações ocidentais, o regime entrou em crise e particularmente no século XIX sofreu com invasões e derrotas militares impostas por nações europeias. Para enfraquecer o povo chinês os colonialistas britânicos implantaram o vício do ópio entre a população. Como o governo resistisse, infligiram ao país duas guerras, que ficaram conhecidas como Guerras do Ópio. A China passou a viver um período de caos e dependência. O império decadente foi obrigado a assinar tratados humilhantes e rapinantes impostos pelas potências europeias pela força das armas.

    Em 1919, a juventude nacionalista se insurge, derruba o império e instala a república liderada por Sun Yat-sen. Mas não tem força para se impor às potências europeias e aos chefes militares e grandes latifundiários que governam feudos pelo país, os chamados “Senhores da Guerra”.

    Uma nova fase da história do país se inicia em 1921 com a fundação do Partido Comunista da China. Cresce rapidamente nas cidades. Forma uma Frente Única com o Kuomintang (grafado também como Guomintang em pinyin), o partido nacionalista de Chiang Kai-shek para enfrentar o Japão. Mas Chiang o trai e assassina a grande maioria de seus dirigentes e massacra militantes. Duramente perseguido, o PC se refugia entre os camponeses e irá desenvolver com eles a força protagonista da revolução.

    Foi para resistir às campanhas de cerco e aniquilamento promovidas pelo Kuomintang que o recém-criado Exército Vermelho se deslocou combatendo por 12 mil quilômetros numa das maiores façanhas militares da história, na “Longa Marcha” (1934-35).

    Nos anos seguintes os comunistas ganham prestígio popular por priorizarem a guerra contra o Japão invasor enquanto o Kuomintang os perseguia e se omitia quanto à invasão japonesa. Os comunistas derrotam o exército japonês. Com grande apoio popular, em seguida bateram as tropas do Kuomintang.

    Vitória da revolução

    Em 1949 os comunistas chegam ao poder. Depois de tantos anos de conflitos a economia do país estava em ruínas. Zhou Enlai (grafado em textos antigos como Chu En-lai), o grande companheiro de Mao, conta na biografia, à escritora Han Suyin, que a situação era desesperadora. Não podiam contar com o apoio da União Soviética. Stalin mandara retirar as fábricas que doara. Tentam contato com os Estados Unidos, mas estes recusam, dando apoio a Chiang Kai-shek que se refugiara na ilha de Taiwan, de onde governava assumindo-se como governo da China.

    Sob a liderança de Mao Zedong, o PCCh recupera a independência do país e a integridade do território da China. O governo revolucionário elimina os tratados humilhantes impostos pelas potências estrangeiras e, internamente, promove uma reforma agrária, desapropriando todas as terras, estatizando as empresas. Nesse ambiente tumultuado dá ênfase à luta de classes, enfrenta as resistências às mudanças e as contradições entre os trabalhadores e os burgueses e latifundiários.

    Em 1958, Mao comanda uma industrialização forçada, o “Grande Salto Adiante”, que fracassa, e o país, cuja economia já vinha empobrecida, mergulha na crise. Milhões de chineses são levados à miséria e à fome, com grande mortandade.

    + Os caminhos da Revolução Chinesa, Augusto Buonicore

    Para tentar sair da crise Mao irá insistir na luta de classes, dando apoio ao movimento começado por estudantes, de contestação das autoridades, que irá se chamar “Grande Revolução Cultural Proletária”, cujo resultado seria a paralisação do país.

    A China mergulha num período de pobreza e de lutas pelo poder que se prolongará mesmo depois da morte de Mao, que se deu em 1976. Em 1977, depois de intensa luta interna, o moderado Deng Xiaoping (grafado em textos antigos como Deng Hsiaoping), que havia sido expurgado por Mao, assume a direção do Partido e do governo.  Ele será o arquiteto de uma reforma no pensamento e na ação do Partido que vai produzir o rápido desenvolvimento chinês a partir de 1980.

    Mao Zedong havia se dedicado a revolucionar a sociedade chinesa, a erradicar os traços de passividade de sua herança cultural, para isso teve que enfatizar o conflito, a luta de classes. Mas ele reconhecia a força das características típicas dessa sociedade. Dizia: “Não há um marxismo abstrato, mas aplicado à realidade da China”. Esse é o ponto de encontro entre o marxismo e a herança cultural, entre Mao e Confúcio.

    O confucionismo objetiva a harmonia que se baseia nos conceitos de respeito aos pais, na rede de relações pessoais, extensivos aos parentes e à comunidade, os professores, amigos etc. Remete à noção de lealdade que se espera haver entre patrões e empegados, governantes e subordinados. É a noção de benevolência ou bondade. A pessoa não se constitui como tal por si mesma, mas na relação com as outras. No confucionismo ninguém pode tornar-se totalmente humano em isolamento, nem se pode dizer que o que acontece com os outros não tem nada a ver consigo mesmo.

