A poucos meses da eleição presidencial, a incidência de alianças políticas “caleidoscópicas” — nos dois polos opostos da disputa — ganha força.
Tirante especulações meramente subjetivas, quando não tendenciosas; e a frustração do complexo midiático dominante pelo insucesso de uma pretendida candidatura dita da “terceira via”, o centro político conservador, de reconhecida força eleitoral, é alvo de disputa tanto pela ampla frente democrática e progressista reunida em torno do presidente Lula, como pela articulação de extrema direita representada pelo senador Flávio Bolsonaro.
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Em editorial recente, o Portal Vermelho avalia que o governo Lula conseguiu estabilizar sua base de esquerda e procura aproveitar as fissuras na oposição para avançar sobre o eleitorado e os segmentos de centro-direita, indispensáveis para o êxito eleitoral pretendido.
Esse movimento ganha desenhos nítidos nas composições que se formam para a disputa de governos estaduais, frequentemente destoantes do posicionamento nacional.
Tão necessária quanto contraditória
Certa vez, ao ouvir de João Amazonas sua predisposição ao diálogo com Aureliano Chaves, então vice-presidente da ditadura militar já em plena decadência, o inquiri sobre o inusitado que me parecia: “Meu caro, você conhece algum caso na História em que nossas forças avançaram sem dividir as hostes inimigas?”, respondeu.
Mas se parece óbvio frequentemente não é compreendido. A estreiteza, o sectarismo e o voluntarismo míope costumam rejeitar alianças políticas diversificadas.
Lenin, a seu tempo, travou intensa batalha contra correntes sectárias no interior do partido e grupos voluntaristas e inconsequentes que na velha Rússia também se batiam contra o czarismo, assim como nos movimentos revolucionários europeus de então.
Em Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo (1920), ele critica concepções estreitas e imediatistas predominantes no movimento revolucionário europeu. Orientava que para derrotar o inimigo principal faz-se necessário explorar contradições no seu entorno, atrair todas as correntes suscetíveis de uma aliança, mesmo que temporária, e neutralizar as que se desgarram do inimigo, mas permanecem arredias.
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Ele propunha aos partidos revolucionários o máximo de amplitude e flexibilidade sem contudo perder a identidade própria. No interior da ampla coalizão, a relação dialética entre a unidade e a luta – conduta que já defendera em Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Russa (1905), no curso da luta contra o czarismo.
Este tem sido elemento essencial na concepção tática adotada pelo PCdoB, sobretudo a partir de sua 6ª. Conferência Nacional, de 1966.
Limites da correlação de forças
No Brasil, a coalizão de forças do campo popular e democrático liderada pelo PT desde 1989 aprendeu a superar concepções estreitas e sectárias no curso de rica experiência de derrotas e êxitos.
Mas mesmo nos governos Lula 1 e Lula 2, em conjuntura internacional em muitos aspectos favorável, limitações de ordem subjetiva (carência de um projeto nacional claro e bem definido) e objetiva (força real dos segmentos da classe dominante atraídos para a coalizão) determinaram limites dos resultados alcançados.
No presente governo Lula 3, em conjuntura internacional e interna desfavoráveis, maiores são esses limites tanto em relação a pontos essenciais da Plataforma da Reconstrução Nacional adotada pela frente eleitoralmente vitoriosa em 2022, quanto às políticas sociais compensatórias (Minha Casa, Minha Vida; Luz para Todos; Pé de Meia, etc.), que esbarram em obstáculos orçamentários sob pressão do dito mercado financeiro.
Demais, antes e agora, o discurso governamental (salvo breves lampejos circunstanciais) se mantém marcadamente “economicista” e, portanto, insuficiente para esclarecer e elevar a consciência política da sua base social.
Na verdade, a frente ampla tem incorporado (corretamente) segmentos da classe dominante que alguns analistas caracterizam como “grande burguesia interna” (1), que ora assimilam proposições progressistas (governos Lula 1 e Lula 2 e Dilma), ora servem de anteparo – no parlamento e no próprio interior do governo – a passos mais ousados que possam se confrontar com interesses do capital financeiro, do agronegócio exportador e dos monopólios do varejo (atual governo Lula 3).
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Em razão disso, mesmo em conjuntura razoavelmente favorável, jamais os governos Lula 1 e Lula 2 ousaram dar passos efetivos no sentido de reformas estruturais.
Ousadia e amplitude
A Resolução Política do XVI Congresso do PCdoB propugna:
“Uma larga frente em defesa de quatro bandeiras: soberania nacional, democracia, desenvolvimento e valorização do trabalho” como indispensável à reeleição do presidente Lula, “abarcando centro, centro-direita e esquerda, sob o impulso da unidade e mobilização do povo”; “reunir forças para defender a soberania nacional, proteger e ampliar a democracia, promover o desenvolvimento e a defesa da economia brasileira, garantir melhores salários, mais direitos, vida digna ao povo… mesmo sob pesados condicionantes, entre eles o fato de ser um governo de minoria parlamentar, com um Congresso Nacional sob a hegemonia do conservadorismo, com uma numerosa bancada da extrema-direita; o forte poder da oligarquia financeira, que se robusteceu com a nefasta “independência” do Banco Central (BC); o pesado ataque do governo Trump; e a sociedade fraturada, sob influência da política e dos valores da extrema-direita.”
Ou seja, um passo adiante em relação ao atual governo, a despeito da complexa e em muitos aspectos adversa conjuntura mundial e interna.
A chave do êxito implica na elevação do nível de consciência e de organização do povo.
Isto num quadro geral de fragmentação do proletariado e demais camadas assalariadas e de ampliação do trabalho informal; ainda insipiente redesenho de formas de luta e de organização e enfrentamento da chamada “guerra cultural”.
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Diante de tamanho desafio, na conclusão do atual governo e na campanha que se avizinha, indispensável é ajustar o discurso para além da costumeira prestação de contas das “entregas” sociais e econômicas imediatas”.
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Nota
- Boito Jr., Armando: Reforma e crise política no Brasil – os conflitos de classe nos governos do PT – Editora Unicamp/Editora Unesp
Luciano Siqueira foi vice-prefeito do Recife (PE) por quatro mandatos. É membro do Comitê Central do PCdoB e coordenador do Grupo de Pesquisa Cultura & Sociedade da Fundação Maurício Grabois. Autor do Blog de Luciano Siqueira.
*Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.