    Mao e Confúcio são filhos da civilização chinesa, ambos viveram tempos de turbulências internas, Confúcio por volta de 300 anos antes de Cristo. Mao viveu no século XX durante a crise do sistema imperial e o início da era republicana, marcada pelas tensões entre dinastia e República, capitalismo e comunismo, intelectuais e camponeses, conservadores e reformistas, marxismo e confucionismo. A complexa interação dessas oposições constitui o que a China é hoje.

    Da luta de classes à busca da harmonia

    Deng Xiaoping, intelectual do Partido, viveu em Paris na juventude, estudou na União Soviética. Participou com Mao e Zhou Enlai da histórica Longa Marcha. Pragmático, caberá a ele dessacralizar Mao sem negá-lo. Comandará a nova Longa Marcha rumo ao desenvolvimento. É a segunda revolução, não mais a luta de classes, mas o resultado econômico. Promove as quatro modernizações: Agricultura, indústria, defesa nacional, tecnologia e ciência.

    Reabre as universidades, prioriza Educação, Ciência e Tecnologia. Diz: “é preciso libertar nossa mente. Só assim podemos seguir o marxismo-leninismo e o pensamento de Mao para lidar com o legado histórico e os problemas emergentes!” Já não bastava ser leal ao Partido, mas era preciso ser tecnicamente competente.

    Visando dinamizar a economia Deng propõe integrar o planejamento estatal, que considerava a vantagem do socialismo, com a utilização do papel do mercado. Para ele não havia uma contradição fundamental entre socialismo e a economia de mercado, já que a prática provou que o mercado aumentou a produtividade. Em 1987 o Congresso Nacional do Partido definiu o padrão de funcionamento da economia: “o Estado guia o mercado e o mercado guia as empresas”.

    + Forças produtivas e valor: o critério do socialismo na China

    Na China de Deng a ênfase do Partido não era mais a luta de classes, mas a eliminação das contradições entre as necessidades da população e a situação precária da economia. Em vez de conflitos internos e a negação das tradições, procura a harmonia social, reconciliada com a tradição, o pensamento de Confúcio. Assim, o socialismo chinês dialoga cada vez mais com elementos da sabedoria chinesa ao mesmo tempo que busca a modernização por meio de tecnologias avançadas do Ocidente.

    Ameaça ao controle do PCCh surgiu na década de 1980 a partir de uma manifestação chamada “Muro da Democracia”. Tolerada inicialmente, foi reprimida quando foram veiculadas críticas a Deng Xiaoping. Em 1989, toma forma de questionamento do regime e acaba sendo reprimida pelo Exército contra estudantes na praça Tiananmen.

    Abertura para introduzir e assimilar tecnologia avançada

    Em 1993, o Comitê Central do PCCh aprovou por unanimidade a criação das “zonas econômicas especiais” visando atrair capital estrangeiro para incentivar o desenvolvimento nessas regiões. Elas já vinham sendo implantadas experimentalmente desde a década de 1980. Ali poderiam ser empregados métodos econômicos capitalistas e se garantia tratamento preferencial a empresários estrangeiros, como redução ou isenção de impostos, menor preço da terra, menos exigências relativas à proteção ambiental etc. Além de atrair investimentos estrangeiros, o objetivo era introduzir, assimilar e se apropriar de tecnologias avançadas, o que foi realizado com grande sucesso.

    + China e a transição global: o sentido estratégico da coletiva de Wang Yi
    + Conheça o plano da China para conquistar autonomia tecnológica até 2035

    Os impostos resultantes das regiões especiais foram destinados à modernização e equipamento do Exército Popular de Libertação, o que manteve o EPL fortalecido e próximo do poder.

    Não se pode negar o êxito do PCCh, do governo e de suas lideranças na condução do desenvolvimento desde as reformas de Deng. A China assumiu a liderança mundial em Ciência e Tecnologia. Atualmente tem 12 universidades entre as melhores do mundo. É a principal depositária de pedidos de patentes. Conta com o computador quântico mais rápido, mais veloz que o do Google. Colocou em órbita o primeiro satélite do mundo com tecnologia 6G, cuja velocidade de conexão supera em 100 vezes o 5G. Já lançou dez vezes ao espaço naves espaciais tripuladas. Em 2021, o PIB chinês alcançou a marca de 13% da economia mundial. A China se tornou o maior exportador do planeta. Mas seu maior feito foi ter tirado da extrema pobreza 800 milhões de pessoas em trinta anos.

    Para aprofundar a análise

    Os resultados apresentados até aqui são apenas parte da explicação. O livro avança, então, sobre o funcionamento do sistema político chinês, o papel do Partido Comunista, os mecanismos de participação e a inserção internacional da China no século XXI.

    Baixar a versão integral da resenha do livro:

    China tradição e modernidade na governança do país


    Carlos Azevedo é jornalista, integra o Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois. Atuou em veículos como O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Realidade e foi colaborador do Jornal Movimento. Trabalhou na TV Globo e TV Cultura, dirigiu programas políticos do PCdoB e foi editor-chefe das campanhas presidenciais de Lula em 1989 e 1994. É autor de livros como Cicatriz de Reportagem e Jornal Movimento, uma reportagem.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

    COMPRE O LIVRO
    Lançamentos da semana